Eu nunca entendi… A Chacina e a Norma

NÃO DEU CERTO

Eu sou estudante de letras e nunca entendi  por que a quebra da Norma Padrão incomodar tanto.

Eu sou jovem, negro, vindo da periferia e nunca entendi por que o extermínio da população jovem, negra, pobre incomodar tão pouco.

Quando uma notícia relativa a linguagem repercute bem mais que uma noticia relativa a chacina de pessoas da periferia, alguma coisas tem de muito errada, e não é apenas um  “á”.

Explico, ontem duas notícias me chegaram de formas diferentes, a primeira, artistas urbanos de Fortaleza resolveram fazer um pequeno arranjo ortográfico em uma intervenção espalhada por quase toda a cidade, algo simples, porém milhares de compartilhamentos e comentários na minha timeline dizendo: ainda bem, morria de agonia, até que enfim, ufaaaa. O Rearranjo se referia a modificação do stencil “Vai dá certo´´, fora da norma culta para o padrão da norma culta “Vai dar certo´´.

Segunda notícia, minha mãe, moradora do Curió, bairro onde vivi quase três anos, liga apavorada dizendo que homens misteriosos com armamento pesado, entraram no bairro distribuindo tiros gratuitamente contra a população, matando alguns jovens, atingindo pessoas que resolviam prestar assistência aos feridos, provocando um verdadeiro terror. Minha mãe pediu para não ir lá, ficou muito preocupada com toda a situação. Esse acontecimento no Curió aconteceu logo após o assassinato de um policial.

Fui em busca de notícias sobre o que estava acontecendo no bairro, demorou um tempo para que as agências de notícia da cidade de Fortaleza começassem a compartilhar os acontecimentos, enquanto isso a patrulha da Norma culta batia suas panelas nas redes sociais em uma comemoração sem lógica, afinal era um stencil, não o discuso de posse na acadêmia brasileira de letras.

Fiquei pensando cá com os meus botões,  facilmente poderia ser eu um desses garotos assassinados, poderia ser o meu melhor amigo também, na vida assistimos a morte de muito dos nossos colegas de infância, não fizemos parte da estatística sombria porque tanto eu, quanto meu melhor amigo sempre tivemos interesse sobre o mundo da informação, sempre quisemos estudar, nos formar, conhecer outros lugares e perspectivas, por uma questão de sorte, quem engendrar aqui a palavra mérito é um cínico e não sabe nada, nada sobre a vida, a nossa vida de criança e jovem da periferia.

A educação pode ter sido transformadora no meu caso, no caso de meu melhor amigo e no caso de muitas amigas e conhecidos meus , também pobres, também negros, também vindos da periferia, contudo essa educação não DEU muito certo.

Essa educação está ainda muito distante de ser uma educação pela vida, pela dignidade, pelos direitos das mulheres, pelo respeito aos corpos, pela emancipação, pelo fim das desigualdades, pela diluição dos preconceitos, até mesmo porque, pasmem diante desse paradoxo, essa educação formal recebida nas escolas e universidades é uma das principais alimentadoras das diferenças.

Dentro da universidades Federal do Ceará, um das disciplinas mais úteis e interessantes da minha vida foi a de Sociolinguística, por causa dela, certo dia na aula de Latim, o professor só faltou me engolir com um discurso moralizante, eu percebia como a universidade não tinha nexo.

Porém, não desanimo, também chega aos meus ouvidos notícias de estudantes paulistas ocupando escolas contra a opressão de um governo liberal e assassino, notícias de estudantes organizando movimentos pelos direitos das mulheres, estudantes transformando suas realidades locais, estudantes que fazem da informação poder de transformação não discurso alienante, isso sempre me enche de orgulho e esperança, nessas horas eu paro e penso em voz alta.

Vai dá certo.

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