Uma história do “Três Golpes D´Água” + PDF GRATUITO pra baixar.

Os anos são  2013/2014, na época eu era um estudante da UFC, porém minha vida literária sempre havia sido fora da Universidade, participava do grupo de Poetas do Templo da Poesia, trabalhava com produção de eventos literários e atuava como narrador de histórias.

Inquieto, não conseguia admitir que um espaço de tamanha importância como uma Universidade Federal não pudesse de algum modo ser importante na minha vida literária, logo para um estudante de letras.

Em contrassenso, seria nesse espaço da universidade onde eu conheceria pessoas de uma importância vital para uma nova etapa do meu trabalho, Jéssica Gabrielle, Isabel Costa e, aqueles que viriam a ser meus sócios, grandes amigos, Nathan Matos e Majder de Souza Pontes.

Os meninos já me olhavam com certa desconfiança, membros do C.A de Letras, escutavam um ou outro comentário que eu fazia, mas para um novato sorridente igual a mim, não parecia corresponder muito a realidade. As barreiras de desconfiança foram diluindo-se, logo, estaríamos os três em delírios literários juntos.

Desses delírios, certa vez, Nathan Matos, que por sinal já havia lançado essa mesma proposta para Madjer, pediu para ser editor do meu primeiro livro. Eu, fácil que sou, mas também vendo naquele homem toda a paixão, seriedade e determinação de um idealista, disse sim.

Um sonho individual, logo passou a torna-se compartilhado. Nathan, Madjer e Eu, que antes almejávamos ser jovens alunos de uma universidade pública com um livro publicado, passamos a desejar mais, queríamos ter uma Editora. Assim aconteceu, reunindo nosso pouco dinheiro como nossos muitos sonhos, em pouco tempo nascia a Substânsia, junto com o belíssimo, e friso, importantíssimo livro “o núcleo selvagem do dia” de Madjer de Souza Pontes.

Como sempre tive propensão para ousadias, e estávamos dando nossos primeiros passos, fiz os meninos gastarem todo o recente capital da editora no segundo livro, prometendo-lhes que venderia bastante, era o meu futuro “Três golpes”. Tive a sorte de ter dois excelentes editores, uma excelente revisão atenciosa da Camila Araújo e do Klauber Dutra. Mas, a boa recepção desse meu primeiro livro, deve-se  muito ao trabalho primoroso da  Artista capista Jéssica Gabrielle, e da finalização e diagramação do próprio Nathan.

Um excelente trabalho de amigos, hoje, todas e todos profissionais respeitados nas áreas em que atuam, fizeram do meu “três golpes d’água” um livro e um objeto de arte, que tenho o prazer de compartilhar com vocês, basta clicar na capa ou link abaixo, e como diria um dos poemas do livro

a noite quebrou seus cacos de lua em cima de mim.

Fim.

Donwload

2018-02-20

 

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A poesia com outrem, na outrem

A máquina do mundo está desgastada, o óleo do afeto secou na máquina do mundo. Lentamente desaparece traço de gente, vestígio de humano. Da minha casa, em um ponto qualquer de Fortaleza que chamamos Curió, posso, se assim desejo, comprar um livro. Com o computador seleciono, compro, pago. Logo mais, em alguns dias, um pacote chegará em minha casa, e eu poderei ler sobre a solidão dos indivíduos, sem sequer suspeitar quais indivíduos foram responsáveis por fazer esse milagre de computador, em formato de livro, chegar em minha residência.

Outros, onde estão? Os vejo vagarosamente desaparecer. Meu dinheiro retiro em caixas eletrônicas, minha comida em fast foods mágicos de celulares. Pouco a pouco minha experiência aqui fica despersonalizada. Como posso eu, tão reduzido a mim mesmo, prosseguir fazendo poesia?

Alguém poderá reclamar, ora, para escrever só precisa de ti mesmo, do teu braços deslizando pelo teclado do notbook, ou tua mão conduzindo a esferográfica compactor ponta fina no papel. Nada. Meu poema somente existe porque você existe. Com outrem, na outrem.

Com outrem, pois escrevo somente porque escuto, vejo, leio. As palavras usadas por mim, não são inaugurais, não invento idiomas e neologismo. Certo dia minha vó disse repetiu um dito; alguém falava com outro no ônibus, conversa ouvida de passagem; a professora falava de Simone na aula; Gil cantava sua experiência de afeto em um hospital psiquiátrico; todas essas falas e acontecimentos misturadas comigo formam as palavras da minha poesia.

Na outrem, pois nessa afetação constante que me move, quero sim, com minha poesia mover, fazer pálpebras baterem de espanto, membro ficarem eretos lembrando o gosto doce de sexo do desejado. Raiva, paixão, solidão, encantamento, quanta pretensão a minha de mover pessoas e pedras com o poema. De pretensão me fiz artista.

Caso falhe, e em última estância, que meu poema mova então a mim mesmo. “Quando não sei o que fazer, eu faço um poema e o poema diz o que eu tenho que fazer”. Fala o Poeta Reginaldo Figueiredo, uma espécie de Sócrates Poeta que mora em Maranguape. Mas mesmo assim, e nem por isso, mover a mim é solitário, pois outro poeta do Pernambuco também fala “toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”.

Eu nunca entendi… Se Depende de Uma/Um

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Um tempo atrás, enquanto escutava a música da Gal “sem medo, com Pedro”, escrevia uma carta, uma das cartas mais bonitas que já escrevi na vida, endereçada especialmente para uma das pessoas que mais amo na vida, meu melhor amigo.

Eu estava em um grande momento, traçava grandes projetos, morava com uma amiga em um lugar ótimo, mesmo pagando uma quantia bem relevante dentro do meu orçamento pessoal, e aparentemente nos dava muito bem. Era uma daquelas temporadas de felicidades, estava no sublime.

Depois veio a grande onda, a garota do meu convívio mostrou sua face ingrata e escrota, meu melhor amigo se afastou bruscamente por causa do namorado novo, passei semanas sem conseguir escrever um poema razoável. Ou seja, sem casa, melhor amigo ausente, horizontes opacos. Por uns minutos a música da Gal havia perdido o sentido, engano do Talles, enganos.

Não foi a primeira vez de uma situação complicada, passei por diversas situações complicadas, momentos extremamente desfavoráveis onde questionei inúmeros por quês, repensei minha conduta no mundo, desanimei, relevei, senti revolta, estagnei. Só precisava mesmo era relembrar que evolução não é uma reta em ascensão, ou que o tempo, não é igual a luz, não se propaga em linha reta, foi bem rápido até eu relembrar.

A vida encontra-se entre o padrão de expectativa e o padrão de realidade de cada uma/um, algumas pessoas conseguem ir até o fundo de suas energias e garimpar conquistas memoráveis, outras pessoas usam seus amigos e familiares como muletas por não conseguir ir muito adiante por conta própria, alguns ficam paradas por anos e anos, outros simplesmente desistem. Não são os bons ou os ruins, apenas acontece, pelo simples fato de nunca depender só de um/uma.

Os livros de autoajuda são bem desonestos, e aquela gente na televisão também, a todo tempo dizendo que você é a grande responsável por todos os acontecimentos da sua vida. Como poderia? Se um acordo no Japão pode ocasionar falta de comida na América Central, somos costurados numa trama de acontecimentos interdependentes, faça algo aqui, afete a vida de uma pessoa ali, alguém toma uma atitude hoje, você vai passar por uma situação constrangedora amanhã.

Não estou versando sobre fatalidade, ou sobre “não é culpa minha”, pensar como estou pensando tem muito mais a ver com ação, expectativa, sinceridade e responsabilidade. Mais Ação para pode agir e sair das estagnações, menos expectativas sobre si e sobre o outro, sinceridade para reconhecer nossos próprios limites e nossa força de vontade em determinadas situações, responsabilidade, pois toda ação nossa vai repercutir em alguém, então não transforme a vida do/a outro/a em um inferno.

Os modelos de perfeição podem nos levar a exaustão, porém se tiver energia sobrando rume para lá. A grande questão não é poder ou não poder, sim não adoecer por poder ou não poder, as importâncias são flutuantes. Não é que viver seja bom ou ruim, viver é viver, e não tem fórmula, pois depende, e quando dependem os resultados são inesperáveis.

Gratidão e sua falta

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O Tim Félix comentou como o botão de gratidão no facebook é falso, pois se existe um sentimento em falta na nossa geração é o sentimento de gratidão. Tenho de concordar, somos uma leva de pessoas ingratas correndo pelo mundo. Por isso temos amizades tão facilmente destruídas, pois nos importamos muito mais com o que vamos receber do que com o que vamos devolver, isso está alojado em tudo, é a lógica do capitalismo. 

Vejamos, o que devolvemos, nós estudantes de ensino médio e superior, para as comunidades em que estão localizadas nossas instituições de ensino? (bem pouco, escuto muito mais desejo de fugir para um lugar mais ameno do que vontade de aplicar conhecimento em melhorias da comunidade)
 
O que devolvemos para nossas parceiras e parceiros na hora do sexo? (já tive algumas experiências e escutei alguns depoimentos de pessoas mais interessadas em gozar e ir embora do que compartilhar prazeres e sensações)
 
O que devolvemos para pessoa que nos espera, ao moço que parou o carro para atravessarmos com nossa bicicleta, à mãe que nos carregou durantes muitos meses e teve dores, à mulher que limpou a sala que usaremos para determinada aula ou reunião, ao homem que acordou quatro horas da manhã para que houvesse pão? Dinheiro?
 
Dinheiro acaba, dinheiro é muito pouco. Dinheiro não resolve uma série de conflitos, não extermina violência, nem estabelece paz, aquela paz necessária para criação. Dinheiro é muito útil para manter o poder, mas não mantém coragem nem vontade de vida, digo poque já vivi a falta de coragem e de vontade de viver e aprendi com alguns poetas que somente a “vida gera vida”, Ray Lima que o diga.
 
Talvez, com a experiência que muitos jovens estão obtendo ao ocupar escolas no Ceará, em São Paulo e no Rio de Janeiro, possamos aprender um pouco do que seja essa tal gratidão, afinal essas escolas receberam/recebem ajuda de muita gente, ajuda material, intelectual, ajuda moral para continuarem a luta e as ocupações. Ajuda da própria comunidade que esquecemos que existe ao nosso redor.
 
Agora, é preciso entender que todo modelo de relação capitalista fracassou, esse modelo que enforcou boa parte da pouca gratidão que existe no mundo. Esse é o modelo que produz vídeo games de apenas um controle, computadores só para uma pessoa, livros só para uma pessoa, comida só para poucas pessoas. O modelo que mostra que ceder, emprestar, é ruim e destrutivo, o modelo que nos levou para o auge, mas cegou nossa visão lateral. Enxergamos a si, o futuro, menos o arredor.
 
Mais que um simples botão de facebook, gratidão é uma das virtudes que vamos precisar cultivar para tentar uma sobrevivência em um planeta cada vez mais precário. Engana-se quem acha que isso é ser falso bonzinho, gratidão é fazer o bem olhando a quem, é devolução, pois se tivermos as mãos sempre repletas nunca conseguiremos enchê-las novamente, com novas maravilhas.

Meu coração é periferia

 

periferia

Os cientistas disseram, a certa altura da história da humanidade, que os sentimentos não são do coração e sim da cabeça, o cérebro os convocam. A gente aqui na periferia não acredita tanto assim nos cientista, somos mais da vida do que do método, por isso, quando queremos falar que a Dona Ritinha é uma mulher generosa, caridosa, de muitos amigos, dizemos Dona Ritinha tem o coração grande.

Pois é preciso tamanho, espaço, para dar conta de tanto caos, fora e dentro da gente. Você observe as coisas por cá, são casas desiguais, ruas desiguais, pessoas desiguais, gente que crer no Satã e gente que crer no Deus. Mulher rezando para Santa Edwiges, no intuito de diminuir nossas dívidas financeiras; muitas vezes a gente daqui já nasce devendo, umas dívidas que nem são tão nossas assim.

O restante da cidade morre de medo de pisar no nosso território, sendo o nosso território quase toda a cidade, e se funciona os shoppings, as plagas turísticas, tudo de luxo, ou o banal trânsito, funciona porque é nosso sangue fazendo girar a roda do cotidiano.

Não, senhores, não estou fazendo uma grande Ode ao meu povo sofrido, minha gente humilde pintada nos filmes, nas canções, nos livros tão bonitinhos da gente rica, afinal meu povo fede e cheira, igual todo o restante, a diferença é, não colocamos mais fedor ou mais cheiro, somos como somos, tão frágeis, vendados.

A cidade não nos pertence, tiram e botam quando e como querem, propriedade é uma mera ilusão nas nossas vidas, e mesmo assim somos iludidos a vida inteira no possuir. Minha mãe fala como uma reza, filho tem que ter seu carro, seu apartamento. Preciso explicar para minha mãe que nunca seremos donos de nada. Nada. Pelo menos das coisas sólidas.

Levou um bocado de tempo para compreender essas coisas, afinal, o que faço a vida inteira? ler os livros dos ricos, assistir o filme dos ricos, vestir as roupas dos ricos, comer a comida dos ricos, ou melhor a sobra de tudo isso dos ricos. Eles precisam criam distinções, deles para conosco, entre nós. Eles precisam, em sua estratégia, nos fazer entender que de acordo com nosso merecimento existe o que deve morar na beirada,  e o que deve morar na rua do esgoto.

Sim, eu os odeio, apesar de a vida inteira ter sido ensinado a amar meus carrasco, a admirá-lo, almejar sua posição. Mas não quero aqui despojar as vestes dos bossais, eu estou aqui para falar do meu coração

O meu coração, uma periferia, todo entramelado de postes, meu coração sem arquitetura, meu coração cozido nas ruas, meu coração cheio de amor autêntico e de amizades improváveis, afinal, se é periférico, é pouco provável que consiga existir, e caso consiga, respirar, caso respire, vingar, caso vingue, entender, caso entenda, amar o que se é. Os que entendem partem, fogem de si, para a possibilidade de compor um grande meio do quase, quase centro, quase periférico.

Meu coração não é quase, meu coração é derramado na existência que lhe fadaram, meu coração anda nas ruas, com medo de ser morto por seus iguais, meu coração acorda cedo, meu coração compra sapato novo no fim do ano, chama os amigos para comemorar a tão pouco comemorável existência.

Se nos fizeram existir assim desde sempre, nos dividiram para poder existirem, deixo registrado, não ficarei no meio, assumo meu partido, minha existência de ser eternamente um coração periférico,  cheio de mistérios e de falta de método, colorido, construído do jeito que dá, nunca pronto, nunca ponto.