Se a Cidade fosse nossa

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A Cidade sendo nossa, os poetas a escreveriam, os compositores a comporiam, os músicos a cantariam e os dançarinos a bailariam, novas letras em cada muro, nas ruas de dentro, história passadapresentefutura na linha de rosto do povo que nela morasse, outros postes, praças nas notas sustenidas, sons mais distintos, dos vendedores ambulantes que mesmo ao meio de imensos shoppings não somem, movimentos outros, para além do movimento dos carros e sinais de trânsitos, um silêncio só possível de ser capturado na ponta do sorriso de um palhaço de rua.

Isso, evidente, se a cidade fosse nossa. Se a cidade fosse nossa, os moradores não seriam eleitores, seriam pessoas que sentam nos bancos das praças para namorar, levando os cachorrinhos a passear, mulheres que vendem churros a um preço justo.

Teria menos lixo, o homem do lixo seria o homem do livro, a jornada de trabalho bem menor, vocês, enfim, dormiriam mais do que 4 horas por dia. Haveria gente no teatro, gente no cinema, gente no meio da rua, gente nas bibliotecas, lógico, não sendo isso utopia, ainda existiria o tráfico de drogas, e invariavelmente alguém seria assaltado numa rua escura, mas a cidade seria nossa, o que nos daria direito às árvores mesmo continuando a existir homens de farda muito tristes chamados policiais.

Outro fato interessante é que existiriam bairros, além daquele onde mora o prefeito, e as pessoas além de morar poderiam vivê-los. Não seria necessário encher de tapume algumas ruas quando os chefes de Estado nos visitassem e eventos internacionais acontecessem, pois as casas das favelas também seriam a cidade do mesmo modo que são os prédios e os condomínios de luxo.

Ah! Se a cidade fosse nossa, ela seria bem maior do que essa cidade de tinta impressa nos guias turísticos.

(Originalmente publicado no portal LiteraturaBR em homenagem ao aniversário de Fortaleza)

Desesperado meu coração

Desesperando meu coração quer amar, amar outra vez, mais um dia, mais um pouco. Desesperado meu coração não conhece folga, paz, descanso, só turbulência, vento, sol e ondas chicoteando os pilares antigos da ponte velha. Desesperado meu coração quer saber se há de ruir a ponte velha, a praia de Iracema toda, ele próprio, se um dia as pessoas descobrirão a lagoa da Maraponga. Desesperado meu coração pede férias e desiste, diz fazer dieta e fica faminto, fala em abstenção para depois banhar-se no álcool, na erva, nas pernas, nas coxas doces dos garotos, e em todas essas outras drogas que não dão sentido a vida, mas oferecem o consolo necessário para os corações desesperados. Desesperado meu coração vai viajar, Jeri, Recife, Salvador, qualquer outra praia de longe, pois longe é o dorflex do meu coração. Desesperado meu coração manda mensagem, busca sinal, wi-fi, morre de medo de não conseguir se comunicar. Desesperando meu coração emudece, sente frio, sede, fome, chora sozinho nos dias de domingo quando todo mundo parece esquecer sua existência. Desesperado meu coração ainda crer, enquanto eu crio.

Devia ter falado

approaching-a-cityOntem, você passou correndo pela 13 de maio, tive vontade de gritar, mas acho que você estava apressado.

Ontem te vi no terminal da Parangaba, você estava bem ao meu lado, parecia também envergonhado, eu poderia ter puxado assunto.

Pelo vidro vi você passando, deu vontade de sair da sapataria e ir conversar contigo,  tinha um assunto importante para tratar.

Essa é uma postagem pequena, podia ter mais palavras, mas não tem. Pois, a vida é assim, acontece ou não acontece e, muitas vezes, depende um bocado da gente.

Da próxima, talvez, com um pouco mais de esforço e um pouco menos de pudor, possamos encompridar um pouco mais.

A vida.

Eu nunca entendi…Quando inventei de escrever poemas

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Quando contamos nossa história de vida vamos editando os acontecimentos, é como num cinema, você observa os quadros do filme, corta os desnecessários, os constrangedores, depois vai colando as ponta; Cria-se uma narrativa de si compartilhável, agradável às imaginações dos outros.

Por receber muitos convites para falar em eventos, ou em salas de aula, sobre a poesia, parto sempre dessa história, fica mais empático, os conceitos abstratos não são tão interessantes, a história cria vínculos e entre os acontecimentos você vai por ir pincelando os conceitos,  tornando a fala mais interessante.

Devido a essa atividade constante de me contar, tento ir rememorando os fatos, perceber o que estou editando, faço constantemente a pergunta que mais me fazem, quando você começou a escrever poemas? Respondia que foi a partir do blog. A verdade é que minha memória não é muito lá essas coisas, por isso escolho acontecimentos pontuais para tecer uma narrativa.

Um dia recebi um poema de uma amiga da sétima série, a minha letra sempre esquisita, um poema de quando tinha uns 13 anos. Isso mudou tudo, o modo que descrevia minha história. Desde então não quero mais saber o quando passo a escrever os pomas, é  por que eu os escrevo? Essa necessidade da palavra para transbordar os sentidos internos, ou a simples divertida brincadeira da linguagem.

Não sei se um poeta se sabe. Um poeta é um mistério, do mesmo modo que o mar é um mistério, as lagoas, as cachoeiras, e os coqueiros que nascem no meio do deserto onde toda água é ausente. Até quando um poeta é um explosão destruidora, é uma destruição misteriosa. Um poeta já nasce roubado pelas palavras.

Dessas palavras colecionadas nesse pequeno percurso de vida, já escrevi dois livros, com capas tão bonitas da Jéssica Gabrielle, editados pelo meus amigos e sócios da  Editora Substânsia. Nesse dois, Três Golpes D´água ( dá pra baixar gratuito aqui) e o recente MarORIGINAL, talvez eu posso entender qual história é minha história, e ao contrário de prosistas famosas como a Clarice, eu os releio sempre, para quem sabe, tentar desvendar quem eu sou.

Eu nunca entendi… Como a Literatura ainda sendo elitista pode funcionar como ferramenta de libertação

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A Literatura é elitista? a Literatura pode ser uma ferramenta de libertação ou empoderamento?

Alguns acontecimentos nos últimos dias, melhor dizendo nos últimos anos têm jogado-me diante dessas questões diversas vezes. Tento buscar respostas para essas perguntas e compartilha com os alunos de escola que participam de um grande projeto de Literatura promovido pelo SESC-CE do qual eu sou mediador. Também já tentei responder essas perguntas em algumas falas em eventos literários. Já pensei e conversei sobre o assunto com os artistas que ocuparam a Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) em um ato histórico para nossa cidade.

Devo entender a priori que a Literatura, como todas as outras formas de arte é um discurso. Um discurso sempre parte de algum lugar, esse lugar está inserido dentro de alguma ideologia, de modo que não há arte desinteressada ou literatura desinteressada. Esse ponto é crucial para o desenvolvimento do meu pensamento, já que o romantismo nos legou a crença da Arte pela Arte, fazendo-nos em alguns determinados momentos acreditar em apenas um dos preceitos Horacianos o deleitar, riscando o instruir das funções da arte.

Essa é uma visão de muitos, a arte literária, principalmente a poética, não teria ou exerceria função alguma, logo estaria isenta de qualquer obrigação a não ser a de existir por si mesmo, o que a enquadraria facilmente dentro da doutrina da arte pela arte.

Esses preceitos podem parecer inocentes, mas se usarmos de franqueza e observação eles de inocentes possuem quase nada. A Literatura, ainda é elitista, embora, e falaremos disso um pouco mais adiante, tenha sido positivamente subvertida.

Para ajudar a pensar esse texto, disponibilizei a problematização dessa discussão na página do blog. Um dos pontos questionados foi de que a Literatura não era mais elitista. Será? Quem ainda são os principais produtores e comentadores da literatura  no mundo? Homem, branco, quase média para alta. Esse é o perfil de editora, prêmios, eventos. Não que seja uma hegemonia, o quadro tem se modificado muito, mas se for para pegarmos por exemplo um país como o Brasil, só a pouquíssimo tempo houve uma espécie de cotização de escritores por região para participar de eventos internacionais patrocinados pelo Ministério da Cultura, e se percebermos bem o perfil para quais o Ministério oferece reconhecimento, a ideia de uma literatura Elitista ainda é bem presente.

Entretanto, ela não é mais apenas isso, tornou-se um multiverso, de muitas vozes, vozes que conquistam e desconstroem o estabelecido há muitos anos, utilizando-se de alternativas várias, hoje de ferramentas como editoras independentes e o mundo anárquico e delicioso da internet.

O grandes sustentáculos da literatura, é a Educação, o Estado e Mídia, com visões deveras elitistas, enquanto esses forem os sustentáculos dessa arte, seu viés elite ainda permanecerá forte e bem sustentado.

Como não ser/permanecer nessas condições? ou para que ou quem devemos atuar na desconstrução elitista ou na construção de uma outra literatura emancipadora? quem fará isso?

Olhando ao redor quase nunca tenho os escritores envolvidos em pensar nesse assunto, inclusive participar é algo que vejo pouco das minhas colegas escritoras e escritores. Falo com muito pesar, sem orgulho algum dessa realidade. Tanto que posso colocar-me em um tremendo engodo ao partilhar isso, mas de todas e todos partícipes do sistema literário os mais libertadores e revolucionários são os leitores.

Certo que os atores desse sistema, editoras, escritores, mediadoras, livreiros, estão inserido em um coexistência, mas parece-me que é no leitor, que os efeitos de múltiplas visões instauradas pela literatura se consolidam, o universo do leitor que ao ler Kafka enfrenta sua própria existência, ou ao ler Carolina de Jesus percebe seu estar no mundo, libertando-se de si próprio e das fronteiras que o rodeiam.

E deveriam todos esses agentes que compõem a cadeia da literatura ser também leitores e participar desses efeitos? Sim, deveriam, mas parece que algo em suas posições de privilégio atrapalha um pouco suas ações.

Tecidas as problematizações e considerações, partamos para tentar resolver a questão principal proposta. Nesse contexto, cabe lembrar que a literatura antes de discurso é linguagem, sendo linguagem é um oceano de possibilidades, é também construção e desconstrução da realidades. Ter esse conhecimento é um dos passos principais para pensar uma uma literatura libertadora.

A literatura também proporciona ao ser um enfrentamento constante com suas realidades, próximas ou distante, assim,ela contribui para o atravessamento da densa floresta da existência. Talvez não responda se o diabo existe ou não, mas nos coloca a pergunta a todos os instantes.

A literatura também é uma forma de poder, devemos nos apropriar, ocupar, conhecer as ferramentas de poder, para decidir participar ou não, aumenta-lo ou desconstruir. Saber de onde vem as balas que disparam contra nossa vida.

Outra possibilidade emancipadora da literatura é seu poder de construir novos mitos, destruir os antigo. Não pensemos que o existente, o grandioso é intocável, muitas escritoras e escritores tiveram a ousadia de mexer no intocável, lançando-o ao chão. Quebremos nossos cânones todos os dias, não há modificação na inércia, a literatura pode nos proporcionar força motriz para criação e destruição.

A literatura também estabelece identidades, lembra que Alemanha no romantismo utilizou esse poder da literatura para colaborar na construção do que é ser alemão. Usemos então para a construção ou desconstrução de nossas identidades.

Por ser um mediador de leituras, avisto infinitas possibilidades, porém minha inquietação não se assenta no fundo de um lago, sei bem o que a literatura representou e representa durantes todos esses anos, sei também em como ela tem sido apropriada e utilizada contra a dominação que um dia ela foi responsável de propagar.

Literatura é possibilidade, é matéria de vida transformada em linguagem, digo isso para mim mesmo todos os dias, dentro dessa perspectiva eu quero continuar navegando.