Eu nunca entendi… O anonimato dos afetos escondidos

Preparo uma playlist antes de sair na minha corrida de quase todos os dias, na maioria das vezes são músicas brasileiras, gosto de caminhar ao som de fonema reconhecíveis, vou repetindo a letra. Durante esse hora do dia em que correr se torna uma atividade não só de saúde, também de reflexão. Fico pensando na morte da bezerra, e na vida dos bezerros, esses balindo, sem permitir meu sono.

Minha vida cheia de bezerros e muriçocas para atrapalhar o sono.

Mas o assunto é outro. Tenho duas mães, tão diferente uma da outra. Cresci com as duas, das duas absorvi características, gosto de estar em casa, igual a dona Maria José, mas adoro  ter monte de gente em casa fazendo coro, idem a dona Rita de Cássia.

Uma é fogo, outra é água.

Minha mãe água, acredita numa vida secreta, acontece aqui, morre aqui, ela repete sempre, a educação através das máximas. Minha mãe fogo não discorda desse refrão, essa concordância entre as duas, vem de minha Vó, da vó de minha vó.

Eu tinha que escolher ser escritor no meio disso tudo? Mais grave, tinha decidir de ser poeta? Expor todos os acontecimentos de dentro e de fora nas letras desses poemas que componho, pois não falo senão daquilo que sou e que me forma, e o que me forma é apenas espelho onde me vejo e duplico-me. Não falo do bairro que não sou nos poemas, não vou conseguir ser um exímio ficcionista, no máximo um bom contador de histórias, mentirosos a contar a realidade disfarçada de fantástico, contadores de si na mágica poesia do impossível.

Como vês não fiz-me nascido para esconder-me nessa discrição higienizada ensinada todos os dias. Ame, só não diga quem ama, quem diz que ama se demonstra fraco, e o outro gosta de dominação e mistério. Fale, só não diga tudo, há o conhecimento só seu, não partilhe, vai lhe desvalorizar caso você mostre o como faz de tudo que sabes. Cante, não no meio da rua. Pule, só não tão alto. Seja, não muito. Permita-se, não tanto.

Eu não consigo, se o caso é cantar, canto em todos os cantos, pulo todas as alturas, mostro tudo que aprendo, e quando amo, quando amo quero pintar em todas as paredes a figura desse menino que me perturbas. Todas as bocas serão para dizer seu nome, todos os sabores é de lembrar os da sua pele onde escorre tão bem o Sol e a Neblina.

Os afetos saltam, não sei como os escondam, do mesmo modo não sei como os disfarce, está escrito na minha face, meu olhos brilham quando cruzo no meio da rua com qualquer uma dessas criaturas lindas de Fortaleza, ou de qualquer um dos lugares de gente apaixonante.

Uma vez, mãe levou minha irmã e eu para a micareta fora de hora da cidade, lá, pela primeira vez na minha vida eu vi duas pessoas do mesmo sexo se beijando, ela disse olha ali Talles duas mulheres se beijando, parecia uma surpresa para minha irmã e para minha mãe,  eu só enxergava duas mulheres se beijando, nada além disso, nada além da paixão contida na cena.

Eu beijo no meio da multidão, eu pego na mão. Quando amo até as pedras da rua sabem. Não entendo o anonimato dos afetos escondidos que o Deus da música da Amelinha criou. Sou transparente, a luz passa por de dentro de mim num átimo de segundo, não se demora.

 

 

 

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