Eu nunca entendi… O encantado universo das pessoas que cozinham

cozinhar.jpgO mundo estourando lá fora, a polícia sendo polícia, assassinando gente pobre, negra. ameaças em forma de farsa vêm de Brasília, um levante de meninas e meninos resistem aos efeitos do governador absolutista em São Paulo. Lama tóxica do Capital assolam nossas praias, África devastada, Oriente de conflitos forjados por países imperialistas, esses países origem de muitos males, conhecidos nossos de longa data. “Quanta matéria pros Jornais”.

O mundo desmorona, de algum modo eu desmorono junto. Não que esse cair eterno do mundo seja alguma espécie de novidade, toda a história do mundo vida dos livros é uma história sobre desmoronamentos. Quase nunca recebemos as noticias de certa pessoa, em certo lugar, fazendo certo ato de candura. A felicidade nossa não é registrada nos jornais, tampouco nos livros de histórias.

E há o encantado mundo dentro desse mundo desencantado, um mundo inteiro composto por pessoa que agoam plantinhas de manhã, juntam o cisco das calçadas, lembra de alguém e liga para contar da sua saudade, de pessoas mágicas que sabem cozinhar.

São poderes adquiridos durante a vida, joga tudo dentro duma vasilha, bate, mexe, deixa descansar, cresce, assa, torra, cozinha, nasce um bolo, uma torta, arroz com feijão, macarrão passado.

Sou capaz de contar minha história através das pessoas cozinheiras de minha vida. Dona Frasquinha fazia cuscuz todos os dias para almoço, a Elisângela e seu Antônio só comiam se fosse assim, eu envergonhadamente queria sempre participar desse almoço. A maria Isabel da minha vó, ela cozinhava em uma panela bem grande, por sermos um número grande de pessoas  zanzando pra cima e pra baixo na casa da rua Francisco Glicério, sobrava nada, acabava rápido.

O sabor da semana santa, milho, mugunzá. O bolinho de arroz de minha mãe, uma receita simples, mas que enche nossa casa de alegria quando ela resolver fazer, ela só faz de veneta nem adianta implorar. Sem falar no aspecto e sabor único de um simples macarrão passado só alcançados por minha mãe. Já tentei imitar as duas receitas, não sai do mesmo modo, coisa de mistério. É a mão.

Essas mãos tão peculiares, que temperos energéticos elas emanam, alquimistas culinários, dotados de poderes extraordinários. Queria saber escrever poemas que tivessem o gosto do bolinho de arroz ou do macarrão passado da minha mãe.

Ando me arriscando, algum tempo invento de me aventurar pela cozinha. Faço bolos, sucos, chás, arroz, coisinhas mais sofisticadas, outras bem simples. Descobri que quem cozinha o faz para o outro, a gente precisa praticar mais esse tipo de arte cultivadoras do bel prazer da(o) outra(o), é humanizador. Afinal, quando escrevo um poema o escrevo para mim, quando faço comida não é só por mim, não tem o mesmo sabor cozinhar solitário, quando cozinho é para alguém.

Ah! não precisa economizar elogios, pode dizer se ficou bom, eu gosto, toda gente da cozinha adora receber um elogio.

Bateu uma tristezinha devido a esse mundo bad em constante desmoronamento, junto as amigas, a família em volta da cozinha, deixa que por lá acontece uma mágica e depois de uma longa tarde tudo muda.

Eu sei, no entanto, muitas pessoas ainda não tem acesso ao mínimo da vida, tem gente que não come todos os dias. Por isso não dá pra parar as lutas, o lance é, caminhado, cantando, cozinhando e lutando.

Até o nosso próximo já, é só vir me visitar, eu faço aquele cuscuz.

 

 

 

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