Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

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O certo era…

Prólogo:

Esse texto escrevi para Tetê Macambira, que iniciou o ano cobrando; por ter muitas dívidas, incontáveis, resolvi pagar mais uma.

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O certo era não precisar explicar algumas coisas, exemplo: “esse texto, escrevi pra ti”. Não é obvio, ele tem até o formato do teu rosto.

O certo era não ter que lembrar a música que te lembra, naturalmente você deveria fazer toda  uma playlist só com as nossas músicas.

O certo era ser recíproco, não só o sentimento, recíproca palavra, gesto, silêncio e o grito.

O certo era dividir as contas. O certo era você aceitar que eu pague sem ressentimento. O certo era não contabilizar.

O certo era não nos vermos por um tempo, o certo era vermos-nos todos os dias durante algum tempo.

O certo é cultivar o espaço do outro, porém necessário a intercessão.

O certo é a empatia. O certo era você fazer o chá de hortelã com limão, sair por dentro da noite atrás de Tylenou para minhas dores.

O certo era sermos livre, entender liberdade como o uso pleno da vontade, podendo essa vontade ser estar contigo somente, pra hoje ou pra sempre.

O certo era não desprezar os clichês, mandar as flores, se há uma aura impregnada nessas coisas, por quê não? ser como os outros, sermos exclusivos, do modo que nos aprouver.

O certo era praticar compreensão, até quando ela é absurda, menos quando é violência. O certo era nunca ter violência.

O certo era você confessar, poderia ser uma tarde banal, no meio da aula de semiótica, você levanta a mão, pede a palavra, e como se fosse reproduzir uma fala séria de um estruturalista você diria: desejo informar a todas e todos que amo muito fulano.

O certo era você descascar o ovo cozido. Eis uma grande prova de amor, descascar o ovo cozido.

O certo era reconhecer que já deixamos passar algumas vezes o amor da vida.

O certo era nesse momento sermos o amor da vida um do outro.

O certo era cometermos umas precipitações; não há chuva nem amor sem precipitações.

O certo era juntar os nossos amigos e amigas, pois os amigos são pessoas, não são jurados, nem torcida, nem partido.

O certo era saber com sinceridade que somos desconhecidos, sem medos; é uma aventura solitária,pessoal,  de saber quem somos.

O certo era não acabar, mas se for assim que seja sem tiros; caso haja, no meio da guerra, que a história de nós dois possa reivindicar a dignidade e o respeito.

O certo era, como todos os textos desse blog dizer que eu não entendo o amor. Porém descobri, não é que não entenda, é que se o amor fosse uma cidade, para conhecer teria primeiro de visitar todos os bairros periféricos. Ainda estou visitando os bairros periféricos e falta muito para que conheça de todo o que venha ser esse cidadeamor.

Eu nunca entendi…Quando inventei de escrever poemas

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Quando contamos nossa história de vida vamos editando os acontecimentos, é como num cinema, você observa os quadros do filme, corta os desnecessários, os constrangedores, depois vai colando as ponta; Cria-se uma narrativa de si compartilhável, agradável às imaginações dos outros.

Por receber muitos convites para falar em eventos, ou em salas de aula, sobre a poesia, parto sempre dessa história, fica mais empático, os conceitos abstratos não são tão interessantes, a história cria vínculos e entre os acontecimentos você vai por ir pincelando os conceitos,  tornando a fala mais interessante.

Devido a essa atividade constante de me contar, tento ir rememorando os fatos, perceber o que estou editando, faço constantemente a pergunta que mais me fazem, quando você começou a escrever poemas? Respondia que foi a partir do blog. A verdade é que minha memória não é muito lá essas coisas, por isso escolho acontecimentos pontuais para tecer uma narrativa.

Um dia recebi um poema de uma amiga da sétima série, a minha letra sempre esquisita, um poema de quando tinha uns 13 anos. Isso mudou tudo, o modo que descrevia minha história. Desde então não quero mais saber o quando passo a escrever os pomas, é  por que eu os escrevo? Essa necessidade da palavra para transbordar os sentidos internos, ou a simples divertida brincadeira da linguagem.

Não sei se um poeta se sabe. Um poeta é um mistério, do mesmo modo que o mar é um mistério, as lagoas, as cachoeiras, e os coqueiros que nascem no meio do deserto onde toda água é ausente. Até quando um poeta é um explosão destruidora, é uma destruição misteriosa. Um poeta já nasce roubado pelas palavras.

Dessas palavras colecionadas nesse pequeno percurso de vida, já escrevi dois livros, com capas tão bonitas da Jéssica Gabrielle, editados pelo meus amigos e sócios da  Editora Substânsia. Nesse dois, Três Golpes D´água ( dá pra baixar gratuito aqui) e o recente MarORIGINAL, talvez eu posso entender qual história é minha história, e ao contrário de prosistas famosas como a Clarice, eu os releio sempre, para quem sabe, tentar desvendar quem eu sou.

Libertária

Larguei do meu slogan inicial de todas as publicações para falar sobre uma página de Facebook, não qualquer página, um ponto de encontro, algo que transforma vidas, um catalisador de poesia.

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LIBERTÁRIA!

Antes da poesia fazer folia em minha vida passei por uma grande barra, o terror adolescente de fazer um odioso trabalho, o que ocasiona danos terríveis, tornei-me alcoólatra, sem desejo algum de realizar/esperar muito da vida, apenas cumprir o lento fatigante cotidiano. Salvava-me os livros de poemas, era uma respiração, caso ainda estou vivo foi graças à palavra poética.

Por ela tomei uma decisão, iria recolocar-me no caminho da arte através da literatura, não sabia bem como fazer, pensei na internet. Nessa época estavam fervilhando o universo dos blog, resolvi iniciar um. Aprendi com a blogsfera o quão importante é ser coletivo, ser coletivo é um pressuposto para alcançar o sucesso, se não o sucesso,  o prazer de estabelecer um círculo de leitores, e ter leitores era meu objetivo, fossem 10, ou oitenta mil. Esse foi o número de acesso do meu blog nos 3 anos em que ele funcionou a todo vapor.

O blog puxou alguns projetos coletivos, como o Papéis de circunstâncias, meu desejo de espalhar poesia. Esse contexto vai desaguar no Facebook, ferramenta então nova, percebo que não existia uma página dedicada a Poesia Brasileira, investi meu tempo criando uma.

A Poesia Brasileira trouxe-me mais amigos do mundo virtual, pessoas amantes das artes poéticas, entre elas Joana Woo. Quado a conheci iniciava uma página chamada Libertária, usando seus conhecimentos de Publicidade, fez que os poemas de pessoas comuns e desconhecidas fossem espalhados e divulgados  no mundo Virtual. Joana, como todas as pessoas maravilhosas que descobri nesses meus poucos anos, percebeu que para ser universal era preciso ser coletivo, e conquistas individuais podem ser deliciosas, mas conquistas coletivas são sublimes.

Tive alguns dos meus Poemas Publicados no Libertária, depois de um tempo, meu laço virtual de afeto com Joana Woo estreitou-se, até que um dia fui conhecê-la pessoalmente. Ela passou-me seu endereço, tímido, cheio de medos fui ao seu encontro, não tinha conhecimentos de quem era e o que representava essa mulher. Um dia inteiro juntos, minha cabeça fervilhou de tanta criatividade, energia e amor emanados por Joana. O Sorriso de Joana é capaz de inspirar não apenas poemas, inspira grandes projetos.

Desde que conheci Joana, Sua página (ninguém sabia quem era pessoa por trás do Libertária) cresceu e ganhou grandes proporções. Três anos passaram-se, publiquei dois livros, montei uma editora, fugi de casa duas vezes, os acontecimentos não cansaram de acontecer. Nesse torvelim a Libertária ainda continua, permitindo que pessoas espalhadas pelo Brasil possa viver seu sonho de poesia, e o mais importante, permitindo a essas pessoas espalhadas a possibilidade de conectarem-se, não somente em texto, se conectarem em vida.

Eu nunca entendi… o Reginaldo Figueiredo

Pessoas independentes

tecem laços recíprocos

aprendendo e ensinando

suas vidas estão mudando

chegou um novo tempo

Reginaldo Figueiredo

Reginaldo

Houve um tempo no qual eu desconhecia alguns dos múltiplos lados da poesia. Era um admirador de Bandeira, Drummond e tantos outros poetas canônicos, lugar do poema era em livro, onde eu desejava um dia também ser publicado, quem sabe lido, quem sabe ainda mais ser lembrado pelo meu modo peculiar de juntar as palavras na folha.

Isso foi o antes, depois eu entrei para o Templo da Poesia, vou-lhes explicar, o Templo da Poesia, principiou de um encontro de três figuras admiráveis, Reginaldo Figueiredo, Ítalo Rovere e Ana Lourdes de Freitas, esse encontro desaguou na inauguração de um espaço no centro da cidade de Fortaleza,  local onde as/os poetas da cidade e artistas em geral começaram a se encontrar em saraus muito peculiares chamados Palco Aberto.

Esse Palco possuía algumas regras, depois aderiu totalmente a liberdade, sem inscrições, sem programações, foi o lugar em que várias mulheres, homens, meninas e meninos, dividiram o seu amor pela poesia e pelo o encontro.

A vida, junto com a Dançarina, Poeta e amiga Patrícia Lopes, levaram-me ate´esse lugar. Foi onde tudo mudou, minha poesia, meu modo de estar no mundo, minha percepção, o Templo da Poesia foi a verdadeira Universidade que carecia para minha formação humana.

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Nessa universidade poética conheci Reginaldo Figueiredo, um homem com um trajetória peculiar, que aos poucos foi mostrando o percurso de sua vida para mim, contundo sem parecer acorrentado na história de sua vida, era um ser Heraclitiano, fluía tranquilamente nas tardes dentro do Templo, onde nos encontrávamos, como flui um rio entre pedras antigas. Águas sempre novas em um terreno sempre o mesmo.

Reginaldo Figueiredo, andou por aí, teve muitas venturas e desventuras, participou das lutas populares pela moradia, ingressou nos planos da educação pela arte ou educação pela vida, sua história de vida, encantou um grupos de jovens com seu discurso direto, sua afetividade sempre presente, juntou pedras até  fazer um caminho certeiro para poesia.

No meio do caminho eu estava, aprendi com meu amigo poeta um monte de coisas das quais eu desconfiava, sua poesia não era apenas um amontoamento de palavras, seu poema tem sempre vida por de dentro. Isso me impressiona. Antes dele eu era um jovem presunçoso, como somos na maioria das vezes quando somos jovens, depois dele aprendi a escutar a fala de todas as pessoas, pois uma/um grande poeta, é o homem do sentimento.

Poesia depois de Regi, pra mim passou a ser a palavra com sentido.

A palavra sem sentido, pode até virar um poema, nunca vai acontecer em poesia.

Vou Fazendo

Nunca ajudei a ninguém,
Tudo que faço é pensando
Em meu próprio bem.

Em toda terra onde piso
Quanto mais material acumulo
Mais prisão, mais muro.

Quando penso em algo
Que não vejo,
Em algo em que
Ninguém pode pegar,
Sinto-me livre,
Livre em qualquer lugar,
Livre para voar.

Reginaldo Figueiredo

Em Reginaldo Figueiredo um poema é uma revolução, não dessas em que um Estado é derrubado para se instaurar outro tipo de Estado, é uma revolução do ser, um mergulho sem voltas para dentro de si. Ele não fala de outra assunto a não ser dele mesmo, ao falar em si, proporciona o si de cada um de nós entrar em comunicação com o universal. A Poesia do Regi é uma experiência estética e espiritual, não é possível separar esses dois elementos na obra do poeta.

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Quando um homem alcança esse estado de poesia, tudo que ele toca é transformado, uma tarde me balançando na rede, conversado com esse meu amigo, vale por muitas horas de leitura de texto, Regi me oferece a leitura da palavramundo, aquela tão citada pelo Paulo Freire, Regi é um desses seres onde vida e obra se encontram. Quem tiver ouvidos que escute.

 

 

 

Eu nunca entendi… Porque a poesia está por fora

Drummond

Ontem, fui ministrar mais uma das aulas sobre poéticas da leitura e leituras poéticas, dessa vez para uma turma em processo de formação na escola de narradores, um projeto da Cia. Catirina de Arte e Produção junto com as Costureiras de Histórias, Josy Maria e Tâmara Bezerra, duas artistas que amo e admiro, são as coordenadoras desse projeto lindo em Fortaleza, com aulas lá no Teatro José de Alencar.

Sempre encabeço uma discussão a partir do Texto do Carlos Drummond de Andrade, a Educação do Ser Poéticos, podes acessar aqui. Drummond, tece um cometário que parte do seguinte pressuposto, se observarmos bem, as crianças gostam de poesia, com os anos esse gosto parece ser destituído. Essa observação parecer ter pertinência, a pesquisa Retratos da Leitura mostrou em 2007 a poesia como um dos gêneros prediletos das crianças e pré-adolescentes, caso que não acontecia com as pessoas de maiores idades.

Acredito nas palavras do texto de Drummond quando aponta uma educação ausente de poesia, uma das principais causas desse empobrecimento poético pelo qual passamos durante nossa vida, a questão não passa só pelo fator ausência do poema, mas a falta de maestria, desconhecimento, leveza e poeticidade, ao abordar o tema dentro de sala de aula.

“Mas isso ainda diz pouco”, parafraseando o João Cabral de Melo Neto. A Poesia não está por fora só da Escola, ou da Sala de Aula, a poesia anda por fora de muitos locais, a poesia anda por fora dos centro culturais, das bibliotecas, das universidades, dos condomínios, das casas, dos presídios, dos bares, das rodas de amigos, do cinema, da vida secreta das moradoras e moradores do Brasil. Porém não de todo, não vou aqui ser o injusto de dizer que a poesia inexiste, pelo contrário, há uma onda de saraus e uma excelente tentativa de fazer do poema algo mais popularizado, até show com poetas eu vejo anunciar nos instagrans e facebooks da vida.

A questão é, quando apagam as luzes os poetas morrem de fome, a poesia morre de fome, estamos mais para ornamento do que para vitalício, o lugar do poema, esse artefato essencial na humanização de um povo, deve ser debatido, discutido, não importando que um livro de poema  venda pouco, ou que um festival reúna dois ou três criaturas e nunca um público inteiro do show do Wesley Safadão.

Por que essa urgência? Por que essa importância para a poesia? eu contraponho, por que não? se tem lugar para tantas outras coisas que brilham tão menos nas nossas almas. A Falta de lugar para Poesia deve ser tratado como um problema de saúde pública, catástrofe geral, encimentamento coletivo de corpos e espíritos. Vamos colocar a poesia por dentro de tudo, é urgente.