Eu nunca entendi… a ciência de tão poucos

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Esquivando-me a vida inteira dos comentários simplistas patrocinados por governos neoliberais dos anos noventa pra cá, esses que patrocinam ensino pela Televisão, do tipo todos podem crescer na vida se estudarem e trabalharem duro.

Dura é essa mentira, jogo da ilusão.

A informação verdadeira não é para todos, sobra o lixo do conhecimento por vias lixosas das televisões.

Uma verdadeira distribuição de renda deve vir junta a uma verdadeira distribuição de arte e de ciência. Depois de uma revolução, a primeira propriedade da qual o povo deveria tomar posse é a das universidades, com seus cientista milhares fomentadas com nosso trabalho.

Afinal, nós “queremos saber/ o que vão fazer/ com as novas invenções/ queremos notícias mais sérias/ sobre a descoberta da anti-matéria/e sua implicações para emancipação do homem”.*

Pergunte para sua mãe se ela sabe quais são as 3 leis de Newton, depois pergunte para si o que é o sistema binário? A gente não sabe das coisas por elas serem difíceis, desconhecemos o funcionamento do mundo, pois é mais cômodo e fácil desconhecermos.

Balela! Vai gritar um meritocrata, argumentando como ficou tão fácil, desde que o ministério da educação passou a distribuir nas escolas gratuitamente para os miseráveis livros explicativos, didáticos, para todas essas questões.

Recuso! nunca vi uma molécula, pois o ministério mandou o livro, mas não mandou o microscópio, não mandou o laboratório, não mandou o salário do professor, não mandou nem a metade do necessário para a viagem derradeira espacial ao mundo das ciências. Amigas, amigos, ninguém aprende apenas vendo álbum de figurinhas.

Além de tudo isso, os cientistas são ensinados a ter medo do povo,  eles são doutrinados a acreditar que nós, a massa burra que não faz cálculos com mais de três dígitos,  não são merecedora da privilegiada ciência.

Tomemos o bisturi

Façamos uma fusão

Imitemos Prometeu e vamos lá roubar o fogo

Queremos saber, queremos saber, todas/todos queremos saber.

 


 

*Queremos saber, Gilberto Gil

 

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Eu nunca entendi… Como a Literatura ainda sendo elitista pode funcionar como ferramenta de libertação

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A Literatura é elitista? a Literatura pode ser uma ferramenta de libertação ou empoderamento?

Alguns acontecimentos nos últimos dias, melhor dizendo nos últimos anos têm jogado-me diante dessas questões diversas vezes. Tento buscar respostas para essas perguntas e compartilha com os alunos de escola que participam de um grande projeto de Literatura promovido pelo SESC-CE do qual eu sou mediador. Também já tentei responder essas perguntas em algumas falas em eventos literários. Já pensei e conversei sobre o assunto com os artistas que ocuparam a Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) em um ato histórico para nossa cidade.

Devo entender a priori que a Literatura, como todas as outras formas de arte é um discurso. Um discurso sempre parte de algum lugar, esse lugar está inserido dentro de alguma ideologia, de modo que não há arte desinteressada ou literatura desinteressada. Esse ponto é crucial para o desenvolvimento do meu pensamento, já que o romantismo nos legou a crença da Arte pela Arte, fazendo-nos em alguns determinados momentos acreditar em apenas um dos preceitos Horacianos o deleitar, riscando o instruir das funções da arte.

Essa é uma visão de muitos, a arte literária, principalmente a poética, não teria ou exerceria função alguma, logo estaria isenta de qualquer obrigação a não ser a de existir por si mesmo, o que a enquadraria facilmente dentro da doutrina da arte pela arte.

Esses preceitos podem parecer inocentes, mas se usarmos de franqueza e observação eles de inocentes possuem quase nada. A Literatura, ainda é elitista, embora, e falaremos disso um pouco mais adiante, tenha sido positivamente subvertida.

Para ajudar a pensar esse texto, disponibilizei a problematização dessa discussão na página do blog. Um dos pontos questionados foi de que a Literatura não era mais elitista. Será? Quem ainda são os principais produtores e comentadores da literatura  no mundo? Homem, branco, quase média para alta. Esse é o perfil de editora, prêmios, eventos. Não que seja uma hegemonia, o quadro tem se modificado muito, mas se for para pegarmos por exemplo um país como o Brasil, só a pouquíssimo tempo houve uma espécie de cotização de escritores por região para participar de eventos internacionais patrocinados pelo Ministério da Cultura, e se percebermos bem o perfil para quais o Ministério oferece reconhecimento, a ideia de uma literatura Elitista ainda é bem presente.

Entretanto, ela não é mais apenas isso, tornou-se um multiverso, de muitas vozes, vozes que conquistam e desconstroem o estabelecido há muitos anos, utilizando-se de alternativas várias, hoje de ferramentas como editoras independentes e o mundo anárquico e delicioso da internet.

O grandes sustentáculos da literatura, é a Educação, o Estado e Mídia, com visões deveras elitistas, enquanto esses forem os sustentáculos dessa arte, seu viés elite ainda permanecerá forte e bem sustentado.

Como não ser/permanecer nessas condições? ou para que ou quem devemos atuar na desconstrução elitista ou na construção de uma outra literatura emancipadora? quem fará isso?

Olhando ao redor quase nunca tenho os escritores envolvidos em pensar nesse assunto, inclusive participar é algo que vejo pouco das minhas colegas escritoras e escritores. Falo com muito pesar, sem orgulho algum dessa realidade. Tanto que posso colocar-me em um tremendo engodo ao partilhar isso, mas de todas e todos partícipes do sistema literário os mais libertadores e revolucionários são os leitores.

Certo que os atores desse sistema, editoras, escritores, mediadoras, livreiros, estão inserido em um coexistência, mas parece-me que é no leitor, que os efeitos de múltiplas visões instauradas pela literatura se consolidam, o universo do leitor que ao ler Kafka enfrenta sua própria existência, ou ao ler Carolina de Jesus percebe seu estar no mundo, libertando-se de si próprio e das fronteiras que o rodeiam.

E deveriam todos esses agentes que compõem a cadeia da literatura ser também leitores e participar desses efeitos? Sim, deveriam, mas parece que algo em suas posições de privilégio atrapalha um pouco suas ações.

Tecidas as problematizações e considerações, partamos para tentar resolver a questão principal proposta. Nesse contexto, cabe lembrar que a literatura antes de discurso é linguagem, sendo linguagem é um oceano de possibilidades, é também construção e desconstrução da realidades. Ter esse conhecimento é um dos passos principais para pensar uma uma literatura libertadora.

A literatura também proporciona ao ser um enfrentamento constante com suas realidades, próximas ou distante, assim,ela contribui para o atravessamento da densa floresta da existência. Talvez não responda se o diabo existe ou não, mas nos coloca a pergunta a todos os instantes.

A literatura também é uma forma de poder, devemos nos apropriar, ocupar, conhecer as ferramentas de poder, para decidir participar ou não, aumenta-lo ou desconstruir. Saber de onde vem as balas que disparam contra nossa vida.

Outra possibilidade emancipadora da literatura é seu poder de construir novos mitos, destruir os antigo. Não pensemos que o existente, o grandioso é intocável, muitas escritoras e escritores tiveram a ousadia de mexer no intocável, lançando-o ao chão. Quebremos nossos cânones todos os dias, não há modificação na inércia, a literatura pode nos proporcionar força motriz para criação e destruição.

A literatura também estabelece identidades, lembra que Alemanha no romantismo utilizou esse poder da literatura para colaborar na construção do que é ser alemão. Usemos então para a construção ou desconstrução de nossas identidades.

Por ser um mediador de leituras, avisto infinitas possibilidades, porém minha inquietação não se assenta no fundo de um lago, sei bem o que a literatura representou e representa durantes todos esses anos, sei também em como ela tem sido apropriada e utilizada contra a dominação que um dia ela foi responsável de propagar.

Literatura é possibilidade, é matéria de vida transformada em linguagem, digo isso para mim mesmo todos os dias, dentro dessa perspectiva eu quero continuar navegando.

 

Eu nunca entendi… Porque a poesia está por fora

Drummond

Ontem, fui ministrar mais uma das aulas sobre poéticas da leitura e leituras poéticas, dessa vez para uma turma em processo de formação na escola de narradores, um projeto da Cia. Catirina de Arte e Produção junto com as Costureiras de Histórias, Josy Maria e Tâmara Bezerra, duas artistas que amo e admiro, são as coordenadoras desse projeto lindo em Fortaleza, com aulas lá no Teatro José de Alencar.

Sempre encabeço uma discussão a partir do Texto do Carlos Drummond de Andrade, a Educação do Ser Poéticos, podes acessar aqui. Drummond, tece um cometário que parte do seguinte pressuposto, se observarmos bem, as crianças gostam de poesia, com os anos esse gosto parece ser destituído. Essa observação parecer ter pertinência, a pesquisa Retratos da Leitura mostrou em 2007 a poesia como um dos gêneros prediletos das crianças e pré-adolescentes, caso que não acontecia com as pessoas de maiores idades.

Acredito nas palavras do texto de Drummond quando aponta uma educação ausente de poesia, uma das principais causas desse empobrecimento poético pelo qual passamos durante nossa vida, a questão não passa só pelo fator ausência do poema, mas a falta de maestria, desconhecimento, leveza e poeticidade, ao abordar o tema dentro de sala de aula.

“Mas isso ainda diz pouco”, parafraseando o João Cabral de Melo Neto. A Poesia não está por fora só da Escola, ou da Sala de Aula, a poesia anda por fora de muitos locais, a poesia anda por fora dos centro culturais, das bibliotecas, das universidades, dos condomínios, das casas, dos presídios, dos bares, das rodas de amigos, do cinema, da vida secreta das moradoras e moradores do Brasil. Porém não de todo, não vou aqui ser o injusto de dizer que a poesia inexiste, pelo contrário, há uma onda de saraus e uma excelente tentativa de fazer do poema algo mais popularizado, até show com poetas eu vejo anunciar nos instagrans e facebooks da vida.

A questão é, quando apagam as luzes os poetas morrem de fome, a poesia morre de fome, estamos mais para ornamento do que para vitalício, o lugar do poema, esse artefato essencial na humanização de um povo, deve ser debatido, discutido, não importando que um livro de poema  venda pouco, ou que um festival reúna dois ou três criaturas e nunca um público inteiro do show do Wesley Safadão.

Por que essa urgência? Por que essa importância para a poesia? eu contraponho, por que não? se tem lugar para tantas outras coisas que brilham tão menos nas nossas almas. A Falta de lugar para Poesia deve ser tratado como um problema de saúde pública, catástrofe geral, encimentamento coletivo de corpos e espíritos. Vamos colocar a poesia por dentro de tudo, é urgente.