Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

Eu nunca entendi… O encantado universo das pessoas que cozinham

cozinhar.jpgO mundo estourando lá fora, a polícia sendo polícia, assassinando gente pobre, negra. ameaças em forma de farsa vêm de Brasília, um levante de meninas e meninos resistem aos efeitos do governador absolutista em São Paulo. Lama tóxica do Capital assolam nossas praias, África devastada, Oriente de conflitos forjados por países imperialistas, esses países origem de muitos males, conhecidos nossos de longa data. “Quanta matéria pros Jornais”.

O mundo desmorona, de algum modo eu desmorono junto. Não que esse cair eterno do mundo seja alguma espécie de novidade, toda a história do mundo vida dos livros é uma história sobre desmoronamentos. Quase nunca recebemos as noticias de certa pessoa, em certo lugar, fazendo certo ato de candura. A felicidade nossa não é registrada nos jornais, tampouco nos livros de histórias.

E há o encantado mundo dentro desse mundo desencantado, um mundo inteiro composto por pessoa que agoam plantinhas de manhã, juntam o cisco das calçadas, lembra de alguém e liga para contar da sua saudade, de pessoas mágicas que sabem cozinhar.

São poderes adquiridos durante a vida, joga tudo dentro duma vasilha, bate, mexe, deixa descansar, cresce, assa, torra, cozinha, nasce um bolo, uma torta, arroz com feijão, macarrão passado.

Sou capaz de contar minha história através das pessoas cozinheiras de minha vida. Dona Frasquinha fazia cuscuz todos os dias para almoço, a Elisângela e seu Antônio só comiam se fosse assim, eu envergonhadamente queria sempre participar desse almoço. A maria Isabel da minha vó, ela cozinhava em uma panela bem grande, por sermos um número grande de pessoas  zanzando pra cima e pra baixo na casa da rua Francisco Glicério, sobrava nada, acabava rápido.

O sabor da semana santa, milho, mugunzá. O bolinho de arroz de minha mãe, uma receita simples, mas que enche nossa casa de alegria quando ela resolver fazer, ela só faz de veneta nem adianta implorar. Sem falar no aspecto e sabor único de um simples macarrão passado só alcançados por minha mãe. Já tentei imitar as duas receitas, não sai do mesmo modo, coisa de mistério. É a mão.

Essas mãos tão peculiares, que temperos energéticos elas emanam, alquimistas culinários, dotados de poderes extraordinários. Queria saber escrever poemas que tivessem o gosto do bolinho de arroz ou do macarrão passado da minha mãe.

Ando me arriscando, algum tempo invento de me aventurar pela cozinha. Faço bolos, sucos, chás, arroz, coisinhas mais sofisticadas, outras bem simples. Descobri que quem cozinha o faz para o outro, a gente precisa praticar mais esse tipo de arte cultivadoras do bel prazer da(o) outra(o), é humanizador. Afinal, quando escrevo um poema o escrevo para mim, quando faço comida não é só por mim, não tem o mesmo sabor cozinhar solitário, quando cozinho é para alguém.

Ah! não precisa economizar elogios, pode dizer se ficou bom, eu gosto, toda gente da cozinha adora receber um elogio.

Bateu uma tristezinha devido a esse mundo bad em constante desmoronamento, junto as amigas, a família em volta da cozinha, deixa que por lá acontece uma mágica e depois de uma longa tarde tudo muda.

Eu sei, no entanto, muitas pessoas ainda não tem acesso ao mínimo da vida, tem gente que não come todos os dias. Por isso não dá pra parar as lutas, o lance é, caminhado, cantando, cozinhando e lutando.

Até o nosso próximo já, é só vir me visitar, eu faço aquele cuscuz.

 

 

 

Eu nunca entendi…Quando inventei de escrever poemas

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Quando contamos nossa história de vida vamos editando os acontecimentos, é como num cinema, você observa os quadros do filme, corta os desnecessários, os constrangedores, depois vai colando as ponta; Cria-se uma narrativa de si compartilhável, agradável às imaginações dos outros.

Por receber muitos convites para falar em eventos, ou em salas de aula, sobre a poesia, parto sempre dessa história, fica mais empático, os conceitos abstratos não são tão interessantes, a história cria vínculos e entre os acontecimentos você vai por ir pincelando os conceitos,  tornando a fala mais interessante.

Devido a essa atividade constante de me contar, tento ir rememorando os fatos, perceber o que estou editando, faço constantemente a pergunta que mais me fazem, quando você começou a escrever poemas? Respondia que foi a partir do blog. A verdade é que minha memória não é muito lá essas coisas, por isso escolho acontecimentos pontuais para tecer uma narrativa.

Um dia recebi um poema de uma amiga da sétima série, a minha letra sempre esquisita, um poema de quando tinha uns 13 anos. Isso mudou tudo, o modo que descrevia minha história. Desde então não quero mais saber o quando passo a escrever os pomas, é  por que eu os escrevo? Essa necessidade da palavra para transbordar os sentidos internos, ou a simples divertida brincadeira da linguagem.

Não sei se um poeta se sabe. Um poeta é um mistério, do mesmo modo que o mar é um mistério, as lagoas, as cachoeiras, e os coqueiros que nascem no meio do deserto onde toda água é ausente. Até quando um poeta é um explosão destruidora, é uma destruição misteriosa. Um poeta já nasce roubado pelas palavras.

Dessas palavras colecionadas nesse pequeno percurso de vida, já escrevi dois livros, com capas tão bonitas da Jéssica Gabrielle, editados pelo meus amigos e sócios da  Editora Substânsia. Nesse dois, Três Golpes D´água ( dá pra baixar gratuito aqui) e o recente MarORIGINAL, talvez eu posso entender qual história é minha história, e ao contrário de prosistas famosas como a Clarice, eu os releio sempre, para quem sabe, tentar desvendar quem eu sou.

Eu nunca entendi… quando acaba, o fim.

Quando acaba o fim de semana chove rumores de tristeza nas redes sociais, quando um relacionamento rui é “riscado”, para usar a expressão de minha mãe, nascer daí um livro, um álbum de música. Quando começa, não. Os envolvidos no início aplicam toda a sua energia para erguer o novo até sua verdeira plenitude, a energia investida é para fazer girar a roda inicial dos projetos e relacionamentos.

O início é amado, adorado.

O Fim lamentado, sepultado.

O fim é amargo, pois não poupamos de aplicar-lhe mais amargor.

O novo é cheio de esperanças, parido de luz.

O vácuo que fica nessas comparações é o simples fato de ignorarmos o fim como a possibilidade de um início. Fechamos as cortinas, abandonamos o teatro, porém no outro dia uma nova sessão é oferecida pela vida.

Isso é uma visão positiva, comigo acontece um pouco diferente.

O fim nunca acaba, eu não sei quando termina um livro, desconheço os caracteres surgidos na grande tela ao fim dos filmes.

O amor desata de mim, vai embora, mas eu não fico sabendo.

Dentro do meu universo as coisas ficam reverberando para o infinito. Aquele beijo atrás da porta do banheiro do shopping, sinto o gosto até hoje.

Pode parecer esquizofrênico, verdade, eu nunca conheci o gosto verdadeiro da morte nos meus lábios, meu pai estirado na cama, lembro que não chorei. Durantes alguns anos pensei que fosse um insensível, mas com os anos entendi, no meu coração, quando cruzo a Leon Gradvhol, parece que vejo meu Pai fazendo o jogo do bicho. Não entendo a falta.

Esse estranho modo pode me fazer parecer um fruto suspenso, um homem sem raízes, um ser sem apego. Os desapegados são vistos com muita desconfiança e mal gosto pelos que os circundam.

É trágico, há sempre um fiscal para flagrar um gesto de apego de um desapegado, para com o dedo em riste lhe desmascarar perante a comunidade.

Não consegui alcançar o desapego, não precisam fiscalizar meus atos, sinto-me até muito encravado no chão de muitas pessoas, lugares e desejos, o que tiraria de mim facilmente essa tag, desapego.

Entretanto, no meu universo pessoal os fins são tão desvalorizados, pela questão de não os entender, ainda acredito que as histórias não acabam, reverberam. Aquela vez em que você me abraçou e saiu correndo para pegar o ônibus, acredite, está acontecendo até hoje, aqui, em mim.

 

 

Eu nunca entendi… O Silêncio

O silêncioMinha vó acordava todos os dias muito cedo, muito cedo ela tinha a tarefa de abrir o bar, limpar todo o cisco do chão, cuidar das samambaias e de todas as outras plantinhas que ficava ao redor da calçada.

Crescer dentro de um Bar, é crescer acostumado com uma multidão de barulhos, desde o portão de ferro de rolar, ao som da radiola, o som das pessoas jogando sinuca fazendo vez ou outra uma confusão, som de gente conversando, som de um bebinho querendo uma dose fiada, som alto até duas da madrugada ou mais. Aprendi a dormir na zoada, foram os sons que primeiro me lançaram ao mundo que viria ser o mundo da arte, muito barulho por muito, contrariando Shakespeare, é a legenda da minha vida até agora.

De fato, eu não tenho talento algum para seguir uma dessas religiões orientais, de profunda meditação e silêncios prolongados, se a casa fica vazia, preencho logo tudo com uma das minhas mais novas playlist do spotfy, canto alto, leio em voz alta, recito poemas para as almas.

Sou uma pessoa fora de moda, sim. Você já reparou em como o tema silêncio tem sido explorado exaustivamente nas artes? o silêncio do cinema até a poesia, vez enquanto leio algum livro de crítica, ou um ensaio em alguma revista de arte que assume a perspectiva do silêncio para abordar determinada obra.

Pois,  quero deixar registrado aqui, nesse pedaço de papel que voa, se um dia escrever algo que preste e alguém for comentar isso num desses artigos da vida,  não falem sobre silêncio, tudo que fiz é igual minha pessoa, tagarela, barulhenta, ansiosa, não para quieta.

Uma vez, li em uma revista sobre a experiência de um grupo de pessoas que passaram uma semana em silêncio dentro de uma casa, um retiro espiritual, quem sabe um dia eu sigo esse exemplo, para testar minha incapacidade de calar, já até me imagino meio louco, garganta seca de barulho, mas evoluindo alguns degraus na espiritualidade.

Sei, fiz voto de barulho nessa vida. Não entendo nada de silêncio, mas quem sabe um dia alguém me ensine, ficarei muito grato.