Eu nunca entendi… A Silvia Moura

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Diálogos imaginários possíveis-prováveis:

– Você sabe o que é uma artista?
– Sei, eu conheço a Silvia Moura.
———————————-
– Talles, você esteve em São Paulo e não viu a Abramovic?
– Verdade, mas eu sempre vejo a Silvia Moura em Fortaleza, então não faz falta.

(Avisei para Silvia que escreveria sobre ela, disse que o nome da postagem seria Eu nunca entendi… A Silvia Moura, ela relutou, disse que eu a entendi muito, então antes do desenvolvimento do texto deixo claro para Silvia e as leitoras e leitores dessa folha que voa, quando afirmo que não entendo, é porque o objeto do qual eu falo nunca se mostra completamente, pois seus prismas de significados são tão infinitos que o objeto discorrido nunca será apreendido em sua totalidade)

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Eu sabia de sua existência, quando nasci ela já estava dançando, algumas pessoas apontavam-na na rua e dizia, “olha ali, é a Silvia Moura”, pessoas desse tipo me assustam, pois ganham uma responsabilidade injusta de me surpreender, mesmo sem terem nada a ver comigo, quando acontece de não cumprirem o que espero sinto-me traído e decepcionado. Por isso vou adiando o livro, o espetáculo, as pessoas super recomendadas, por um medo letal da decepção. Sei que isso é injusto, não deveria alimentar dentro de mim esse jardim de expectativas, mas acontece, tem áreas  do nosso ser que demoramos anos e anos para obter o controle, na época eu não mantinha controle algum sobre esse setor da minha existência.

Mesmo assim fui assistir o Anatomia das coisas encalhadas, numa tarde linda e a apresentação era em um dos locais que mais amava em Fortaleza, o CCBNB na Floriano Peixoto.  Sentei ali pelo chão, lentamente fui entrando na cosmogonia das coisas amontoadas, de carteiras de cigarros, fones de ouvidos e caixas, muitas caixas, caixas que cabiam algumas das pessoas da platéia; fiquei atento, os movimentos e as palavras existiam juntas, meus olhos não poderiam olhar outra coisa naquela tarde, meus ouvidos não poderiam escutar outra coisa, entrei em estado do sublime, para um dos estágios que a boa arte causa em nosso corpo, um êxtase mais prazeroso do que o religioso, pois é só prazer, sem culpa.

Quando tudo acabou escrevi um poema, hoje não sei onde anda esse poema, porém recordo nele uma espécie de profecia de muitos outros encontros da minha pessoa com a obra de Silvia. Assisti depois A Cadeirinha e Eu, Vestida de Luz, A Beira De…  Além de muitos momentos que acabei esbarrando com a Silvia por aí, sua fala forte, cheia de geniosidade, algumas vezes de encontro contra minha fala e minha opinião. Contudo, se divergíamos em opiniões políticas em alguns espaços dentro da cidade, quando o assunto é, ela no Palco e eu na Platéia, só dou graças por poder ver uma artista em Cena e ter o prometido Deleite Horaciano de uma obra de arte.

Pelo desdobra do tempo, acabei acompanhando Silvia além do Palco, nas redes sociais, observando que além da fala ela produzia uma escrita, tão orgânica e caótica como a sua arte cênica. Intrigou-me tanto sua poética palavra que a convidei para publicar um livro pela minha editora, assim comecei a conhecer seu outro lado. Silvia Leitora, Silvia Poeta, Silvia Escritora, Silvia que gosta de passar a tarde sentada tomando café e costurando prosa.

Eu tenho um livro dela, um livro no qual fui uma espécie de parteiro. Quando você for assistir ou Ler Silvia Moura, saiba que vai se deparar com uma mulher complexa, cheia de anseios infintos, indignações latentes, contradições, uma mulher que grita dançando, escrevendo, bordando, cozinhado, a obra da Silvia pode ser qualquer coisa menos pacífica. Prepare-se para o impacto, ela incomoda bastante. Incomoda pois tem uma coragem de mostrar, entretanto ela não mostra de qualquer maneira.

Acumulando anos e anos de técnica, uma vida incessante de formações e participação ativa na vida cultural, Silvia coloca no mundo a palavra agônica, o passo certeiro, o traço necessário.  Falar todas as coisas que falo dessa mulher pode ser contaminado pela admiração, entretanto meus olhos são sinceros. Até hoje, quando encontro com Silvia, sempre requisitada, sempre rodeada de gente querendo sua atenção, sua presença, seu toque, suas piadas bem colocas, eu gosto de abraça-la e agradecer por compartilhar sua arte conosco.

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Gosto de pensar uma arte que só é possível por causa da vida e das trajetórias individuais, uma arte da poesia de vida, técnica é importante se utilizada para mostrar quais as possibilidades de ser ou não ser humanos, nos estranhando, nos indagando ou nos deslumbrando, essa é a Arte que a Silvia Moura faz.

Se um dia o mundo for atingido por um meteoro, Silvia Moura certamente vai dançar sobre os escombros do mundo.

PS: ( Eu roubei as Fotinhas do face dela, não consegui achar as referências, se caso vocês tiverem eu faço gosto de colocar por aqui) 

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