Desesperado meu coração

Desesperando meu coração quer amar, amar outra vez, mais um dia, mais um pouco. Desesperado meu coração não conhece folga, paz, descanso, só turbulência, vento, sol e ondas chicoteando os pilares antigos da ponte velha. Desesperado meu coração quer saber se há de ruir a ponte velha, a praia de Iracema toda, ele próprio, se um dia as pessoas descobrirão a lagoa da Maraponga. Desesperado meu coração pede férias e desiste, diz fazer dieta e fica faminto, fala em abstenção para depois banhar-se no álcool, na erva, nas pernas, nas coxas doces dos garotos, e em todas essas outras drogas que não dão sentido a vida, mas oferecem o consolo necessário para os corações desesperados. Desesperado meu coração vai viajar, Jeri, Recife, Salvador, qualquer outra praia de longe, pois longe é o dorflex do meu coração. Desesperado meu coração manda mensagem, busca sinal, wi-fi, morre de medo de não conseguir se comunicar. Desesperando meu coração emudece, sente frio, sede, fome, chora sozinho nos dias de domingo quando todo mundo parece esquecer sua existência. Desesperado meu coração ainda crer, enquanto eu crio.

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Crônica de Natal

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Esse não foi um ano fácil. Nenhum um é para quem tem que decidir qual conta pagar e  qual conta deixar para o próximo mês; para quem vive em um mundo onde pessoas morrem todos os dias de fome, sede, de guerra, enquanto os muito ricos acham que tudo bem, isso não tem nada a ver com eles; para quem tem de sofrer humilhações cotidianas como a de não ter o dinheiro para pagar a passagem do ônibus.

Não parece nada animador escrever isso tudo em uma crônica de Natal, esse dia mágico, aparentemente feliz, aparentemente sem problemas.

Rasa e sem esperanças, essa definitivamente não pode ser uma crônica de Natal.

Nós, os que vivemos fora das telenovelas, os figurantes da vida real, com um tempo passamos a acreditar que na casa onde habita a realidade não pode habitar a esperança. Para nós um acaso que tire de curso um grande cometa  seria de fato o verdadeiro e bom milagre de Natal.

Somos a maioria em quantidade, mesmo assim somos pequenos. Não nos enganemos. Entretanto, pequenos também são os nossos milagres,  pequenas são nossas revoluções.

Nossos pequenos milagres se vestem de vizinhos, os que entendem nossas aporrinhações, nossas dificuldades, pois também são suas, e por isso aceitam olhar nossos filhos enquanto trabalhamos, mesmo não sendo os seus filhos. Se vestem de professoras, cansadas, maltratadas, mas não por isso menos incentivadoras e apoiadores de sonhos infantis, juvenis. Se vestem de mãe, mesmo não sendo perfeitas, dotadas de um amor ou de um extinto responsável por nos fazer perdurar.

Em falar em mãe, penso eu, enquanto as mães não desistirem, e tome aqui mãe não só a pessoa que gera uma outra e sim toda e qualquer pessoa que por vontade ou por destino resolve cuidar de uma outra pessoa por uma vida inteira, haverá chances significativas de instauramos nossas revoluções nesse planeta.

Por todas essas pequenas esperanças continuo acreditando, afinal não é por ser pequenas que elas deixam de ser significativas. Bom natal.

Lonjura se mede com a vontade

Para quem me ama a Maraponga é bem ali. Já dizia o Tom zé, quem se sente com saudades não economiza. Não economiza pé, medo, coragem,passagem de ônibus, dinheiro de Uber. Quanto menor a vontade, maior a distância. É uma equação relativa, um espaçotempo descoberto por Einstein, mas sabido por toda gente há muito tempo.

Eu mesmo, para não contar as muitas histórias conhecidas de gentes e seus cavalos, seus barcos, trens, bicicletas e ônibus, das gentes que não reclamam nem contam quilômetros, já corri muitas ruas de Fortaleza para encontrar aquele abraço, aquele beijo. Perimetrais, Vias Expressas, por dentro, por fora, para chegar no Bom Jardim, na Caucaia, no Curió, no Conjunto Ceará, na Vila Velha, para quando chegar responder aquela famosa pergunta, longe? com a resposta, nem tanto assim.

Afinal, o mundo é redondo para não ter lados, então daqui praí é o mesmo daí pra cá. Não moro no fim do mundo, pois o mundo não tem fim, nem começo, isso é conversa de colonizador que faz mapa e coloca o continente deles no meio de tudo, no centro. Eu quero me descolonizar.

 

 

Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

Eu nunca entendi… A romantização do ciúme

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Nossas relações são permeadas por clichês do século XIX que teimam permanecer existindo. Mesmo com iphones, cromecast, ativbooks, leitores digitais, novas formas de conectar e estabelecer contatos, ainda vivemos imerso no antigo quando o assunto é relacionamento.

Um acontecido demonstrador disso e motivador dessa minha crônica foi quando estava navegando na timeline de uma de minhas rede sociais quando me deparo com o texto compartilhado por um dos meus amigos. O texto, uma espécie de manual de situações indicativas para você não estabelecer namoro com uma pessoa, entre elas um não namore com a pessoa caso você não sinta ciúmes da chefa/chefe gato/gata dele/dela.  O texto aparentemente fofinho, bonitinho, porém a mensagem muito problemática e negativa.

É preciso lembrar, relação sexual/afetiva entre chefe e subordinado em situação de trabalho é assédio moral/sexual (lógico que existem os poréns, mas nada me convence que há um aproveitamento de papéis de poder para coagir afetivamente uma pessoa). Mas, eu desejo chamar atenção para uma máxima/preceito nas nossas relações, o de só existir amor se existe ciúmes, assim, um sentimento muito devastador e destruidor como o ciúme ganha status positivo e benéfico.

Vou repetir, o ciúme é um sentimento negativo, devastador e destruidor, vide o que ele fez com  Otelo e Desdémona  na tragédia shakespeariana Otelo, mouro de Veneza. Isso para não citar os terríveis casos reais de violência motivados por esse sentimento.

Ciúme também pressupõe medo e posse, melhor, medo de perder a posse, quando você diz amar uma pessoa, contudo não suporta o fato de essa pessoa ficar indisponível para você em algum momento, ou se essa pessoa amada tem vontades e desejos que possam diferir das vontades e desejos estabelecidas por você, há algo errado, algo pendente de ser resolvido.

Um argumento bem recorrente é “ciúmes é normal”, a palavra normal por si só já vem sendo descontruída e combatida por um grande número de pessoas, e algo por ser normal não quer dizer que seja bom. Podemos ser mais atentos conosco e com as pessoas com as quais nos relacionamos, sem usar o argumento de que ciúme é sinal de que nos importamos. Esse se importa, entretanto não é com o outro, é conosco, com nossos medos e inseguranças.

Não estamos muito seguros na vida, estamos suspensos na existência e tudo gira de forma violenta, precisamos de garantias, lutamos por garantias, e se formos realistas uma relação nunca é uma garantia, o outro é um terreno movediço, o outro pode ter suas vontades modificadas drasticamente por fatores externos e internos, então seria um pouco mais inteligente e sincero, trabalhamos os medos e inseguranças nossos, do que a impermanência e a vontade da outrem.

Escrevendo é sempre mais fácil do que vivendo, esse texto não é um mandato de expulsão do ciúme das relações, não estou falando sobre isso, certas coisas são mais enraizadas e intrínsecas do que imaginamos. Esse texto é para questionar a romantização do ciúme, para quando ele surgir dentro de você, você possa se perguntar, “por que estou sentindo isso”? Seria importante deixar de sentir isso? Qual o medo ou insegurança que me levou a esse sentimento? E ele existindo como irei trabalhar até ele extinguir, ou caso seja realmente difícil extinguir como irei lidar com ele?

Enquanto as relações forem um terreno de posse, de medo, de perigo e de insegurança, o tal do amor nunca há de nascer verdadeiramente, pelo menos aquele amor que é um sinal de afeição e cuidado que despendemos para o outro, aquele amor mais pautado na alteridade do que no egoísmo, aquele amor mais do gozo e menos do presídio, em que decidimos por liberdade ser com a outrem, por um faixa de tempo, um dia, ou uma vida.

Eu nunca entendi… Se Depende de Uma/Um

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Um tempo atrás, enquanto escutava a música da Gal “sem medo, com Pedro”, escrevia uma carta, uma das cartas mais bonitas que já escrevi na vida, endereçada especialmente para uma das pessoas que mais amo na vida, meu melhor amigo.

Eu estava em um grande momento, traçava grandes projetos, morava com uma amiga em um lugar ótimo, mesmo pagando uma quantia bem relevante dentro do meu orçamento pessoal, e aparentemente nos dava muito bem. Era uma daquelas temporadas de felicidades, estava no sublime.

Depois veio a grande onda, a garota do meu convívio mostrou sua face ingrata e escrota, meu melhor amigo se afastou bruscamente por causa do namorado novo, passei semanas sem conseguir escrever um poema razoável. Ou seja, sem casa, melhor amigo ausente, horizontes opacos. Por uns minutos a música da Gal havia perdido o sentido, engano do Talles, enganos.

Não foi a primeira vez de uma situação complicada, passei por diversas situações complicadas, momentos extremamente desfavoráveis onde questionei inúmeros por quês, repensei minha conduta no mundo, desanimei, relevei, senti revolta, estagnei. Só precisava mesmo era relembrar que evolução não é uma reta em ascensão, ou que o tempo, não é igual a luz, não se propaga em linha reta, foi bem rápido até eu relembrar.

A vida encontra-se entre o padrão de expectativa e o padrão de realidade de cada uma/um, algumas pessoas conseguem ir até o fundo de suas energias e garimpar conquistas memoráveis, outras pessoas usam seus amigos e familiares como muletas por não conseguir ir muito adiante por conta própria, alguns ficam paradas por anos e anos, outros simplesmente desistem. Não são os bons ou os ruins, apenas acontece, pelo simples fato de nunca depender só de um/uma.

Os livros de autoajuda são bem desonestos, e aquela gente na televisão também, a todo tempo dizendo que você é a grande responsável por todos os acontecimentos da sua vida. Como poderia? Se um acordo no Japão pode ocasionar falta de comida na América Central, somos costurados numa trama de acontecimentos interdependentes, faça algo aqui, afete a vida de uma pessoa ali, alguém toma uma atitude hoje, você vai passar por uma situação constrangedora amanhã.

Não estou versando sobre fatalidade, ou sobre “não é culpa minha”, pensar como estou pensando tem muito mais a ver com ação, expectativa, sinceridade e responsabilidade. Mais Ação para pode agir e sair das estagnações, menos expectativas sobre si e sobre o outro, sinceridade para reconhecer nossos próprios limites e nossa força de vontade em determinadas situações, responsabilidade, pois toda ação nossa vai repercutir em alguém, então não transforme a vida do/a outro/a em um inferno.

Os modelos de perfeição podem nos levar a exaustão, porém se tiver energia sobrando rume para lá. A grande questão não é poder ou não poder, sim não adoecer por poder ou não poder, as importâncias são flutuantes. Não é que viver seja bom ou ruim, viver é viver, e não tem fórmula, pois depende, e quando dependem os resultados são inesperáveis.

Gratidão e sua falta

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O Tim Félix comentou como o botão de gratidão no facebook é falso, pois se existe um sentimento em falta na nossa geração é o sentimento de gratidão. Tenho de concordar, somos uma leva de pessoas ingratas correndo pelo mundo. Por isso temos amizades tão facilmente destruídas, pois nos importamos muito mais com o que vamos receber do que com o que vamos devolver, isso está alojado em tudo, é a lógica do capitalismo. 

Vejamos, o que devolvemos, nós estudantes de ensino médio e superior, para as comunidades em que estão localizadas nossas instituições de ensino? (bem pouco, escuto muito mais desejo de fugir para um lugar mais ameno do que vontade de aplicar conhecimento em melhorias da comunidade)
 
O que devolvemos para nossas parceiras e parceiros na hora do sexo? (já tive algumas experiências e escutei alguns depoimentos de pessoas mais interessadas em gozar e ir embora do que compartilhar prazeres e sensações)
 
O que devolvemos para pessoa que nos espera, ao moço que parou o carro para atravessarmos com nossa bicicleta, à mãe que nos carregou durantes muitos meses e teve dores, à mulher que limpou a sala que usaremos para determinada aula ou reunião, ao homem que acordou quatro horas da manhã para que houvesse pão? Dinheiro?
 
Dinheiro acaba, dinheiro é muito pouco. Dinheiro não resolve uma série de conflitos, não extermina violência, nem estabelece paz, aquela paz necessária para criação. Dinheiro é muito útil para manter o poder, mas não mantém coragem nem vontade de vida, digo poque já vivi a falta de coragem e de vontade de viver e aprendi com alguns poetas que somente a “vida gera vida”, Ray Lima que o diga.
 
Talvez, com a experiência que muitos jovens estão obtendo ao ocupar escolas no Ceará, em São Paulo e no Rio de Janeiro, possamos aprender um pouco do que seja essa tal gratidão, afinal essas escolas receberam/recebem ajuda de muita gente, ajuda material, intelectual, ajuda moral para continuarem a luta e as ocupações. Ajuda da própria comunidade que esquecemos que existe ao nosso redor.
 
Agora, é preciso entender que todo modelo de relação capitalista fracassou, esse modelo que enforcou boa parte da pouca gratidão que existe no mundo. Esse é o modelo que produz vídeo games de apenas um controle, computadores só para uma pessoa, livros só para uma pessoa, comida só para poucas pessoas. O modelo que mostra que ceder, emprestar, é ruim e destrutivo, o modelo que nos levou para o auge, mas cegou nossa visão lateral. Enxergamos a si, o futuro, menos o arredor.
 
Mais que um simples botão de facebook, gratidão é uma das virtudes que vamos precisar cultivar para tentar uma sobrevivência em um planeta cada vez mais precário. Engana-se quem acha que isso é ser falso bonzinho, gratidão é fazer o bem olhando a quem, é devolução, pois se tivermos as mãos sempre repletas nunca conseguiremos enchê-las novamente, com novas maravilhas.