Eu nunca entendi… A romantização do ciúme

a romantização do ciúme

Nossas relações são permeadas por clichês do século XIX que teimam permanecer existindo. Mesmo com iphones, cromecast, ativbooks, leitores digitais, novas formas de conectar e estabelecer contatos, ainda vivemos imerso no antigo quando o assunto é relacionamento.

Um acontecido demonstrador disso e motivador dessa minha crônica foi quando estava navegando na timeline de uma de minhas rede sociais quando me deparo com o texto compartilhado por um dos meus amigos. O texto, uma espécie de manual de situações indicativas para você não estabelecer namoro com uma pessoa, entre elas um não namore com a pessoa caso você não sinta ciúmes da chefa/chefe gato/gata dele/dela.  O texto aparentemente fofinho, bonitinho, porém a mensagem muito problemática e negativa.

É preciso lembrar, relação sexual/afetiva entre chefe e subordinado em situação de trabalho é assédio moral/sexual (lógico que existem os poréns, mas nada me convence que há um aproveitamento de papéis de poder para coagir afetivamente uma pessoa). Mas, eu desejo chamar atenção para uma máxima/preceito nas nossas relações, o de só existir amor se existe ciúmes, assim, um sentimento muito devastador e destruidor como o ciúme ganha status positivo e benéfico.

Vou repetir, o ciúme é um sentimento negativo, devastador e destruidor, vide o que ele fez com  Otelo e Desdémona  na tragédia shakespeariana Otelo, mouro de Veneza. Isso para não citar os terríveis casos reais de violência motivados por esse sentimento.

Ciúme também pressupõe medo e posse, melhor, medo de perder a posse, quando você diz amar uma pessoa, contudo não suporta o fato de essa pessoa ficar indisponível para você em algum momento, ou se essa pessoa amada tem vontades e desejos que possam diferir das vontades e desejos estabelecidas por você, há algo errado, algo pendente de ser resolvido.

Um argumento bem recorrente é “ciúmes é normal”, a palavra normal por si só já vem sendo descontruída e combatida por um grande número de pessoas, e algo por ser normal não quer dizer que seja bom. Podemos ser mais atentos conosco e com as pessoas com as quais nos relacionamos, sem usar o argumento de que ciúme é sinal de que nos importamos. Esse se importa, entretanto não é com o outro, é conosco, com nossos medos e inseguranças.

Não estamos muito seguros na vida, estamos suspensos na existência e tudo gira de forma violenta, precisamos de garantias, lutamos por garantias, e se formos realistas uma relação nunca é uma garantia, o outro é um terreno movediço, o outro pode ter suas vontades modificadas drasticamente por fatores externos e internos, então seria um pouco mais inteligente e sincero, trabalhamos os medos e inseguranças nossos, do que a impermanência e a vontade da outrem.

Escrevendo é sempre mais fácil do que vivendo, esse texto não é um mandato de expulsão do ciúme das relações, não estou falando sobre isso, certas coisas são mais enraizadas e intrínsecas do que imaginamos. Esse texto é para questionar a romantização do ciúme, para quando ele surgir dentro de você, você possa se perguntar, “por que estou sentindo isso”? Seria importante deixar de sentir isso? Qual o medo ou insegurança que me levou a esse sentimento? E ele existindo como irei trabalhar até ele extinguir, ou caso seja realmente difícil extinguir como irei lidar com ele?

Enquanto as relações forem um terreno de posse, de medo, de perigo e de insegurança, o tal do amor nunca há de nascer verdadeiramente, pelo menos aquele amor que é um sinal de afeição e cuidado que despendemos para o outro, aquele amor mais pautado na alteridade do que no egoísmo, aquele amor mais do gozo e menos do presídio, em que decidimos por liberdade ser com a outrem, por um faixa de tempo, um dia, ou uma vida.