Eu nunca entendi… Como a Literatura ainda sendo elitista pode funcionar como ferramenta de libertação

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A Literatura é elitista? a Literatura pode ser uma ferramenta de libertação ou empoderamento?

Alguns acontecimentos nos últimos dias, melhor dizendo nos últimos anos têm jogado-me diante dessas questões diversas vezes. Tento buscar respostas para essas perguntas e compartilha com os alunos de escola que participam de um grande projeto de Literatura promovido pelo SESC-CE do qual eu sou mediador. Também já tentei responder essas perguntas em algumas falas em eventos literários. Já pensei e conversei sobre o assunto com os artistas que ocuparam a Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) em um ato histórico para nossa cidade.

Devo entender a priori que a Literatura, como todas as outras formas de arte é um discurso. Um discurso sempre parte de algum lugar, esse lugar está inserido dentro de alguma ideologia, de modo que não há arte desinteressada ou literatura desinteressada. Esse ponto é crucial para o desenvolvimento do meu pensamento, já que o romantismo nos legou a crença da Arte pela Arte, fazendo-nos em alguns determinados momentos acreditar em apenas um dos preceitos Horacianos o deleitar, riscando o instruir das funções da arte.

Essa é uma visão de muitos, a arte literária, principalmente a poética, não teria ou exerceria função alguma, logo estaria isenta de qualquer obrigação a não ser a de existir por si mesmo, o que a enquadraria facilmente dentro da doutrina da arte pela arte.

Esses preceitos podem parecer inocentes, mas se usarmos de franqueza e observação eles de inocentes possuem quase nada. A Literatura, ainda é elitista, embora, e falaremos disso um pouco mais adiante, tenha sido positivamente subvertida.

Para ajudar a pensar esse texto, disponibilizei a problematização dessa discussão na página do blog. Um dos pontos questionados foi de que a Literatura não era mais elitista. Será? Quem ainda são os principais produtores e comentadores da literatura  no mundo? Homem, branco, quase média para alta. Esse é o perfil de editora, prêmios, eventos. Não que seja uma hegemonia, o quadro tem se modificado muito, mas se for para pegarmos por exemplo um país como o Brasil, só a pouquíssimo tempo houve uma espécie de cotização de escritores por região para participar de eventos internacionais patrocinados pelo Ministério da Cultura, e se percebermos bem o perfil para quais o Ministério oferece reconhecimento, a ideia de uma literatura Elitista ainda é bem presente.

Entretanto, ela não é mais apenas isso, tornou-se um multiverso, de muitas vozes, vozes que conquistam e desconstroem o estabelecido há muitos anos, utilizando-se de alternativas várias, hoje de ferramentas como editoras independentes e o mundo anárquico e delicioso da internet.

O grandes sustentáculos da literatura, é a Educação, o Estado e Mídia, com visões deveras elitistas, enquanto esses forem os sustentáculos dessa arte, seu viés elite ainda permanecerá forte e bem sustentado.

Como não ser/permanecer nessas condições? ou para que ou quem devemos atuar na desconstrução elitista ou na construção de uma outra literatura emancipadora? quem fará isso?

Olhando ao redor quase nunca tenho os escritores envolvidos em pensar nesse assunto, inclusive participar é algo que vejo pouco das minhas colegas escritoras e escritores. Falo com muito pesar, sem orgulho algum dessa realidade. Tanto que posso colocar-me em um tremendo engodo ao partilhar isso, mas de todas e todos partícipes do sistema literário os mais libertadores e revolucionários são os leitores.

Certo que os atores desse sistema, editoras, escritores, mediadoras, livreiros, estão inserido em um coexistência, mas parece-me que é no leitor, que os efeitos de múltiplas visões instauradas pela literatura se consolidam, o universo do leitor que ao ler Kafka enfrenta sua própria existência, ou ao ler Carolina de Jesus percebe seu estar no mundo, libertando-se de si próprio e das fronteiras que o rodeiam.

E deveriam todos esses agentes que compõem a cadeia da literatura ser também leitores e participar desses efeitos? Sim, deveriam, mas parece que algo em suas posições de privilégio atrapalha um pouco suas ações.

Tecidas as problematizações e considerações, partamos para tentar resolver a questão principal proposta. Nesse contexto, cabe lembrar que a literatura antes de discurso é linguagem, sendo linguagem é um oceano de possibilidades, é também construção e desconstrução da realidades. Ter esse conhecimento é um dos passos principais para pensar uma uma literatura libertadora.

A literatura também proporciona ao ser um enfrentamento constante com suas realidades, próximas ou distante, assim,ela contribui para o atravessamento da densa floresta da existência. Talvez não responda se o diabo existe ou não, mas nos coloca a pergunta a todos os instantes.

A literatura também é uma forma de poder, devemos nos apropriar, ocupar, conhecer as ferramentas de poder, para decidir participar ou não, aumenta-lo ou desconstruir. Saber de onde vem as balas que disparam contra nossa vida.

Outra possibilidade emancipadora da literatura é seu poder de construir novos mitos, destruir os antigo. Não pensemos que o existente, o grandioso é intocável, muitas escritoras e escritores tiveram a ousadia de mexer no intocável, lançando-o ao chão. Quebremos nossos cânones todos os dias, não há modificação na inércia, a literatura pode nos proporcionar força motriz para criação e destruição.

A literatura também estabelece identidades, lembra que Alemanha no romantismo utilizou esse poder da literatura para colaborar na construção do que é ser alemão. Usemos então para a construção ou desconstrução de nossas identidades.

Por ser um mediador de leituras, avisto infinitas possibilidades, porém minha inquietação não se assenta no fundo de um lago, sei bem o que a literatura representou e representa durantes todos esses anos, sei também em como ela tem sido apropriada e utilizada contra a dominação que um dia ela foi responsável de propagar.

Literatura é possibilidade, é matéria de vida transformada em linguagem, digo isso para mim mesmo todos os dias, dentro dessa perspectiva eu quero continuar navegando.

 

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