Eu nunca entendi… Anna K

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K desenhada pela Keka.

Estou escutando Marina Lima

O carnaval acabou, há muitas coisas por resolver

A casa está bagunçada

Tenho vontade de escrever sobre Anna K.

Ela tem um livro escondido, escrevia blogs, zines, e outros amuletos de papéis. Mesmo eu sendo um desses meninos novo, aceitou falar comigo. Quando olho dentro de seus olhos vejo sempre alguém procurando um lugar possível no mundo, igual a mim, um lugar onde possa ser amor, nada de muito, um lugar onde podemos armar uma rede.

Caso eu tivesse dezoito anos em dois mil e quatro, desejaria ser amigo dela, a gente sairia para uma festinha legal em Fortaleza, dançaríamos uma música da Marina Juntos, dividiríamos um táxi, pois é muito chato ter que andar no meio do sol quente, e a comodidade não é pecado.

Karine está morando no Crato, as pessoas dizem, como se a Maraponga fosse pequena  e não coubesse o Crato dentro. Minha amiga tá perto, sempre, sinto. Ela vai atravessar do Benfica à Maraponga cruzando a avenida Godofredo Maciel, e vou lá, saber como anda a sua vida, saber do que tem pesado e do que alegra, fazer mil e um projetos jamais executados, pois nosso amor gosta de criar projetos.

Bom é ficar rindo das besteiras juntos, ela é do rock e do pagode, uma dessas pessoas que todo mundo gosta de ter por perto. Sabe de algumas coisas da vida, tanto que escreveu certa vez “Capacete devia ser usado no peito”. Todo mundo queria usar essa frase, coisa de quem sabe que somos uma Fortaleza de Duna, imponentes, porém na iminência de ser soprada a qualquer momento para um outro lugar.

Minha amiga tem a sabedoria de quem não sabe como faz pra ficar rica, é uma garota muita esperta. Trocaria muita coisa por um Walkman com uma fita do Pato Fu. por uma tarde como essa, parida de urgências, de coisas por fazer que não fazemos, só pra ficar de pernas pra cima, escutando as últimas aventuras amorosas do Tailon.

Eu tenho um monte de novas aventuras para te contar, minha amiga, mas contar assim de perto, enquanto a Amy fica latindo, bagunçando a casa. Não tem como a gente se encontrar na internet, na internet posso no máximo enviar um coração exagerado pelo whattsApp, mesmo assim, não chega perto do tanto que eu a amo.

Anna K gosta muito de pregos e parafusos. Chega logo, por favor. Preciso saber de ti, a quantas anda, preciso que você me empreste aquele livro da discórdia, preciso saber o que faremos da nossa vida amanhã.

 

PS: Anna Karine Lima é uma escritora e produtora cultural, Mora no Crato e na Maraponga, irmã da Keka, ama ficar se balançando na rede, comer Brownie da Guiga, tomar café do seu Keko e conversar com o Gabriel.

 

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Meu coração é periferia

 

periferia

Os cientistas disseram, a certa altura da história da humanidade, que os sentimentos não são do coração e sim da cabeça, o cérebro os convocam. A gente aqui na periferia não acredita tanto assim nos cientista, somos mais da vida do que do método, por isso, quando queremos falar que a Dona Ritinha é uma mulher generosa, caridosa, de muitos amigos, dizemos Dona Ritinha tem o coração grande.

Pois é preciso tamanho, espaço, para dar conta de tanto caos, fora e dentro da gente. Você observe as coisas por cá, são casas desiguais, ruas desiguais, pessoas desiguais, gente que crer no Satã e gente que crer no Deus. Mulher rezando para Santa Edwiges, no intuito de diminuir nossas dívidas financeiras; muitas vezes a gente daqui já nasce devendo, umas dívidas que nem são tão nossas assim.

O restante da cidade morre de medo de pisar no nosso território, sendo o nosso território quase toda a cidade, e se funciona os shoppings, as plagas turísticas, tudo de luxo, ou o banal trânsito, funciona porque é nosso sangue fazendo girar a roda do cotidiano.

Não, senhores, não estou fazendo uma grande Ode ao meu povo sofrido, minha gente humilde pintada nos filmes, nas canções, nos livros tão bonitinhos da gente rica, afinal meu povo fede e cheira, igual todo o restante, a diferença é, não colocamos mais fedor ou mais cheiro, somos como somos, tão frágeis, vendados.

A cidade não nos pertence, tiram e botam quando e como querem, propriedade é uma mera ilusão nas nossas vidas, e mesmo assim somos iludidos a vida inteira no possuir. Minha mãe fala como uma reza, filho tem que ter seu carro, seu apartamento. Preciso explicar para minha mãe que nunca seremos donos de nada. Nada. Pelo menos das coisas sólidas.

Levou um bocado de tempo para compreender essas coisas, afinal, o que faço a vida inteira? ler os livros dos ricos, assistir o filme dos ricos, vestir as roupas dos ricos, comer a comida dos ricos, ou melhor a sobra de tudo isso dos ricos. Eles precisam criam distinções, deles para conosco, entre nós. Eles precisam, em sua estratégia, nos fazer entender que de acordo com nosso merecimento existe o que deve morar na beirada,  e o que deve morar na rua do esgoto.

Sim, eu os odeio, apesar de a vida inteira ter sido ensinado a amar meus carrasco, a admirá-lo, almejar sua posição. Mas não quero aqui despojar as vestes dos bossais, eu estou aqui para falar do meu coração

O meu coração, uma periferia, todo entramelado de postes, meu coração sem arquitetura, meu coração cozido nas ruas, meu coração cheio de amor autêntico e de amizades improváveis, afinal, se é periférico, é pouco provável que consiga existir, e caso consiga, respirar, caso respire, vingar, caso vingue, entender, caso entenda, amar o que se é. Os que entendem partem, fogem de si, para a possibilidade de compor um grande meio do quase, quase centro, quase periférico.

Meu coração não é quase, meu coração é derramado na existência que lhe fadaram, meu coração anda nas ruas, com medo de ser morto por seus iguais, meu coração acorda cedo, meu coração compra sapato novo no fim do ano, chama os amigos para comemorar a tão pouco comemorável existência.

Se nos fizeram existir assim desde sempre, nos dividiram para poder existirem, deixo registrado, não ficarei no meio, assumo meu partido, minha existência de ser eternamente um coração periférico,  cheio de mistérios e de falta de método, colorido, construído do jeito que dá, nunca pronto, nunca ponto.