Herbenia Gurgel, a nossa bibliotecária.

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Herbênia Gurgel à direita

A vida das Bibliotecárias é, muitas vezes, discreta, como seu ofício. Pessoas responsáveis por organizar todo o conhecimento do mundo, não simplesmente para guardar em prateleiras, sim para fazer esse conhecimento circular e chegar nas mãos de quem dele necessita, esses/essas profissionais possuem afazeres que ajudaram a construir a nossa humanidade.

Mesmo com tanta importância mal sabemos os seus nomes, quais bibliotecários famosos você consegue citar? Eu, poucos, e olha que sempre tive uma relação de amor com essa classe, imagina todo o grande público que pensam a imagem dessas pessoas como aquela vendida pela indústria do entretenimento, de uma pessoas chatas, austeras, sempre a pedir silêncio.

No ano de 2014 iniciei as atividades de um dos projeto que escrevi e participei, o Fortaleza XXI. Nessa ação, investigaria junto com meus sócios da Substânsia, qual era a produção literária fortalezense do Século XXI que a Biblioteca Dollor Barreira, situada no bairro do Benfica, abrigava sob seu teto.

Durante o projeto conheci a bibliotecária da Dollor, Herbenia Gurgel de presença, porque de nome já a conhecia, muitas pessoas já haviam falado-me dela com muito carinho. Foi uma grande honra poder conhecê-la.

Com Herbênia compartilhei toda a minha tristeza pelo grande depósito de livros que a gestão de Roberto Cláudio tinha transformado a Dollor. Minha tristeza era pueril diante do lamento de Herbênia, mas diferente de mim ela fazia algo. Além de todo o tempo de vida dedicado àquela biblioteca, muitas vezes ela tirava dinheiro do bolso para comprar água, café, e até os cabos da internet, pois era a sala de informática, ainda, um dos poucos atrativos que faziam a biblioteca não morrer.

Herbênia nos deixou, para fingir que lhe dava alguma importância, o que é uma mentira sem tamanho, a prefeitura de Fortaleza nomeou uma biblioteca no Conjunto Ceará com o seu nome e forjou uma inauguração, mais um passamento de vergonha do que uma homenagem realmente sincera.

O sonho de Herbênia, a nossa bibliotecária de Fortaleza nascida em Acopiara, era ver a Dollor linda, cheia de pessoas, com um equipamento moderno, um acervo bem cuidado e ampliado, uma grande e boa equipe, me segredara isso uma vez. Ela nos servia informação e Literatura, para ela quero desejar esse dia das/dos Bibliotecários e lhe agradecer por tudo que fez por nós, por tudo que fez por nossa ignorada, sucateada biblioteca municipal.

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Eu nunca entendi… A voz de comando

A voz de comando

Estamos, e quando falo estamos me incluo dentro desse grupo, simplesmente viciados na voz de comando, cada comentário que leio nessa rede social é permeado de imperativo, de exigências, de ordens e afins. É uma maneira, de em linguagem, mostrar a superioridade que não conseguimos alcançar na vida, devido nossas carências e nossa baixa estima.

Pego por exemplo a praia dos Cruhs, um dos assuntos do ano no facebook de Fortaleza. As primeiras acusações da voz de comando foi dizer que esse não era o nome, que o nome certo teria de ser tal e tal, que fortalezense não tem memória bla, bla bla…

Depois foi sobre a questão da limpeza da praia, que vai muito ativista desconstruído, mas a praia é suja, a voz de comando exige que essas pessoas sejam civilizadas, que limpemos, e bla, bla, bla…

A voz de comando nem sempre está errada, é lógico que seria bom manter nossa cultura e patrimonio material/imaterial. Lógico que queremos nossas praias limpas, não só as praias, mas todos os ambientes e espaços da cidade. Mas, a voz de comando é seletiva, tem cor, classe social, e só se preocupa de fato com símbolos que afetem diretamente as/os de sua mesma situação socioeconômica

Quase nunca vejo a voz de comando bradar contra os seguranças de shopping que expulsam pessoas aparentemente periféricas, ou beijo apaixonados de gentes homoafetiva/biafetiva.

A voz de comando geralmente vota e espera alguém misteriosamente resolver todos os problemas.

Somos viciados na voz de comando, vemos um prato sujo na mesa, ao invés de levá-lo a pia, simplesmente gritamos indignados para saber quem esqueceu tal prato.  Nem resolvemos o problema, se quer temos coragem de papocar o prato no chão em protesto quando o caso é recorrente, só gritamos e pronto.

Precisamos substituir a Voz de comando, pela voz de reflexão, questionar é mais eficiente que dar ordens. Ou, então, usemos nossa voz de comando para nos dar ordens para sermos menos autoritários e mais práticos, agindo diretamente nos problemas que reconhecemos e lançando reflexões, não simplesmente exigências jamais realizadas pelos donos da Voz de Comando

Contribuir

Durante muito tempo sob, sob a desculpa de não ter pedido para ter nascido, fui um fardo, uma preocupação para algumas pessoas. De certo, durante um período é inevitável, você nasce e ao nascer, caso tenha sorte, condições, fatores que fogem do seu controle, você pode receber o amor de uma família, de uma comunidade, para seu acolhimento, conforto, segurança nesse nosso mundo gasto.

Não é sobre esse início de estar no mundo, é sobre o continuar no mundo. Caso você tenha essa sorte inicial, com um tempo você desenvolve-se humanamente, fisicamente, intelectualmente.

Diferente das gratuidades da natureza, estar no mundo é caro. Muita gente paga essa conta com você.

Só ser servido o tempo todo e a todo momento, esse é nosso grande problema,  o mal instalado pela concentração de renda. Você precisa contribuir, contribuir e ajudar a parar a roda do machismo, enchendo as garrafas, lavando os pratos, guardando e enxugando a louça, cuidando do filho/filha que, olha que revelação, também foi você que gerou. Contribuir e parar a roda do egoísmo, escutando, se importando com o outro, oferecendo. Contribuir a parar a roda do orgulho, cedendo a vez às vezes, deixando o outro acontecer. Contribuir e parar a roda da violência, não calando, não consentindo, não achando normal a agressão, o preconceito.

Precisamos contribuir, pois ficar só na discussão e na teoria, é pouco. Nosso peso no mundo pode inclinar a existência de muita gente ainda mais pra baixo, contundo podemos oferecer a essas mesma pessoas a força de motriz de erguer.

Contribuir, principalmente para os nossos, nossa gente, não ser servo dos que estão com as mãos fartas, quanto mais enriquecemos a esses, descontibuimos, no caso deles precisamos contribuir para tirar da mãos deles, para com mãos livres eles também possam contribuir.

Eu desejo que eu possa poder contribuir, também desejo, quando titubear e estiver sendo mais peso, que as amigas e amigos contribuam e me aponte, “Talles, cara, se liga, tu só recebe, não seria essa hora de parar um pouco e também contribuir?”

 

 

 

 

 

Crônica de Natal

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Esse não foi um ano fácil. Nenhum um é para quem tem que decidir qual conta pagar e  qual conta deixar para o próximo mês; para quem vive em um mundo onde pessoas morrem todos os dias de fome, sede, de guerra, enquanto os muito ricos acham que tudo bem, isso não tem nada a ver com eles; para quem tem de sofrer humilhações cotidianas como a de não ter o dinheiro para pagar a passagem do ônibus.

Não parece nada animador escrever isso tudo em uma crônica de Natal, esse dia mágico, aparentemente feliz, aparentemente sem problemas.

Rasa e sem esperanças, essa definitivamente não pode ser uma crônica de Natal.

Nós, os que vivemos fora das telenovelas, os figurantes da vida real, com um tempo passamos a acreditar que na casa onde habita a realidade não pode habitar a esperança. Para nós um acaso que tire de curso um grande cometa  seria de fato o verdadeiro e bom milagre de Natal.

Somos a maioria em quantidade, mesmo assim somos pequenos. Não nos enganemos. Entretanto, pequenos também são os nossos milagres,  pequenas são nossas revoluções.

Nossos pequenos milagres se vestem de vizinhos, os que entendem nossas aporrinhações, nossas dificuldades, pois também são suas, e por isso aceitam olhar nossos filhos enquanto trabalhamos, mesmo não sendo os seus filhos. Se vestem de professoras, cansadas, maltratadas, mas não por isso menos incentivadoras e apoiadores de sonhos infantis, juvenis. Se vestem de mãe, mesmo não sendo perfeitas, dotadas de um amor ou de um extinto responsável por nos fazer perdurar.

Em falar em mãe, penso eu, enquanto as mães não desistirem, e tome aqui mãe não só a pessoa que gera uma outra e sim toda e qualquer pessoa que por vontade ou por destino resolve cuidar de uma outra pessoa por uma vida inteira, haverá chances significativas de instauramos nossas revoluções nesse planeta.

Por todas essas pequenas esperanças continuo acreditando, afinal não é por ser pequenas que elas deixam de ser significativas. Bom natal.

Lonjura se mede com a vontade

Para quem me ama a Maraponga é bem ali. Já dizia o Tom zé, quem se sente com saudades não economiza. Não economiza pé, medo, coragem,passagem de ônibus, dinheiro de Uber. Quanto menor a vontade, maior a distância. É uma equação relativa, um espaçotempo descoberto por Einstein, mas sabido por toda gente há muito tempo.

Eu mesmo, para não contar as muitas histórias conhecidas de gentes e seus cavalos, seus barcos, trens, bicicletas e ônibus, das gentes que não reclamam nem contam quilômetros, já corri muitas ruas de Fortaleza para encontrar aquele abraço, aquele beijo. Perimetrais, Vias Expressas, por dentro, por fora, para chegar no Bom Jardim, na Caucaia, no Curió, no Conjunto Ceará, na Vila Velha, para quando chegar responder aquela famosa pergunta, longe? com a resposta, nem tanto assim.

Afinal, o mundo é redondo para não ter lados, então daqui praí é o mesmo daí pra cá. Não moro no fim do mundo, pois o mundo não tem fim, nem começo, isso é conversa de colonizador que faz mapa e coloca o continente deles no meio de tudo, no centro. Eu quero me descolonizar.