Eu nunca entendi… A dança contemporânea.

Quando assisto um espetáculo de dança, antes de tudo, tento despregar meus olhos do meu cérebro, numa de tentativa de deixar de entender, sem julgamentos, sem pretensões, apenas permitir que os movimentos executados se pintem  no fundo das minhas retinas em uma série de imagens capturadas sem fim.

Buscar o entendimento no meio de um espetáculo sempre foi um dos caminhos mais inglórios, falo por mim, principalmente quando é um espetáculo de dança contemporânea, com seus fragmentos, com seus movimentos aparentemente desconexos, sua estrutura desconstruída.

Acredito que existe uma obsessão em extrair significados das coisas, alguém se arruma, se perfuma, sai de casa, compra um ingresso e entra em um teatro; esse alguém procura nesse teatro uma função, uma justificativa por ter investido tempo e dinheiro em um algo; esse alguém não suporta um espaço vazio, ou não suporta o modus operandi diferente do restante de seu corpo, que não é sua razão.

Para esse alguém, não basta ter cheiro, ter cor, ter movimento e som, as sensações, as emoções precisam por si só sistematizarem-se, pulando em caixas de significados, senão é perder tempo.

Não quero levar o mar dessa conversa para o não, então, em tom confessional, vou compartilhar como me sinto quando estou dentro de uma apresentação de dança, essa confissão parte do espetáculo Corpo Intruso, de João Paulo Lima com John Morais, música de Luciana Costa, assistido no Centro Cultural Dragão do Mar ao dia 08 de novembro de 2015.

Corpo Intruso
Imagem do espetáculo. Fotografia Luíz Alves

Ao nomear Corpo Intruso, Talvez o espetáculo nem tenha percebido que o maior intruso da arte é o espectador, digo, naturalmente se pensa que um espetáculo é feito para quem assiste, você imagina a/o coreografa/o criando cada movimento para os espectadores, em teoria, quando vejo uma bailarina num palco, parece que a vejo em um quarto, pode ser pelos efeitos mágicos da quarta parede, pode ser o fato inacreditável de alguém colocar vida no corpo que se move só pelo simples fato de existir um público.

Em contrapartida, não existindo o público existiria apresentação? a arte seria apenas um ensaio, o processo, não o fim, sem precisar do conceito, sem precisar construir uma sinopse, livre de todas as explicações, podendo conversar com o artista, do modo como eu imagino que seja toda a arte, uma conversa.

O Corpo Intruso, parece-me está falando disso, quando vejo um risco de luz no chão e dois corpos rolando para uma colisão certa, depois uma dispersão, é toda a minha experiência como público no meio de uma platéia. Ser platéia é meio isso, estar imerso, agonizando, deslumbrado com as nuances do corpo, do comportamento do corpo, e de repente lembrar-se da receita de frango que farei no outro dia,  depois voltar para o risco no chão, me mexer um pouco na cadeira, aguçar os ouvidos um pouco mais, escutar o poema, sentir, sentir, chorar, achar que está demorando, acho que foi rápido demais, ficar nessa encruzilhada de pensamentos atrapalhando os sentidos, se perder na forma, sobrepujar o conteúdo e no fim, gozar o gozo de ser público.

Porque é uma glória assistir uma dança, ninguém está imóvel dentro de um teatro, está todo mundo se movendo, eu me movi em cada centímetro do espetáculo, eu fui de encontro com o palco, eu dispersei, e no fim das contas, quando as luzes se acenderam e uma amiga confessou que não entendeu nada, pude responder por dentro

Eu também não.

E estou satisfeito por isso.

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