Eu nunca entendi… Como os amigos de longe podem ser tão de perto

Hoje, levei um carão. Para quem não sabe o significado dessa expressão, não tenho certeza se ela é utilizada em todo Brasil, carão é quando alguém lhe chama atenção sobre um respectivo assunto, um puxão de orelha, uma chamada, um feedback.

A pessoa responsável por esse carão foi uma amiga de longe, a Taís Bichara, pessoa especializada em fazer isso comigo inclusive; Taís é uma amiga de longe, Salvador, que conheci através de uma amiga de perto, Jéssica. Após refletir sobre o conteúdo da chamada, minha cabecinha de poeta começou a devanear sobre essa relação amiga de longe/amiga de perto.

Fiz uma Lista de amigas/amigos de perto, em paralelo com outra lista de amigas/amigos de longe. Conclusão, estou banindo essa relação/classificação, pois o fator distância é bem pouco para definir a proximidade de uma pessoa para comigo. Isso não é nada genial ou inovador, é só uma variedade de um outro clichê, aquele que fala sobre estar sozinho em meio a multidão.

Então, me veio outra dúvida, algo não tão novo dentro dos meus pensamentos, já escrevi até alguns poemas sobre o assunto, como estamos pensando as relações na atualidade onde presença física é ainda extremamente importante, porém não é determinante? Não que a distância seja uma invenção contemporânea, e antes do facebook existia a carta.

Corremos um risco, parece que o tempo está na frente de nós, o comportamento foge e evolui com o passar de cada uma nova invenção e quando nos acostumamos com algo, esse algo já não é. Um abismo geracional cada vez mais profundo se abre sob nossos pés,  e  se uma diferença de dez anos não parecia tanta, hoje é quase intransponível.  A gente não conversa sobre o assunto, não repara como estamos configurando nossas relações; a única que vai estudando isso com afinco é a publicidade, a qual devemos olhar sempre com muita desconfiança.

Essa coisa toda me fez pensar sobre o que estão falando nas escolas, o que estão mesmo ensinando nas escolas? Talvez matéria antiga, para esse nossa vida nova que sozinha se quer se abarca, imagina sem preparo algum de ninguém.

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Eu nunca entendi… Anna K

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K desenhada pela Keka.

Estou escutando Marina Lima

O carnaval acabou, há muitas coisas por resolver

A casa está bagunçada

Tenho vontade de escrever sobre Anna K.

Ela tem um livro escondido, escrevia blogs, zines, e outros amuletos de papéis. Mesmo eu sendo um desses meninos novo, aceitou falar comigo. Quando olho dentro de seus olhos vejo sempre alguém procurando um lugar possível no mundo, igual a mim, um lugar onde possa ser amor, nada de muito, um lugar onde podemos armar uma rede.

Caso eu tivesse dezoito anos em dois mil e quatro, desejaria ser amigo dela, a gente sairia para uma festinha legal em Fortaleza, dançaríamos uma música da Marina Juntos, dividiríamos um táxi, pois é muito chato ter que andar no meio do sol quente, e a comodidade não é pecado.

Karine está morando no Crato, as pessoas dizem, como se a Maraponga fosse pequena  e não coubesse o Crato dentro. Minha amiga tá perto, sempre, sinto. Ela vai atravessar do Benfica à Maraponga cruzando a avenida Godofredo Maciel, e vou lá, saber como anda a sua vida, saber do que tem pesado e do que alegra, fazer mil e um projetos jamais executados, pois nosso amor gosta de criar projetos.

Bom é ficar rindo das besteiras juntos, ela é do rock e do pagode, uma dessas pessoas que todo mundo gosta de ter por perto. Sabe de algumas coisas da vida, tanto que escreveu certa vez “Capacete devia ser usado no peito”. Todo mundo queria usar essa frase, coisa de quem sabe que somos uma Fortaleza de Duna, imponentes, porém na iminência de ser soprada a qualquer momento para um outro lugar.

Minha amiga tem a sabedoria de quem não sabe como faz pra ficar rica, é uma garota muita esperta. Trocaria muita coisa por um Walkman com uma fita do Pato Fu. por uma tarde como essa, parida de urgências, de coisas por fazer que não fazemos, só pra ficar de pernas pra cima, escutando as últimas aventuras amorosas do Tailon.

Eu tenho um monte de novas aventuras para te contar, minha amiga, mas contar assim de perto, enquanto a Amy fica latindo, bagunçando a casa. Não tem como a gente se encontrar na internet, na internet posso no máximo enviar um coração exagerado pelo whattsApp, mesmo assim, não chega perto do tanto que eu a amo.

Anna K gosta muito de pregos e parafusos. Chega logo, por favor. Preciso saber de ti, a quantas anda, preciso que você me empreste aquele livro da discórdia, preciso saber o que faremos da nossa vida amanhã.

 

PS: Anna Karine Lima é uma escritora e produtora cultural, Mora no Crato e na Maraponga, irmã da Keka, ama ficar se balançando na rede, comer Brownie da Guiga, tomar café do seu Keko e conversar com o Gabriel.

 

O certo era…

Prólogo:

Esse texto escrevi para Tetê Macambira, que iniciou o ano cobrando; por ter muitas dívidas, incontáveis, resolvi pagar mais uma.

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O certo era não precisar explicar algumas coisas, exemplo: “esse texto, escrevi pra ti”. Não é obvio, ele tem até o formato do teu rosto.

O certo era não ter que lembrar a música que te lembra, naturalmente você deveria fazer toda  uma playlist só com as nossas músicas.

O certo era ser recíproco, não só o sentimento, recíproca palavra, gesto, silêncio e o grito.

O certo era dividir as contas. O certo era você aceitar que eu pague sem ressentimento. O certo era não contabilizar.

O certo era não nos vermos por um tempo, o certo era vermos-nos todos os dias durante algum tempo.

O certo é cultivar o espaço do outro, porém necessário a intercessão.

O certo é a empatia. O certo era você fazer o chá de hortelã com limão, sair por dentro da noite atrás de Tylenou para minhas dores.

O certo era sermos livre, entender liberdade como o uso pleno da vontade, podendo essa vontade ser estar contigo somente, pra hoje ou pra sempre.

O certo era não desprezar os clichês, mandar as flores, se há uma aura impregnada nessas coisas, por quê não? ser como os outros, sermos exclusivos, do modo que nos aprouver.

O certo era praticar compreensão, até quando ela é absurda, menos quando é violência. O certo era nunca ter violência.

O certo era você confessar, poderia ser uma tarde banal, no meio da aula de semiótica, você levanta a mão, pede a palavra, e como se fosse reproduzir uma fala séria de um estruturalista você diria: desejo informar a todas e todos que amo muito fulano.

O certo era você descascar o ovo cozido. Eis uma grande prova de amor, descascar o ovo cozido.

O certo era reconhecer que já deixamos passar algumas vezes o amor da vida.

O certo era nesse momento sermos o amor da vida um do outro.

O certo era cometermos umas precipitações; não há chuva nem amor sem precipitações.

O certo era juntar os nossos amigos e amigas, pois os amigos são pessoas, não são jurados, nem torcida, nem partido.

O certo era saber com sinceridade que somos desconhecidos, sem medos; é uma aventura solitária,pessoal,  de saber quem somos.

O certo era não acabar, mas se for assim que seja sem tiros; caso haja, no meio da guerra, que a história de nós dois possa reivindicar a dignidade e o respeito.

O certo era, como todos os textos desse blog dizer que eu não entendo o amor. Porém descobri, não é que não entenda, é que se o amor fosse uma cidade, para conhecer teria primeiro de visitar todos os bairros periféricos. Ainda estou visitando os bairros periféricos e falta muito para que conheça de todo o que venha ser esse cidadeamor.

Eu nunca entendi… O único jeito de comemorar

Esse texto foi escrito antes de muitas garrafas de champanhe serem estouradas, antes do céu ser colorido por fogos de artifícios, antes de sete ondas salteadas, antes de lentilhas sorvidas, antes de amigos, famílias, se abraçarem, antes de muitos amantes darem seu primeiro beijo do ano, acompanhado do primeiro eu te amo.

Esse texto, não é uma confissão de solidão, não o faço para dizer do meu modo recluso de esperar a ilusão mágica de um ano novo. Não farei dele uma loa contra ou a favor.

Esse texto existe simplesmente para explicar, por isso é curto, as explicações longas são um pouco enfadonhas, nem toda gente as acolhe de bom grado, por isso meto mão de fazer uma curtinha, assim, como curto é o segundo que separa um ano do outro.

Daqui, da minha casa, farei uma festa silenciosa, estarei em comemoração, lembrarei dos muitos amigos, dos familiares, dos amores. Serei feliz sozinho nessa festa pessoal.

Afinal, não é porque me furto de uma festa coletiva hoje, que me furto da celebração, minha vida é toda uma comemoração. Quando cozinho para alguém, quando escrevo um poema, quando me enlaço num abraço, quando mando a mensagem dizendo saudades, quando cruzo com a moça que rega as plantas todos os dias no meu condomínio e a ofereço o bom dia mais solar que posso oferecer a uma pessoa, pois sou-lhe eternamente grato dela oferecer seu tempo em cuidado para as plantinhas.

Não sou triste, não estou cansado, só fiz essa escolha. É mais fácil de entende-la, do que o desamor das massas. Minha festa tranquila tal qual os lagos isolados de água paradas, aparentemente sem agito, porém cheios de vida e de mistérios.

Desejo o mistério, a verdade, a paixão, o merecimento e o contentamento para todas que hoje estão comemorando essa passagem de ano, em sua diversas formas, em famílias imensas, em pares apaixonados, ou nos silêncio de quartos, casas, apartamentos.

Daqui também lembrarei os que estão impedidos de comemorar, por suas diversas desventuras, em determinada hora, pensarei poesias de conforto, e desejarei para essas e esses, alento em vossos corações.

Aqui, na tranquilidade, escutando a festa lá de fora, sabendo que há muito festa aqui dentro.

 

 

Libertária

Larguei do meu slogan inicial de todas as publicações para falar sobre uma página de Facebook, não qualquer página, um ponto de encontro, algo que transforma vidas, um catalisador de poesia.

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LIBERTÁRIA!

Antes da poesia fazer folia em minha vida passei por uma grande barra, o terror adolescente de fazer um odioso trabalho, o que ocasiona danos terríveis, tornei-me alcoólatra, sem desejo algum de realizar/esperar muito da vida, apenas cumprir o lento fatigante cotidiano. Salvava-me os livros de poemas, era uma respiração, caso ainda estou vivo foi graças à palavra poética.

Por ela tomei uma decisão, iria recolocar-me no caminho da arte através da literatura, não sabia bem como fazer, pensei na internet. Nessa época estavam fervilhando o universo dos blog, resolvi iniciar um. Aprendi com a blogsfera o quão importante é ser coletivo, ser coletivo é um pressuposto para alcançar o sucesso, se não o sucesso,  o prazer de estabelecer um círculo de leitores, e ter leitores era meu objetivo, fossem 10, ou oitenta mil. Esse foi o número de acesso do meu blog nos 3 anos em que ele funcionou a todo vapor.

O blog puxou alguns projetos coletivos, como o Papéis de circunstâncias, meu desejo de espalhar poesia. Esse contexto vai desaguar no Facebook, ferramenta então nova, percebo que não existia uma página dedicada a Poesia Brasileira, investi meu tempo criando uma.

A Poesia Brasileira trouxe-me mais amigos do mundo virtual, pessoas amantes das artes poéticas, entre elas Joana Woo. Quado a conheci iniciava uma página chamada Libertária, usando seus conhecimentos de Publicidade, fez que os poemas de pessoas comuns e desconhecidas fossem espalhados e divulgados  no mundo Virtual. Joana, como todas as pessoas maravilhosas que descobri nesses meus poucos anos, percebeu que para ser universal era preciso ser coletivo, e conquistas individuais podem ser deliciosas, mas conquistas coletivas são sublimes.

Tive alguns dos meus Poemas Publicados no Libertária, depois de um tempo, meu laço virtual de afeto com Joana Woo estreitou-se, até que um dia fui conhecê-la pessoalmente. Ela passou-me seu endereço, tímido, cheio de medos fui ao seu encontro, não tinha conhecimentos de quem era e o que representava essa mulher. Um dia inteiro juntos, minha cabeça fervilhou de tanta criatividade, energia e amor emanados por Joana. O Sorriso de Joana é capaz de inspirar não apenas poemas, inspira grandes projetos.

Desde que conheci Joana, Sua página (ninguém sabia quem era pessoa por trás do Libertária) cresceu e ganhou grandes proporções. Três anos passaram-se, publiquei dois livros, montei uma editora, fugi de casa duas vezes, os acontecimentos não cansaram de acontecer. Nesse torvelim a Libertária ainda continua, permitindo que pessoas espalhadas pelo Brasil possa viver seu sonho de poesia, e o mais importante, permitindo a essas pessoas espalhadas a possibilidade de conectarem-se, não somente em texto, se conectarem em vida.

Eu nunca entendi… o Reginaldo Figueiredo

Pessoas independentes

tecem laços recíprocos

aprendendo e ensinando

suas vidas estão mudando

chegou um novo tempo

Reginaldo Figueiredo

Reginaldo

Houve um tempo no qual eu desconhecia alguns dos múltiplos lados da poesia. Era um admirador de Bandeira, Drummond e tantos outros poetas canônicos, lugar do poema era em livro, onde eu desejava um dia também ser publicado, quem sabe lido, quem sabe ainda mais ser lembrado pelo meu modo peculiar de juntar as palavras na folha.

Isso foi o antes, depois eu entrei para o Templo da Poesia, vou-lhes explicar, o Templo da Poesia, principiou de um encontro de três figuras admiráveis, Reginaldo Figueiredo, Ítalo Rovere e Ana Lourdes de Freitas, esse encontro desaguou na inauguração de um espaço no centro da cidade de Fortaleza,  local onde as/os poetas da cidade e artistas em geral começaram a se encontrar em saraus muito peculiares chamados Palco Aberto.

Esse Palco possuía algumas regras, depois aderiu totalmente a liberdade, sem inscrições, sem programações, foi o lugar em que várias mulheres, homens, meninas e meninos, dividiram o seu amor pela poesia e pelo o encontro.

A vida, junto com a Dançarina, Poeta e amiga Patrícia Lopes, levaram-me ate´esse lugar. Foi onde tudo mudou, minha poesia, meu modo de estar no mundo, minha percepção, o Templo da Poesia foi a verdadeira Universidade que carecia para minha formação humana.

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Nessa universidade poética conheci Reginaldo Figueiredo, um homem com um trajetória peculiar, que aos poucos foi mostrando o percurso de sua vida para mim, contundo sem parecer acorrentado na história de sua vida, era um ser Heraclitiano, fluía tranquilamente nas tardes dentro do Templo, onde nos encontrávamos, como flui um rio entre pedras antigas. Águas sempre novas em um terreno sempre o mesmo.

Reginaldo Figueiredo, andou por aí, teve muitas venturas e desventuras, participou das lutas populares pela moradia, ingressou nos planos da educação pela arte ou educação pela vida, sua história de vida, encantou um grupos de jovens com seu discurso direto, sua afetividade sempre presente, juntou pedras até  fazer um caminho certeiro para poesia.

No meio do caminho eu estava, aprendi com meu amigo poeta um monte de coisas das quais eu desconfiava, sua poesia não era apenas um amontoamento de palavras, seu poema tem sempre vida por de dentro. Isso me impressiona. Antes dele eu era um jovem presunçoso, como somos na maioria das vezes quando somos jovens, depois dele aprendi a escutar a fala de todas as pessoas, pois uma/um grande poeta, é o homem do sentimento.

Poesia depois de Regi, pra mim passou a ser a palavra com sentido.

A palavra sem sentido, pode até virar um poema, nunca vai acontecer em poesia.

Vou Fazendo

Nunca ajudei a ninguém,
Tudo que faço é pensando
Em meu próprio bem.

Em toda terra onde piso
Quanto mais material acumulo
Mais prisão, mais muro.

Quando penso em algo
Que não vejo,
Em algo em que
Ninguém pode pegar,
Sinto-me livre,
Livre em qualquer lugar,
Livre para voar.

Reginaldo Figueiredo

Em Reginaldo Figueiredo um poema é uma revolução, não dessas em que um Estado é derrubado para se instaurar outro tipo de Estado, é uma revolução do ser, um mergulho sem voltas para dentro de si. Ele não fala de outra assunto a não ser dele mesmo, ao falar em si, proporciona o si de cada um de nós entrar em comunicação com o universal. A Poesia do Regi é uma experiência estética e espiritual, não é possível separar esses dois elementos na obra do poeta.

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Quando um homem alcança esse estado de poesia, tudo que ele toca é transformado, uma tarde me balançando na rede, conversado com esse meu amigo, vale por muitas horas de leitura de texto, Regi me oferece a leitura da palavramundo, aquela tão citada pelo Paulo Freire, Regi é um desses seres onde vida e obra se encontram. Quem tiver ouvidos que escute.

 

 

 

Eu nunca entendi… A Silvia Moura

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Diálogos imaginários possíveis-prováveis:

– Você sabe o que é uma artista?
– Sei, eu conheço a Silvia Moura.
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– Talles, você esteve em São Paulo e não viu a Abramovic?
– Verdade, mas eu sempre vejo a Silvia Moura em Fortaleza, então não faz falta.

(Avisei para Silvia que escreveria sobre ela, disse que o nome da postagem seria Eu nunca entendi… A Silvia Moura, ela relutou, disse que eu a entendi muito, então antes do desenvolvimento do texto deixo claro para Silvia e as leitoras e leitores dessa folha que voa, quando afirmo que não entendo, é porque o objeto do qual eu falo nunca se mostra completamente, pois seus prismas de significados são tão infinitos que o objeto discorrido nunca será apreendido em sua totalidade)

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Eu sabia de sua existência, quando nasci ela já estava dançando, algumas pessoas apontavam-na na rua e dizia, “olha ali, é a Silvia Moura”, pessoas desse tipo me assustam, pois ganham uma responsabilidade injusta de me surpreender, mesmo sem terem nada a ver comigo, quando acontece de não cumprirem o que espero sinto-me traído e decepcionado. Por isso vou adiando o livro, o espetáculo, as pessoas super recomendadas, por um medo letal da decepção. Sei que isso é injusto, não deveria alimentar dentro de mim esse jardim de expectativas, mas acontece, tem áreas  do nosso ser que demoramos anos e anos para obter o controle, na época eu não mantinha controle algum sobre esse setor da minha existência.

Mesmo assim fui assistir o Anatomia das coisas encalhadas, numa tarde linda e a apresentação era em um dos locais que mais amava em Fortaleza, o CCBNB na Floriano Peixoto.  Sentei ali pelo chão, lentamente fui entrando na cosmogonia das coisas amontoadas, de carteiras de cigarros, fones de ouvidos e caixas, muitas caixas, caixas que cabiam algumas das pessoas da platéia; fiquei atento, os movimentos e as palavras existiam juntas, meus olhos não poderiam olhar outra coisa naquela tarde, meus ouvidos não poderiam escutar outra coisa, entrei em estado do sublime, para um dos estágios que a boa arte causa em nosso corpo, um êxtase mais prazeroso do que o religioso, pois é só prazer, sem culpa.

Quando tudo acabou escrevi um poema, hoje não sei onde anda esse poema, porém recordo nele uma espécie de profecia de muitos outros encontros da minha pessoa com a obra de Silvia. Assisti depois A Cadeirinha e Eu, Vestida de Luz, A Beira De…  Além de muitos momentos que acabei esbarrando com a Silvia por aí, sua fala forte, cheia de geniosidade, algumas vezes de encontro contra minha fala e minha opinião. Contudo, se divergíamos em opiniões políticas em alguns espaços dentro da cidade, quando o assunto é, ela no Palco e eu na Platéia, só dou graças por poder ver uma artista em Cena e ter o prometido Deleite Horaciano de uma obra de arte.

Pelo desdobra do tempo, acabei acompanhando Silvia além do Palco, nas redes sociais, observando que além da fala ela produzia uma escrita, tão orgânica e caótica como a sua arte cênica. Intrigou-me tanto sua poética palavra que a convidei para publicar um livro pela minha editora, assim comecei a conhecer seu outro lado. Silvia Leitora, Silvia Poeta, Silvia Escritora, Silvia que gosta de passar a tarde sentada tomando café e costurando prosa.

Eu tenho um livro dela, um livro no qual fui uma espécie de parteiro. Quando você for assistir ou Ler Silvia Moura, saiba que vai se deparar com uma mulher complexa, cheia de anseios infintos, indignações latentes, contradições, uma mulher que grita dançando, escrevendo, bordando, cozinhado, a obra da Silvia pode ser qualquer coisa menos pacífica. Prepare-se para o impacto, ela incomoda bastante. Incomoda pois tem uma coragem de mostrar, entretanto ela não mostra de qualquer maneira.

Acumulando anos e anos de técnica, uma vida incessante de formações e participação ativa na vida cultural, Silvia coloca no mundo a palavra agônica, o passo certeiro, o traço necessário.  Falar todas as coisas que falo dessa mulher pode ser contaminado pela admiração, entretanto meus olhos são sinceros. Até hoje, quando encontro com Silvia, sempre requisitada, sempre rodeada de gente querendo sua atenção, sua presença, seu toque, suas piadas bem colocas, eu gosto de abraça-la e agradecer por compartilhar sua arte conosco.

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Gosto de pensar uma arte que só é possível por causa da vida e das trajetórias individuais, uma arte da poesia de vida, técnica é importante se utilizada para mostrar quais as possibilidades de ser ou não ser humanos, nos estranhando, nos indagando ou nos deslumbrando, essa é a Arte que a Silvia Moura faz.

Se um dia o mundo for atingido por um meteoro, Silvia Moura certamente vai dançar sobre os escombros do mundo.

PS: ( Eu roubei as Fotinhas do face dela, não consegui achar as referências, se caso vocês tiverem eu faço gosto de colocar por aqui)