Eu nunca entendi… A voz de comando

A voz de comando

Estamos, e quando falo estamos me incluo dentro desse grupo, simplesmente viciados na voz de comando, cada comentário que leio nessa rede social é permeado de imperativo, de exigências, de ordens e afins. É uma maneira, de em linguagem, mostrar a superioridade que não conseguimos alcançar na vida, devido nossas carências e nossa baixa estima.

Pego por exemplo a praia dos Cruhs, um dos assuntos do ano no facebook de Fortaleza. As primeiras acusações da voz de comando foi dizer que esse não era o nome, que o nome certo teria de ser tal e tal, que fortalezense não tem memória bla, bla bla…

Depois foi sobre a questão da limpeza da praia, que vai muito ativista desconstruído, mas a praia é suja, a voz de comando exige que essas pessoas sejam civilizadas, que limpemos, e bla, bla, bla…

A voz de comando nem sempre está errada, é lógico que seria bom manter nossa cultura e patrimonio material/imaterial. Lógico que queremos nossas praias limpas, não só as praias, mas todos os ambientes e espaços da cidade. Mas, a voz de comando é seletiva, tem cor, classe social, e só se preocupa de fato com símbolos que afetem diretamente as/os de sua mesma situação socioeconômica

Quase nunca vejo a voz de comando bradar contra os seguranças de shopping que expulsam pessoas aparentemente periféricas, ou beijo apaixonados de gentes homoafetiva/biafetiva.

A voz de comando geralmente vota e espera alguém misteriosamente resolver todos os problemas.

Somos viciados na voz de comando, vemos um prato sujo na mesa, ao invés de levá-lo a pia, simplesmente gritamos indignados para saber quem esqueceu tal prato.  Nem resolvemos o problema, se quer temos coragem de papocar o prato no chão em protesto quando o caso é recorrente, só gritamos e pronto.

Precisamos substituir a Voz de comando, pela voz de reflexão, questionar é mais eficiente que dar ordens. Ou, então, usemos nossa voz de comando para nos dar ordens para sermos menos autoritários e mais práticos, agindo diretamente nos problemas que reconhecemos e lançando reflexões, não simplesmente exigências jamais realizadas pelos donos da Voz de Comando

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Contribuir

Durante muito tempo sob, sob a desculpa de não ter pedido para ter nascido, fui um fardo, uma preocupação para algumas pessoas. De certo, durante um período é inevitável, você nasce e ao nascer, caso tenha sorte, condições, fatores que fogem do seu controle, você pode receber o amor de uma família, de uma comunidade, para seu acolhimento, conforto, segurança nesse nosso mundo gasto.

Não é sobre esse início de estar no mundo, é sobre o continuar no mundo. Caso você tenha essa sorte inicial, com um tempo você desenvolve-se humanamente, fisicamente, intelectualmente.

Diferente das gratuidades da natureza, estar no mundo é caro. Muita gente paga essa conta com você.

Só ser servido o tempo todo e a todo momento, esse é nosso grande problema,  o mal instalado pela concentração de renda. Você precisa contribuir, contribuir e ajudar a parar a roda do machismo, enchendo as garrafas, lavando os pratos, guardando e enxugando a louça, cuidando do filho/filha que, olha que revelação, também foi você que gerou. Contribuir e parar a roda do egoísmo, escutando, se importando com o outro, oferecendo. Contribuir a parar a roda do orgulho, cedendo a vez às vezes, deixando o outro acontecer. Contribuir e parar a roda da violência, não calando, não consentindo, não achando normal a agressão, o preconceito.

Precisamos contribuir, pois ficar só na discussão e na teoria, é pouco. Nosso peso no mundo pode inclinar a existência de muita gente ainda mais pra baixo, contundo podemos oferecer a essas mesma pessoas a força de motriz de erguer.

Contribuir, principalmente para os nossos, nossa gente, não ser servo dos que estão com as mãos fartas, quanto mais enriquecemos a esses, descontibuimos, no caso deles precisamos contribuir para tirar da mãos deles, para com mãos livres eles também possam contribuir.

Eu desejo que eu possa poder contribuir, também desejo, quando titubear e estiver sendo mais peso, que as amigas e amigos contribuam e me aponte, “Talles, cara, se liga, tu só recebe, não seria essa hora de parar um pouco e também contribuir?”

 

 

 

 

 

Crônica de Natal

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Esse não foi um ano fácil. Nenhum um é para quem tem que decidir qual conta pagar e  qual conta deixar para o próximo mês; para quem vive em um mundo onde pessoas morrem todos os dias de fome, sede, de guerra, enquanto os muito ricos acham que tudo bem, isso não tem nada a ver com eles; para quem tem de sofrer humilhações cotidianas como a de não ter o dinheiro para pagar a passagem do ônibus.

Não parece nada animador escrever isso tudo em uma crônica de Natal, esse dia mágico, aparentemente feliz, aparentemente sem problemas.

Rasa e sem esperanças, essa definitivamente não pode ser uma crônica de Natal.

Nós, os que vivemos fora das telenovelas, os figurantes da vida real, com um tempo passamos a acreditar que na casa onde habita a realidade não pode habitar a esperança. Para nós um acaso que tire de curso um grande cometa  seria de fato o verdadeiro e bom milagre de Natal.

Somos a maioria em quantidade, mesmo assim somos pequenos. Não nos enganemos. Entretanto, pequenos também são os nossos milagres,  pequenas são nossas revoluções.

Nossos pequenos milagres se vestem de vizinhos, os que entendem nossas aporrinhações, nossas dificuldades, pois também são suas, e por isso aceitam olhar nossos filhos enquanto trabalhamos, mesmo não sendo os seus filhos. Se vestem de professoras, cansadas, maltratadas, mas não por isso menos incentivadoras e apoiadores de sonhos infantis, juvenis. Se vestem de mãe, mesmo não sendo perfeitas, dotadas de um amor ou de um extinto responsável por nos fazer perdurar.

Em falar em mãe, penso eu, enquanto as mães não desistirem, e tome aqui mãe não só a pessoa que gera uma outra e sim toda e qualquer pessoa que por vontade ou por destino resolve cuidar de uma outra pessoa por uma vida inteira, haverá chances significativas de instauramos nossas revoluções nesse planeta.

Por todas essas pequenas esperanças continuo acreditando, afinal não é por ser pequenas que elas deixam de ser significativas. Bom natal.

Lonjura se mede com a vontade

Para quem me ama a Maraponga é bem ali. Já dizia o Tom zé, quem se sente com saudades não economiza. Não economiza pé, medo, coragem,passagem de ônibus, dinheiro de Uber. Quanto menor a vontade, maior a distância. É uma equação relativa, um espaçotempo descoberto por Einstein, mas sabido por toda gente há muito tempo.

Eu mesmo, para não contar as muitas histórias conhecidas de gentes e seus cavalos, seus barcos, trens, bicicletas e ônibus, das gentes que não reclamam nem contam quilômetros, já corri muitas ruas de Fortaleza para encontrar aquele abraço, aquele beijo. Perimetrais, Vias Expressas, por dentro, por fora, para chegar no Bom Jardim, na Caucaia, no Curió, no Conjunto Ceará, na Vila Velha, para quando chegar responder aquela famosa pergunta, longe? com a resposta, nem tanto assim.

Afinal, o mundo é redondo para não ter lados, então daqui praí é o mesmo daí pra cá. Não moro no fim do mundo, pois o mundo não tem fim, nem começo, isso é conversa de colonizador que faz mapa e coloca o continente deles no meio de tudo, no centro. Eu quero me descolonizar.

 

 

Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

Eu nunca entendi… A romantização do ciúme

a romantização do ciúme

Nossas relações são permeadas por clichês do século XIX que teimam permanecer existindo. Mesmo com iphones, cromecast, ativbooks, leitores digitais, novas formas de conectar e estabelecer contatos, ainda vivemos imerso no antigo quando o assunto é relacionamento.

Um acontecido demonstrador disso e motivador dessa minha crônica foi quando estava navegando na timeline de uma de minhas rede sociais quando me deparo com o texto compartilhado por um dos meus amigos. O texto, uma espécie de manual de situações indicativas para você não estabelecer namoro com uma pessoa, entre elas um não namore com a pessoa caso você não sinta ciúmes da chefa/chefe gato/gata dele/dela.  O texto aparentemente fofinho, bonitinho, porém a mensagem muito problemática e negativa.

É preciso lembrar, relação sexual/afetiva entre chefe e subordinado em situação de trabalho é assédio moral/sexual (lógico que existem os poréns, mas nada me convence que há um aproveitamento de papéis de poder para coagir afetivamente uma pessoa). Mas, eu desejo chamar atenção para uma máxima/preceito nas nossas relações, o de só existir amor se existe ciúmes, assim, um sentimento muito devastador e destruidor como o ciúme ganha status positivo e benéfico.

Vou repetir, o ciúme é um sentimento negativo, devastador e destruidor, vide o que ele fez com  Otelo e Desdémona  na tragédia shakespeariana Otelo, mouro de Veneza. Isso para não citar os terríveis casos reais de violência motivados por esse sentimento.

Ciúme também pressupõe medo e posse, melhor, medo de perder a posse, quando você diz amar uma pessoa, contudo não suporta o fato de essa pessoa ficar indisponível para você em algum momento, ou se essa pessoa amada tem vontades e desejos que possam diferir das vontades e desejos estabelecidas por você, há algo errado, algo pendente de ser resolvido.

Um argumento bem recorrente é “ciúmes é normal”, a palavra normal por si só já vem sendo descontruída e combatida por um grande número de pessoas, e algo por ser normal não quer dizer que seja bom. Podemos ser mais atentos conosco e com as pessoas com as quais nos relacionamos, sem usar o argumento de que ciúme é sinal de que nos importamos. Esse se importa, entretanto não é com o outro, é conosco, com nossos medos e inseguranças.

Não estamos muito seguros na vida, estamos suspensos na existência e tudo gira de forma violenta, precisamos de garantias, lutamos por garantias, e se formos realistas uma relação nunca é uma garantia, o outro é um terreno movediço, o outro pode ter suas vontades modificadas drasticamente por fatores externos e internos, então seria um pouco mais inteligente e sincero, trabalhamos os medos e inseguranças nossos, do que a impermanência e a vontade da outrem.

Escrevendo é sempre mais fácil do que vivendo, esse texto não é um mandato de expulsão do ciúme das relações, não estou falando sobre isso, certas coisas são mais enraizadas e intrínsecas do que imaginamos. Esse texto é para questionar a romantização do ciúme, para quando ele surgir dentro de você, você possa se perguntar, “por que estou sentindo isso”? Seria importante deixar de sentir isso? Qual o medo ou insegurança que me levou a esse sentimento? E ele existindo como irei trabalhar até ele extinguir, ou caso seja realmente difícil extinguir como irei lidar com ele?

Enquanto as relações forem um terreno de posse, de medo, de perigo e de insegurança, o tal do amor nunca há de nascer verdadeiramente, pelo menos aquele amor que é um sinal de afeição e cuidado que despendemos para o outro, aquele amor mais pautado na alteridade do que no egoísmo, aquele amor mais do gozo e menos do presídio, em que decidimos por liberdade ser com a outrem, por um faixa de tempo, um dia, ou uma vida.

Eu nunca entendi… a ciência de tão poucos

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Esquivando-me a vida inteira dos comentários simplistas patrocinados por governos neoliberais dos anos noventa pra cá, esses que patrocinam ensino pela Televisão, do tipo todos podem crescer na vida se estudarem e trabalharem duro.

Dura é essa mentira, jogo da ilusão.

A informação verdadeira não é para todos, sobra o lixo do conhecimento por vias lixosas das televisões.

Uma verdadeira distribuição de renda deve vir junta a uma verdadeira distribuição de arte e de ciência. Depois de uma revolução, a primeira propriedade da qual o povo deveria tomar posse é a das universidades, com seus cientista milhares fomentadas com nosso trabalho.

Afinal, nós “queremos saber/ o que vão fazer/ com as novas invenções/ queremos notícias mais sérias/ sobre a descoberta da anti-matéria/e sua implicações para emancipação do homem”.*

Pergunte para sua mãe se ela sabe quais são as 3 leis de Newton, depois pergunte para si o que é o sistema binário? A gente não sabe das coisas por elas serem difíceis, desconhecemos o funcionamento do mundo, pois é mais cômodo e fácil desconhecermos.

Balela! Vai gritar um meritocrata, argumentando como ficou tão fácil, desde que o ministério da educação passou a distribuir nas escolas gratuitamente para os miseráveis livros explicativos, didáticos, para todas essas questões.

Recuso! nunca vi uma molécula, pois o ministério mandou o livro, mas não mandou o microscópio, não mandou o laboratório, não mandou o salário do professor, não mandou nem a metade do necessário para a viagem derradeira espacial ao mundo das ciências. Amigas, amigos, ninguém aprende apenas vendo álbum de figurinhas.

Além de tudo isso, os cientistas são ensinados a ter medo do povo,  eles são doutrinados a acreditar que nós, a massa burra que não faz cálculos com mais de três dígitos,  não são merecedora da privilegiada ciência.

Tomemos o bisturi

Façamos uma fusão

Imitemos Prometeu e vamos lá roubar o fogo

Queremos saber, queremos saber, todas/todos queremos saber.

 


 

*Queremos saber, Gilberto Gil