Eu nunca entendi… O único jeito de comemorar

Esse texto foi escrito antes de muitas garrafas de champanhe serem estouradas, antes do céu ser colorido por fogos de artifícios, antes de sete ondas salteadas, antes de lentilhas sorvidas, antes de amigos, famílias, se abraçarem, antes de muitos amantes darem seu primeiro beijo do ano, acompanhado do primeiro eu te amo.

Esse texto, não é uma confissão de solidão, não o faço para dizer do meu modo recluso de esperar a ilusão mágica de um ano novo. Não farei dele uma loa contra ou a favor.

Esse texto existe simplesmente para explicar, por isso é curto, as explicações longas são um pouco enfadonhas, nem toda gente as acolhe de bom grado, por isso meto mão de fazer uma curtinha, assim, como curto é o segundo que separa um ano do outro.

Daqui, da minha casa, farei uma festa silenciosa, estarei em comemoração, lembrarei dos muitos amigos, dos familiares, dos amores. Serei feliz sozinho nessa festa pessoal.

Afinal, não é porque me furto de uma festa coletiva hoje, que me furto da celebração, minha vida é toda uma comemoração. Quando cozinho para alguém, quando escrevo um poema, quando me enlaço num abraço, quando mando a mensagem dizendo saudades, quando cruzo com a moça que rega as plantas todos os dias no meu condomínio e a ofereço o bom dia mais solar que posso oferecer a uma pessoa, pois sou-lhe eternamente grato dela oferecer seu tempo em cuidado para as plantinhas.

Não sou triste, não estou cansado, só fiz essa escolha. É mais fácil de entende-la, do que o desamor das massas. Minha festa tranquila tal qual os lagos isolados de água paradas, aparentemente sem agito, porém cheios de vida e de mistérios.

Desejo o mistério, a verdade, a paixão, o merecimento e o contentamento para todas que hoje estão comemorando essa passagem de ano, em sua diversas formas, em famílias imensas, em pares apaixonados, ou nos silêncio de quartos, casas, apartamentos.

Daqui também lembrarei os que estão impedidos de comemorar, por suas diversas desventuras, em determinada hora, pensarei poesias de conforto, e desejarei para essas e esses, alento em vossos corações.

Aqui, na tranquilidade, escutando a festa lá de fora, sabendo que há muito festa aqui dentro.

 

 

Eu nunca entendi… O anonimato dos afetos escondidos

Preparo uma playlist antes de sair na minha corrida de quase todos os dias, na maioria das vezes são músicas brasileiras, gosto de caminhar ao som de fonema reconhecíveis, vou repetindo a letra. Durante esse hora do dia em que correr se torna uma atividade não só de saúde, também de reflexão. Fico pensando na morte da bezerra, e na vida dos bezerros, esses balindo, sem permitir meu sono.

Minha vida cheia de bezerros e muriçocas para atrapalhar o sono.

Mas o assunto é outro. Tenho duas mães, tão diferente uma da outra. Cresci com as duas, das duas absorvi características, gosto de estar em casa, igual a dona Maria José, mas adoro  ter monte de gente em casa fazendo coro, idem a dona Rita de Cássia.

Uma é fogo, outra é água.

Minha mãe água, acredita numa vida secreta, acontece aqui, morre aqui, ela repete sempre, a educação através das máximas. Minha mãe fogo não discorda desse refrão, essa concordância entre as duas, vem de minha Vó, da vó de minha vó.

Eu tinha que escolher ser escritor no meio disso tudo? Mais grave, tinha decidir de ser poeta? Expor todos os acontecimentos de dentro e de fora nas letras desses poemas que componho, pois não falo senão daquilo que sou e que me forma, e o que me forma é apenas espelho onde me vejo e duplico-me. Não falo do bairro que não sou nos poemas, não vou conseguir ser um exímio ficcionista, no máximo um bom contador de histórias, mentirosos a contar a realidade disfarçada de fantástico, contadores de si na mágica poesia do impossível.

Como vês não fiz-me nascido para esconder-me nessa discrição higienizada ensinada todos os dias. Ame, só não diga quem ama, quem diz que ama se demonstra fraco, e o outro gosta de dominação e mistério. Fale, só não diga tudo, há o conhecimento só seu, não partilhe, vai lhe desvalorizar caso você mostre o como faz de tudo que sabes. Cante, não no meio da rua. Pule, só não tão alto. Seja, não muito. Permita-se, não tanto.

Eu não consigo, se o caso é cantar, canto em todos os cantos, pulo todas as alturas, mostro tudo que aprendo, e quando amo, quando amo quero pintar em todas as paredes a figura desse menino que me perturbas. Todas as bocas serão para dizer seu nome, todos os sabores é de lembrar os da sua pele onde escorre tão bem o Sol e a Neblina.

Os afetos saltam, não sei como os escondam, do mesmo modo não sei como os disfarce, está escrito na minha face, meu olhos brilham quando cruzo no meio da rua com qualquer uma dessas criaturas lindas de Fortaleza, ou de qualquer um dos lugares de gente apaixonante.

Uma vez, mãe levou minha irmã e eu para a micareta fora de hora da cidade, lá, pela primeira vez na minha vida eu vi duas pessoas do mesmo sexo se beijando, ela disse olha ali Talles duas mulheres se beijando, parecia uma surpresa para minha irmã e para minha mãe,  eu só enxergava duas mulheres se beijando, nada além disso, nada além da paixão contida na cena.

Eu beijo no meio da multidão, eu pego na mão. Quando amo até as pedras da rua sabem. Não entendo o anonimato dos afetos escondidos que o Deus da música da Amelinha criou. Sou transparente, a luz passa por de dentro de mim num átimo de segundo, não se demora.

 

 

 

Eu nunca entendi… O encantado universo das pessoas que cozinham

cozinhar.jpgO mundo estourando lá fora, a polícia sendo polícia, assassinando gente pobre, negra. ameaças em forma de farsa vêm de Brasília, um levante de meninas e meninos resistem aos efeitos do governador absolutista em São Paulo. Lama tóxica do Capital assolam nossas praias, África devastada, Oriente de conflitos forjados por países imperialistas, esses países origem de muitos males, conhecidos nossos de longa data. “Quanta matéria pros Jornais”.

O mundo desmorona, de algum modo eu desmorono junto. Não que esse cair eterno do mundo seja alguma espécie de novidade, toda a história do mundo vida dos livros é uma história sobre desmoronamentos. Quase nunca recebemos as noticias de certa pessoa, em certo lugar, fazendo certo ato de candura. A felicidade nossa não é registrada nos jornais, tampouco nos livros de histórias.

E há o encantado mundo dentro desse mundo desencantado, um mundo inteiro composto por pessoa que agoam plantinhas de manhã, juntam o cisco das calçadas, lembra de alguém e liga para contar da sua saudade, de pessoas mágicas que sabem cozinhar.

São poderes adquiridos durante a vida, joga tudo dentro duma vasilha, bate, mexe, deixa descansar, cresce, assa, torra, cozinha, nasce um bolo, uma torta, arroz com feijão, macarrão passado.

Sou capaz de contar minha história através das pessoas cozinheiras de minha vida. Dona Frasquinha fazia cuscuz todos os dias para almoço, a Elisângela e seu Antônio só comiam se fosse assim, eu envergonhadamente queria sempre participar desse almoço. A maria Isabel da minha vó, ela cozinhava em uma panela bem grande, por sermos um número grande de pessoas  zanzando pra cima e pra baixo na casa da rua Francisco Glicério, sobrava nada, acabava rápido.

O sabor da semana santa, milho, mugunzá. O bolinho de arroz de minha mãe, uma receita simples, mas que enche nossa casa de alegria quando ela resolver fazer, ela só faz de veneta nem adianta implorar. Sem falar no aspecto e sabor único de um simples macarrão passado só alcançados por minha mãe. Já tentei imitar as duas receitas, não sai do mesmo modo, coisa de mistério. É a mão.

Essas mãos tão peculiares, que temperos energéticos elas emanam, alquimistas culinários, dotados de poderes extraordinários. Queria saber escrever poemas que tivessem o gosto do bolinho de arroz ou do macarrão passado da minha mãe.

Ando me arriscando, algum tempo invento de me aventurar pela cozinha. Faço bolos, sucos, chás, arroz, coisinhas mais sofisticadas, outras bem simples. Descobri que quem cozinha o faz para o outro, a gente precisa praticar mais esse tipo de arte cultivadoras do bel prazer da(o) outra(o), é humanizador. Afinal, quando escrevo um poema o escrevo para mim, quando faço comida não é só por mim, não tem o mesmo sabor cozinhar solitário, quando cozinho é para alguém.

Ah! não precisa economizar elogios, pode dizer se ficou bom, eu gosto, toda gente da cozinha adora receber um elogio.

Bateu uma tristezinha devido a esse mundo bad em constante desmoronamento, junto as amigas, a família em volta da cozinha, deixa que por lá acontece uma mágica e depois de uma longa tarde tudo muda.

Eu sei, no entanto, muitas pessoas ainda não tem acesso ao mínimo da vida, tem gente que não come todos os dias. Por isso não dá pra parar as lutas, o lance é, caminhado, cantando, cozinhando e lutando.

Até o nosso próximo já, é só vir me visitar, eu faço aquele cuscuz.