Herbenia Gurgel, a nossa bibliotecária.

17523233_1450106338380201_4660758878106562808_n
Herbênia Gurgel à direita

A vida das Bibliotecárias é, muitas vezes, discreta, como seu ofício. Pessoas responsáveis por organizar todo o conhecimento do mundo, não simplesmente para guardar em prateleiras, sim para fazer esse conhecimento circular e chegar nas mãos de quem dele necessita, esses/essas profissionais possuem afazeres que ajudaram a construir a nossa humanidade.

Mesmo com tanta importância mal sabemos os seus nomes, quais bibliotecários famosos você consegue citar? Eu, poucos, e olha que sempre tive uma relação de amor com essa classe, imagina todo o grande público que pensam a imagem dessas pessoas como aquela vendida pela indústria do entretenimento, de uma pessoas chatas, austeras, sempre a pedir silêncio.

No ano de 2014 iniciei as atividades de um dos projeto que escrevi e participei, o Fortaleza XXI. Nessa ação, investigaria junto com meus sócios da Substânsia, qual era a produção literária fortalezense do Século XXI que a Biblioteca Dollor Barreira, situada no bairro do Benfica, abrigava sob seu teto.

Durante o projeto conheci a bibliotecária da Dollor, Herbenia Gurgel de presença, porque de nome já a conhecia, muitas pessoas já haviam falado-me dela com muito carinho. Foi uma grande honra poder conhecê-la.

Com Herbênia compartilhei toda a minha tristeza pelo grande depósito de livros que a gestão de Roberto Cláudio tinha transformado a Dollor. Minha tristeza era pueril diante do lamento de Herbênia, mas diferente de mim ela fazia algo. Além de todo o tempo de vida dedicado àquela biblioteca, muitas vezes ela tirava dinheiro do bolso para comprar água, café, e até os cabos da internet, pois era a sala de informática, ainda, um dos poucos atrativos que faziam a biblioteca não morrer.

Herbênia nos deixou, para fingir que lhe dava alguma importância, o que é uma mentira sem tamanho, a prefeitura de Fortaleza nomeou uma biblioteca no Conjunto Ceará com o seu nome e forjou uma inauguração, mais um passamento de vergonha do que uma homenagem realmente sincera.

O sonho de Herbênia, a nossa bibliotecária de Fortaleza nascida em Acopiara, era ver a Dollor linda, cheia de pessoas, com um equipamento moderno, um acervo bem cuidado e ampliado, uma grande e boa equipe, me segredara isso uma vez. Ela nos servia informação e Literatura, para ela quero desejar esse dia das/dos Bibliotecários e lhe agradecer por tudo que fez por nós, por tudo que fez por nossa ignorada, sucateada biblioteca municipal.

Anúncios

Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

Eu nunca entendi… O encantado universo das pessoas que cozinham

cozinhar.jpgO mundo estourando lá fora, a polícia sendo polícia, assassinando gente pobre, negra. ameaças em forma de farsa vêm de Brasília, um levante de meninas e meninos resistem aos efeitos do governador absolutista em São Paulo. Lama tóxica do Capital assolam nossas praias, África devastada, Oriente de conflitos forjados por países imperialistas, esses países origem de muitos males, conhecidos nossos de longa data. “Quanta matéria pros Jornais”.

O mundo desmorona, de algum modo eu desmorono junto. Não que esse cair eterno do mundo seja alguma espécie de novidade, toda a história do mundo vida dos livros é uma história sobre desmoronamentos. Quase nunca recebemos as noticias de certa pessoa, em certo lugar, fazendo certo ato de candura. A felicidade nossa não é registrada nos jornais, tampouco nos livros de histórias.

E há o encantado mundo dentro desse mundo desencantado, um mundo inteiro composto por pessoa que agoam plantinhas de manhã, juntam o cisco das calçadas, lembra de alguém e liga para contar da sua saudade, de pessoas mágicas que sabem cozinhar.

São poderes adquiridos durante a vida, joga tudo dentro duma vasilha, bate, mexe, deixa descansar, cresce, assa, torra, cozinha, nasce um bolo, uma torta, arroz com feijão, macarrão passado.

Sou capaz de contar minha história através das pessoas cozinheiras de minha vida. Dona Frasquinha fazia cuscuz todos os dias para almoço, a Elisângela e seu Antônio só comiam se fosse assim, eu envergonhadamente queria sempre participar desse almoço. A maria Isabel da minha vó, ela cozinhava em uma panela bem grande, por sermos um número grande de pessoas  zanzando pra cima e pra baixo na casa da rua Francisco Glicério, sobrava nada, acabava rápido.

O sabor da semana santa, milho, mugunzá. O bolinho de arroz de minha mãe, uma receita simples, mas que enche nossa casa de alegria quando ela resolver fazer, ela só faz de veneta nem adianta implorar. Sem falar no aspecto e sabor único de um simples macarrão passado só alcançados por minha mãe. Já tentei imitar as duas receitas, não sai do mesmo modo, coisa de mistério. É a mão.

Essas mãos tão peculiares, que temperos energéticos elas emanam, alquimistas culinários, dotados de poderes extraordinários. Queria saber escrever poemas que tivessem o gosto do bolinho de arroz ou do macarrão passado da minha mãe.

Ando me arriscando, algum tempo invento de me aventurar pela cozinha. Faço bolos, sucos, chás, arroz, coisinhas mais sofisticadas, outras bem simples. Descobri que quem cozinha o faz para o outro, a gente precisa praticar mais esse tipo de arte cultivadoras do bel prazer da(o) outra(o), é humanizador. Afinal, quando escrevo um poema o escrevo para mim, quando faço comida não é só por mim, não tem o mesmo sabor cozinhar solitário, quando cozinho é para alguém.

Ah! não precisa economizar elogios, pode dizer se ficou bom, eu gosto, toda gente da cozinha adora receber um elogio.

Bateu uma tristezinha devido a esse mundo bad em constante desmoronamento, junto as amigas, a família em volta da cozinha, deixa que por lá acontece uma mágica e depois de uma longa tarde tudo muda.

Eu sei, no entanto, muitas pessoas ainda não tem acesso ao mínimo da vida, tem gente que não come todos os dias. Por isso não dá pra parar as lutas, o lance é, caminhado, cantando, cozinhando e lutando.

Até o nosso próximo já, é só vir me visitar, eu faço aquele cuscuz.

 

 

 

Eu nunca entendi…Quando inventei de escrever poemas

capas pro blog.png

Quando contamos nossa história de vida vamos editando os acontecimentos, é como num cinema, você observa os quadros do filme, corta os desnecessários, os constrangedores, depois vai colando as ponta; Cria-se uma narrativa de si compartilhável, agradável às imaginações dos outros.

Por receber muitos convites para falar em eventos, ou em salas de aula, sobre a poesia, parto sempre dessa história, fica mais empático, os conceitos abstratos não são tão interessantes, a história cria vínculos e entre os acontecimentos você vai por ir pincelando os conceitos,  tornando a fala mais interessante.

Devido a essa atividade constante de me contar, tento ir rememorando os fatos, perceber o que estou editando, faço constantemente a pergunta que mais me fazem, quando você começou a escrever poemas? Respondia que foi a partir do blog. A verdade é que minha memória não é muito lá essas coisas, por isso escolho acontecimentos pontuais para tecer uma narrativa.

Um dia recebi um poema de uma amiga da sétima série, a minha letra sempre esquisita, um poema de quando tinha uns 13 anos. Isso mudou tudo, o modo que descrevia minha história. Desde então não quero mais saber o quando passo a escrever os pomas, é  por que eu os escrevo? Essa necessidade da palavra para transbordar os sentidos internos, ou a simples divertida brincadeira da linguagem.

Não sei se um poeta se sabe. Um poeta é um mistério, do mesmo modo que o mar é um mistério, as lagoas, as cachoeiras, e os coqueiros que nascem no meio do deserto onde toda água é ausente. Até quando um poeta é um explosão destruidora, é uma destruição misteriosa. Um poeta já nasce roubado pelas palavras.

Dessas palavras colecionadas nesse pequeno percurso de vida, já escrevi dois livros, com capas tão bonitas da Jéssica Gabrielle, editados pelo meus amigos e sócios da  Editora Substânsia. Nesse dois, Três Golpes D´água ( dá pra baixar gratuito aqui) e o recente MarORIGINAL, talvez eu posso entender qual história é minha história, e ao contrário de prosistas famosas como a Clarice, eu os releio sempre, para quem sabe, tentar desvendar quem eu sou.

Eu nunca entendi… quando acaba, o fim.

Quando acaba o fim de semana chove rumores de tristeza nas redes sociais, quando um relacionamento rui é “riscado”, para usar a expressão de minha mãe, nascer daí um livro, um álbum de música. Quando começa, não. Os envolvidos no início aplicam toda a sua energia para erguer o novo até sua verdeira plenitude, a energia investida é para fazer girar a roda inicial dos projetos e relacionamentos.

O início é amado, adorado.

O Fim lamentado, sepultado.

O fim é amargo, pois não poupamos de aplicar-lhe mais amargor.

O novo é cheio de esperanças, parido de luz.

O vácuo que fica nessas comparações é o simples fato de ignorarmos o fim como a possibilidade de um início. Fechamos as cortinas, abandonamos o teatro, porém no outro dia uma nova sessão é oferecida pela vida.

Isso é uma visão positiva, comigo acontece um pouco diferente.

O fim nunca acaba, eu não sei quando termina um livro, desconheço os caracteres surgidos na grande tela ao fim dos filmes.

O amor desata de mim, vai embora, mas eu não fico sabendo.

Dentro do meu universo as coisas ficam reverberando para o infinito. Aquele beijo atrás da porta do banheiro do shopping, sinto o gosto até hoje.

Pode parecer esquizofrênico, verdade, eu nunca conheci o gosto verdadeiro da morte nos meus lábios, meu pai estirado na cama, lembro que não chorei. Durantes alguns anos pensei que fosse um insensível, mas com os anos entendi, no meu coração, quando cruzo a Leon Gradvhol, parece que vejo meu Pai fazendo o jogo do bicho. Não entendo a falta.

Esse estranho modo pode me fazer parecer um fruto suspenso, um homem sem raízes, um ser sem apego. Os desapegados são vistos com muita desconfiança e mal gosto pelos que os circundam.

É trágico, há sempre um fiscal para flagrar um gesto de apego de um desapegado, para com o dedo em riste lhe desmascarar perante a comunidade.

Não consegui alcançar o desapego, não precisam fiscalizar meus atos, sinto-me até muito encravado no chão de muitas pessoas, lugares e desejos, o que tiraria de mim facilmente essa tag, desapego.

Entretanto, no meu universo pessoal os fins são tão desvalorizados, pela questão de não os entender, ainda acredito que as histórias não acabam, reverberam. Aquela vez em que você me abraçou e saiu correndo para pegar o ônibus, acredite, está acontecendo até hoje, aqui, em mim.