Eu nunca entendi… onde se encontra seus ouvidos e seu coração

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Capa do EP do Grupo Casa de Velho, com Fotografia de Sávio Félix

Essa é uma postagem musical.

Não entendo muito, falo tecnicamente, de música. Apenas amo e acredito que amar já é uma forma de compreensão. Por isso estava há alguns dias com certa vontade de escrever sobre o assunto, queria falar do incomodo de o Brasil estar fervilhando de grandes artistas, produzindo diversidade, novidades que chegam-me através do Spotfy, das redes sociais, mas do bolo todo quase não escuto falar da fatia de artistas cearenses.

Comecei a pensar motivos, cheguei em alguns possíveis:

  • Não há muitos artistas cearenses produzindo? (NÃOOO) Comecei a contar nos dedos, perdi as contas, muita gente.
  • Eu sou um desinformado? (É POSSÍVEL) Não poderia abarcar tudo, porém não seria esse fato, pois estou conectados, as notícias aparecem, as amigas e amigos compartilham.
  • Questão de gosto, afinal gosto é… ?(MENTIRAAAAA) Esse papo de gosto está cada vez mais desacreditado, o chamado gosto pessoal, tenho desconfiado bem muito dele, não vou nem entrar muito no mérito dessa questão, ainda não quero falar sobre ideias não amadurecidas.
  • Simples desconhecimento…? (PROVÁVEL) A internet ajuda muito, contudo os meios tradicionais de mídia ainda são bem fortes. Não tem música da galera daqui na novela da globo, algumas das galeras nem desejaria isso, acredito e estão certíssimos, tem coisa bem mais importante na vida do que sucesso.

Um grande universo de fatores passaram por minha cabeça, as protagonistas do mercado fonográfico podem colocar pontos mais qualificados que os meus, contudo quero falar sobre um deles, um ponto que influencia não só a música cearense, também a literatura, as artes plásticas, as artes no todo. O querer.

Sim, a bruta flor do querer, não parece glamouroso suficiente sair com um exemplar de um livro da Ayla Andrade ao invés de um do Dostoiévski (não estou comparando os dois, amo e leio as/os dois/duas). Uma grande bobagem, permita-se aí companheira, desconstrua-se companheiro, experimente a arte do lugar.

Querer junto com o permitir-se, aliado ao desconstruir-se, somados ao praticar formam uma equação bem interessante. Uma equação que vai lhe garantir muitas descobertas, de quebra fomentar verdadeiramente tanto o mercado da arte no Estado, colaborando para que ele se torne mais sofisticado e diverso, apoiando gente das suas área. Isso é massa.

Há outras vantagens em trazer seus ouvidos e corações para mais próximos de onde você mora, você poderá encontrar mais facilmente com as pessoas que produzem essa arte, entender o que acontece no seu entorno e aumentar sua autoestima (sabe aquele momento que você disse, cara isso é de uma escritora da minha cidade, freud né, ou saca essa banda, esses meninxs são daqui, maravilhosxs).

Posso mostrar algumas possibilidades:

Casa de Velho: eles acabaram de lançar um EP no youtube, já fizeram alguns shows pela cidade. As letras e sonoridade chegaram certeiras ao meu coração, a imagem dessa postagem é a capa do EP deles escuta só:

https://www.youtube.com/watch?v=-TZbN4PKlIU

Daniel Medina: Uma amiga mostrou a música Lágrima de Índio, fiquei encantado, música tão envolvente, e os bairros cantados, conhecia todos, depois só fiquei mais apaixonado, a música Cancioneta é minha predileta. O Daniel lançou recentemente seu primeiro  Single, vale conferir e buscar mais coisas dele espalhada por aí. aqui alguns links:

https://www.youtube.com/watch?v=oMLBod2w7iA
https://www.youtube.com/watch?v=Vy8jLBuvpXs
https://www.youtube.com/watch?v=WJFoiEII4OA

Lidia Maria: Tem um CD lindo, chamado alma leve, a Lidia compões, toca vários instrumentos e tem uma voz muito linda. Você pode escutar aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=lgUnH8w2TGw&list=PLc74zlNuBDCnv-mHPGryw7r_eJA3H3QRO

Oco do Mundo: Não adianta só escutar, tem que conhecer de pertinho esse bando de gente lindo, poesia, música e diversão tudo junto. Tem esse clipe aqui deles no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=amsNlP8sDec
Para as pessoas que amam Spotfy, tipo eu, tem também algumas artistas do Ceará  que estão sempre no meu play, vou lincar algumas

Lorena Nunes ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ( cinco corações na minha tabela de

classificação, rsrsr poderia sem uns mil ^^ amo muito)

Paula Tesser ( Conheci a pouco, outra indicação de amigos, vicei)

Cidadão Instigado ( Made In Ceará, um mói de gente ama, eu amo também)

Jonnata Doll e os Garotos Solventes (Muito rock´nroll)

Mais que isso é com vocês, pode indicar eu quero, eu gosto.

 

 

 

 

 

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Eu nunca entendi… Como a Literatura ainda sendo elitista pode funcionar como ferramenta de libertação

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A Literatura é elitista? a Literatura pode ser uma ferramenta de libertação ou empoderamento?

Alguns acontecimentos nos últimos dias, melhor dizendo nos últimos anos têm jogado-me diante dessas questões diversas vezes. Tento buscar respostas para essas perguntas e compartilha com os alunos de escola que participam de um grande projeto de Literatura promovido pelo SESC-CE do qual eu sou mediador. Também já tentei responder essas perguntas em algumas falas em eventos literários. Já pensei e conversei sobre o assunto com os artistas que ocuparam a Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) em um ato histórico para nossa cidade.

Devo entender a priori que a Literatura, como todas as outras formas de arte é um discurso. Um discurso sempre parte de algum lugar, esse lugar está inserido dentro de alguma ideologia, de modo que não há arte desinteressada ou literatura desinteressada. Esse ponto é crucial para o desenvolvimento do meu pensamento, já que o romantismo nos legou a crença da Arte pela Arte, fazendo-nos em alguns determinados momentos acreditar em apenas um dos preceitos Horacianos o deleitar, riscando o instruir das funções da arte.

Essa é uma visão de muitos, a arte literária, principalmente a poética, não teria ou exerceria função alguma, logo estaria isenta de qualquer obrigação a não ser a de existir por si mesmo, o que a enquadraria facilmente dentro da doutrina da arte pela arte.

Esses preceitos podem parecer inocentes, mas se usarmos de franqueza e observação eles de inocentes possuem quase nada. A Literatura, ainda é elitista, embora, e falaremos disso um pouco mais adiante, tenha sido positivamente subvertida.

Para ajudar a pensar esse texto, disponibilizei a problematização dessa discussão na página do blog. Um dos pontos questionados foi de que a Literatura não era mais elitista. Será? Quem ainda são os principais produtores e comentadores da literatura  no mundo? Homem, branco, quase média para alta. Esse é o perfil de editora, prêmios, eventos. Não que seja uma hegemonia, o quadro tem se modificado muito, mas se for para pegarmos por exemplo um país como o Brasil, só a pouquíssimo tempo houve uma espécie de cotização de escritores por região para participar de eventos internacionais patrocinados pelo Ministério da Cultura, e se percebermos bem o perfil para quais o Ministério oferece reconhecimento, a ideia de uma literatura Elitista ainda é bem presente.

Entretanto, ela não é mais apenas isso, tornou-se um multiverso, de muitas vozes, vozes que conquistam e desconstroem o estabelecido há muitos anos, utilizando-se de alternativas várias, hoje de ferramentas como editoras independentes e o mundo anárquico e delicioso da internet.

O grandes sustentáculos da literatura, é a Educação, o Estado e Mídia, com visões deveras elitistas, enquanto esses forem os sustentáculos dessa arte, seu viés elite ainda permanecerá forte e bem sustentado.

Como não ser/permanecer nessas condições? ou para que ou quem devemos atuar na desconstrução elitista ou na construção de uma outra literatura emancipadora? quem fará isso?

Olhando ao redor quase nunca tenho os escritores envolvidos em pensar nesse assunto, inclusive participar é algo que vejo pouco das minhas colegas escritoras e escritores. Falo com muito pesar, sem orgulho algum dessa realidade. Tanto que posso colocar-me em um tremendo engodo ao partilhar isso, mas de todas e todos partícipes do sistema literário os mais libertadores e revolucionários são os leitores.

Certo que os atores desse sistema, editoras, escritores, mediadoras, livreiros, estão inserido em um coexistência, mas parece-me que é no leitor, que os efeitos de múltiplas visões instauradas pela literatura se consolidam, o universo do leitor que ao ler Kafka enfrenta sua própria existência, ou ao ler Carolina de Jesus percebe seu estar no mundo, libertando-se de si próprio e das fronteiras que o rodeiam.

E deveriam todos esses agentes que compõem a cadeia da literatura ser também leitores e participar desses efeitos? Sim, deveriam, mas parece que algo em suas posições de privilégio atrapalha um pouco suas ações.

Tecidas as problematizações e considerações, partamos para tentar resolver a questão principal proposta. Nesse contexto, cabe lembrar que a literatura antes de discurso é linguagem, sendo linguagem é um oceano de possibilidades, é também construção e desconstrução da realidades. Ter esse conhecimento é um dos passos principais para pensar uma uma literatura libertadora.

A literatura também proporciona ao ser um enfrentamento constante com suas realidades, próximas ou distante, assim,ela contribui para o atravessamento da densa floresta da existência. Talvez não responda se o diabo existe ou não, mas nos coloca a pergunta a todos os instantes.

A literatura também é uma forma de poder, devemos nos apropriar, ocupar, conhecer as ferramentas de poder, para decidir participar ou não, aumenta-lo ou desconstruir. Saber de onde vem as balas que disparam contra nossa vida.

Outra possibilidade emancipadora da literatura é seu poder de construir novos mitos, destruir os antigo. Não pensemos que o existente, o grandioso é intocável, muitas escritoras e escritores tiveram a ousadia de mexer no intocável, lançando-o ao chão. Quebremos nossos cânones todos os dias, não há modificação na inércia, a literatura pode nos proporcionar força motriz para criação e destruição.

A literatura também estabelece identidades, lembra que Alemanha no romantismo utilizou esse poder da literatura para colaborar na construção do que é ser alemão. Usemos então para a construção ou desconstrução de nossas identidades.

Por ser um mediador de leituras, avisto infinitas possibilidades, porém minha inquietação não se assenta no fundo de um lago, sei bem o que a literatura representou e representa durantes todos esses anos, sei também em como ela tem sido apropriada e utilizada contra a dominação que um dia ela foi responsável de propagar.

Literatura é possibilidade, é matéria de vida transformada em linguagem, digo isso para mim mesmo todos os dias, dentro dessa perspectiva eu quero continuar navegando.

 

Eu nunca entendi… A Silvia Moura

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Diálogos imaginários possíveis-prováveis:

– Você sabe o que é uma artista?
– Sei, eu conheço a Silvia Moura.
———————————-
– Talles, você esteve em São Paulo e não viu a Abramovic?
– Verdade, mas eu sempre vejo a Silvia Moura em Fortaleza, então não faz falta.

(Avisei para Silvia que escreveria sobre ela, disse que o nome da postagem seria Eu nunca entendi… A Silvia Moura, ela relutou, disse que eu a entendi muito, então antes do desenvolvimento do texto deixo claro para Silvia e as leitoras e leitores dessa folha que voa, quando afirmo que não entendo, é porque o objeto do qual eu falo nunca se mostra completamente, pois seus prismas de significados são tão infinitos que o objeto discorrido nunca será apreendido em sua totalidade)

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Eu sabia de sua existência, quando nasci ela já estava dançando, algumas pessoas apontavam-na na rua e dizia, “olha ali, é a Silvia Moura”, pessoas desse tipo me assustam, pois ganham uma responsabilidade injusta de me surpreender, mesmo sem terem nada a ver comigo, quando acontece de não cumprirem o que espero sinto-me traído e decepcionado. Por isso vou adiando o livro, o espetáculo, as pessoas super recomendadas, por um medo letal da decepção. Sei que isso é injusto, não deveria alimentar dentro de mim esse jardim de expectativas, mas acontece, tem áreas  do nosso ser que demoramos anos e anos para obter o controle, na época eu não mantinha controle algum sobre esse setor da minha existência.

Mesmo assim fui assistir o Anatomia das coisas encalhadas, numa tarde linda e a apresentação era em um dos locais que mais amava em Fortaleza, o CCBNB na Floriano Peixoto.  Sentei ali pelo chão, lentamente fui entrando na cosmogonia das coisas amontoadas, de carteiras de cigarros, fones de ouvidos e caixas, muitas caixas, caixas que cabiam algumas das pessoas da platéia; fiquei atento, os movimentos e as palavras existiam juntas, meus olhos não poderiam olhar outra coisa naquela tarde, meus ouvidos não poderiam escutar outra coisa, entrei em estado do sublime, para um dos estágios que a boa arte causa em nosso corpo, um êxtase mais prazeroso do que o religioso, pois é só prazer, sem culpa.

Quando tudo acabou escrevi um poema, hoje não sei onde anda esse poema, porém recordo nele uma espécie de profecia de muitos outros encontros da minha pessoa com a obra de Silvia. Assisti depois A Cadeirinha e Eu, Vestida de Luz, A Beira De…  Além de muitos momentos que acabei esbarrando com a Silvia por aí, sua fala forte, cheia de geniosidade, algumas vezes de encontro contra minha fala e minha opinião. Contudo, se divergíamos em opiniões políticas em alguns espaços dentro da cidade, quando o assunto é, ela no Palco e eu na Platéia, só dou graças por poder ver uma artista em Cena e ter o prometido Deleite Horaciano de uma obra de arte.

Pelo desdobra do tempo, acabei acompanhando Silvia além do Palco, nas redes sociais, observando que além da fala ela produzia uma escrita, tão orgânica e caótica como a sua arte cênica. Intrigou-me tanto sua poética palavra que a convidei para publicar um livro pela minha editora, assim comecei a conhecer seu outro lado. Silvia Leitora, Silvia Poeta, Silvia Escritora, Silvia que gosta de passar a tarde sentada tomando café e costurando prosa.

Eu tenho um livro dela, um livro no qual fui uma espécie de parteiro. Quando você for assistir ou Ler Silvia Moura, saiba que vai se deparar com uma mulher complexa, cheia de anseios infintos, indignações latentes, contradições, uma mulher que grita dançando, escrevendo, bordando, cozinhado, a obra da Silvia pode ser qualquer coisa menos pacífica. Prepare-se para o impacto, ela incomoda bastante. Incomoda pois tem uma coragem de mostrar, entretanto ela não mostra de qualquer maneira.

Acumulando anos e anos de técnica, uma vida incessante de formações e participação ativa na vida cultural, Silvia coloca no mundo a palavra agônica, o passo certeiro, o traço necessário.  Falar todas as coisas que falo dessa mulher pode ser contaminado pela admiração, entretanto meus olhos são sinceros. Até hoje, quando encontro com Silvia, sempre requisitada, sempre rodeada de gente querendo sua atenção, sua presença, seu toque, suas piadas bem colocas, eu gosto de abraça-la e agradecer por compartilhar sua arte conosco.

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Gosto de pensar uma arte que só é possível por causa da vida e das trajetórias individuais, uma arte da poesia de vida, técnica é importante se utilizada para mostrar quais as possibilidades de ser ou não ser humanos, nos estranhando, nos indagando ou nos deslumbrando, essa é a Arte que a Silvia Moura faz.

Se um dia o mundo for atingido por um meteoro, Silvia Moura certamente vai dançar sobre os escombros do mundo.

PS: ( Eu roubei as Fotinhas do face dela, não consegui achar as referências, se caso vocês tiverem eu faço gosto de colocar por aqui) 

Eu nunca entendi… A dança contemporânea.

Quando assisto um espetáculo de dança, antes de tudo, tento despregar meus olhos do meu cérebro, numa de tentativa de deixar de entender, sem julgamentos, sem pretensões, apenas permitir que os movimentos executados se pintem  no fundo das minhas retinas em uma série de imagens capturadas sem fim.

Buscar o entendimento no meio de um espetáculo sempre foi um dos caminhos mais inglórios, falo por mim, principalmente quando é um espetáculo de dança contemporânea, com seus fragmentos, com seus movimentos aparentemente desconexos, sua estrutura desconstruída.

Acredito que existe uma obsessão em extrair significados das coisas, alguém se arruma, se perfuma, sai de casa, compra um ingresso e entra em um teatro; esse alguém procura nesse teatro uma função, uma justificativa por ter investido tempo e dinheiro em um algo; esse alguém não suporta um espaço vazio, ou não suporta o modus operandi diferente do restante de seu corpo, que não é sua razão.

Para esse alguém, não basta ter cheiro, ter cor, ter movimento e som, as sensações, as emoções precisam por si só sistematizarem-se, pulando em caixas de significados, senão é perder tempo.

Não quero levar o mar dessa conversa para o não, então, em tom confessional, vou compartilhar como me sinto quando estou dentro de uma apresentação de dança, essa confissão parte do espetáculo Corpo Intruso, de João Paulo Lima com John Morais, música de Luciana Costa, assistido no Centro Cultural Dragão do Mar ao dia 08 de novembro de 2015.

Corpo Intruso
Imagem do espetáculo. Fotografia Luíz Alves

Ao nomear Corpo Intruso, Talvez o espetáculo nem tenha percebido que o maior intruso da arte é o espectador, digo, naturalmente se pensa que um espetáculo é feito para quem assiste, você imagina a/o coreografa/o criando cada movimento para os espectadores, em teoria, quando vejo uma bailarina num palco, parece que a vejo em um quarto, pode ser pelos efeitos mágicos da quarta parede, pode ser o fato inacreditável de alguém colocar vida no corpo que se move só pelo simples fato de existir um público.

Em contrapartida, não existindo o público existiria apresentação? a arte seria apenas um ensaio, o processo, não o fim, sem precisar do conceito, sem precisar construir uma sinopse, livre de todas as explicações, podendo conversar com o artista, do modo como eu imagino que seja toda a arte, uma conversa.

O Corpo Intruso, parece-me está falando disso, quando vejo um risco de luz no chão e dois corpos rolando para uma colisão certa, depois uma dispersão, é toda a minha experiência como público no meio de uma platéia. Ser platéia é meio isso, estar imerso, agonizando, deslumbrado com as nuances do corpo, do comportamento do corpo, e de repente lembrar-se da receita de frango que farei no outro dia,  depois voltar para o risco no chão, me mexer um pouco na cadeira, aguçar os ouvidos um pouco mais, escutar o poema, sentir, sentir, chorar, achar que está demorando, acho que foi rápido demais, ficar nessa encruzilhada de pensamentos atrapalhando os sentidos, se perder na forma, sobrepujar o conteúdo e no fim, gozar o gozo de ser público.

Porque é uma glória assistir uma dança, ninguém está imóvel dentro de um teatro, está todo mundo se movendo, eu me movi em cada centímetro do espetáculo, eu fui de encontro com o palco, eu dispersei, e no fim das contas, quando as luzes se acenderam e uma amiga confessou que não entendeu nada, pude responder por dentro

Eu também não.

E estou satisfeito por isso.