Eu nunca entendi… O coração ausente de amor por Fortaleza

Renan Matos Magalhães Fotografia
Foto de Renan Matos Magalhães que assina a Página Fortaleza Monocromática 

Peguei carona com Lia Sanders, romancista que acabamos de publicar pela Editora Substânsia, ela iria me deixar em uma determinada livraria do bairro Aldeota. No percurso comentava meu dissabor pelo bairro, o isolamento e a antipatia de parte de sua população, o que ela tratou de desconstruir, colocando pontos interessantes e o paradoxo no qual o bairro do meu desgosto foi construído, desde então comecei a pensar diferente.

Não tardou e a conversa ganhou um tema mais amplo, falávamos sobre a cidade, principalmente falávamos sobre a falta de apreço de muitas e muitos por Fortaleza, escuto constantemente sobre querer ir embora, que é insuportável estar/viver aqui. A escritora lança “as pessoas não entendem que elas são a cidade”. Passamos um tempo comentando o que pode ser doce e o que pode ser amargo nessa invenção chamada Fortaleza.

Desde então tenho ruminado, pensar locais é algo que gosto muito de fazer, quando minha poesia não está mergulhada no subjetivo das relações, ela está versando sobre os territórios, os que avisto no meu percurso andarilho pelo país, e principalmente os territórios que me circundam e me formam, a Maraponga, o Curió, o Benfica. Os dois primeiros distantes do centro, periferias que tantas vezes não figuram no imaginário coletivo como pertencentes à cidade.

Eis que me faço indagante e indagado, qual cidade é possível ou impossível para ser amada ou não? Busquei na memória as principais pessoas conhecidas que gostam de pensar o assunto, Fernanda Meireles e seu cidade Solar, todo papo que troco com ela é oportunidade de reinventar Fortaleza dentro de mim, Júlio Lira e seu Percursos Urbanos, Programa vital para ver/ouvir/sentir/viver a cidade inteira, livre das fragmentação ou polarização centro/periferia. O Júlio, junto com o Percursos Urbanos deveriam ser uma política pública diária, afinal eles são responsáveis, sou lhes grato por isso, de apresentar Fortaleza aos fortalezenses.

Outras pessoas entraram na minha recordação, são muitas, ainda bem, porém diante o refluxo de apatia se fazem poucas, necessitamos multiplicar essas e esses encantadores da cidade.

A cidade é um discurso, tem muito mais a ver com o que dizem sobre ela do que com o que ela realmente é. A existência toda é inventada na palavra, não se pode negar o magnífico, o grandioso? Com o discurso pode, sabe a música do Caetano “O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara: Pareceulhe uma boca banguela.” Então um lugar não é só mar, montanha, pedra, concreto e tijolo, um lugar é, mar e palavra, montanha e palavra, pedra e palavra, tijolo e palavra.

Quando um coração estar seco de amor por uma cidade, na verdade ele está seco de narrativas também, não é só questão de imagem, é imagem e poema. Isso é um problema político e social, quem não ama um local, não há de querer muito contribuir para esse determinado local, ou seja voltamos para o início do texto, as pessoas são a cidade, assim ela se integra ou desintegra de acordo com a vontade das pessoas que a habitam, que a narram, que a inventam.

Tenho muitas narrativas sobre o bairro que nasci, tanto que escrevemos um blog, eu e a artista Jéssica Gabrielle, o Amaraponga. Tenho narrativas também sobre as noites de sexta pelas ruas do Benfica, ou o pôr do sol da Barra do Ceará, visto do CUCA da Barra é impressionante, tenho narrativas sobres os campinhos do Curió, ou as tardes caiadas de luz no Conjunto Ceará, tenho histórias sobre o centro da cidade, sobre o José Walter e agora estou tecendo narrativas dentro de mim sobre o Damas.

É um comprometimento poético tão grande por esse lugar que não é possível ser indiferente, eu faço parte disso tudo, estou inserido, sou um conjunto em interseção com a cidade. Pode as outras pessoas não a amarem, eu aceito essa ausência e conheço todos os problemas de viver aqui, mas entender, nunca entendi.

Advertisements

2 thoughts on “Eu nunca entendi… O coração ausente de amor por Fortaleza

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s