Eu nunca entendi…Quando inventei de escrever poemas

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Quando contamos nossa história de vida vamos editando os acontecimentos, é como num cinema, você observa os quadros do filme, corta os desnecessários, os constrangedores, depois vai colando as ponta; Cria-se uma narrativa de si compartilhável, agradável às imaginações dos outros.

Por receber muitos convites para falar em eventos, ou em salas de aula, sobre a poesia, parto sempre dessa história, fica mais empático, os conceitos abstratos não são tão interessantes, a história cria vínculos e entre os acontecimentos você vai por ir pincelando os conceitos,  tornando a fala mais interessante.

Devido a essa atividade constante de me contar, tento ir rememorando os fatos, perceber o que estou editando, faço constantemente a pergunta que mais me fazem, quando você começou a escrever poemas? Respondia que foi a partir do blog. A verdade é que minha memória não é muito lá essas coisas, por isso escolho acontecimentos pontuais para tecer uma narrativa.

Um dia recebi um poema de uma amiga da sétima série, a minha letra sempre esquisita, um poema de quando tinha uns 13 anos. Isso mudou tudo, o modo que descrevia minha história. Desde então não quero mais saber o quando passo a escrever os pomas, é  por que eu os escrevo? Essa necessidade da palavra para transbordar os sentidos internos, ou a simples divertida brincadeira da linguagem.

Não sei se um poeta se sabe. Um poeta é um mistério, do mesmo modo que o mar é um mistério, as lagoas, as cachoeiras, e os coqueiros que nascem no meio do deserto onde toda água é ausente. Até quando um poeta é um explosão destruidora, é uma destruição misteriosa. Um poeta já nasce roubado pelas palavras.

Dessas palavras colecionadas nesse pequeno percurso de vida, já escrevi dois livros, com capas tão bonitas da Jéssica Gabrielle, editados pelo meus amigos e sócios da  Editora Substânsia. Nesse dois, Três Golpes D´água ( dá pra baixar gratuito aqui) e o recente MarORIGINAL, talvez eu posso entender qual história é minha história, e ao contrário de prosistas famosas como a Clarice, eu os releio sempre, para quem sabe, tentar desvendar quem eu sou.

Eu nunca entendi… onde se encontra seus ouvidos e seu coração

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Capa do EP do Grupo Casa de Velho, com Fotografia de Sávio Félix

Essa é uma postagem musical.

Não entendo muito, falo tecnicamente, de música. Apenas amo e acredito que amar já é uma forma de compreensão. Por isso estava há alguns dias com certa vontade de escrever sobre o assunto, queria falar do incomodo de o Brasil estar fervilhando de grandes artistas, produzindo diversidade, novidades que chegam-me através do Spotfy, das redes sociais, mas do bolo todo quase não escuto falar da fatia de artistas cearenses.

Comecei a pensar motivos, cheguei em alguns possíveis:

  • Não há muitos artistas cearenses produzindo? (NÃOOO) Comecei a contar nos dedos, perdi as contas, muita gente.
  • Eu sou um desinformado? (É POSSÍVEL) Não poderia abarcar tudo, porém não seria esse fato, pois estou conectados, as notícias aparecem, as amigas e amigos compartilham.
  • Questão de gosto, afinal gosto é… ?(MENTIRAAAAA) Esse papo de gosto está cada vez mais desacreditado, o chamado gosto pessoal, tenho desconfiado bem muito dele, não vou nem entrar muito no mérito dessa questão, ainda não quero falar sobre ideias não amadurecidas.
  • Simples desconhecimento…? (PROVÁVEL) A internet ajuda muito, contudo os meios tradicionais de mídia ainda são bem fortes. Não tem música da galera daqui na novela da globo, algumas das galeras nem desejaria isso, acredito e estão certíssimos, tem coisa bem mais importante na vida do que sucesso.

Um grande universo de fatores passaram por minha cabeça, as protagonistas do mercado fonográfico podem colocar pontos mais qualificados que os meus, contudo quero falar sobre um deles, um ponto que influencia não só a música cearense, também a literatura, as artes plásticas, as artes no todo. O querer.

Sim, a bruta flor do querer, não parece glamouroso suficiente sair com um exemplar de um livro da Ayla Andrade ao invés de um do Dostoiévski (não estou comparando os dois, amo e leio as/os dois/duas). Uma grande bobagem, permita-se aí companheira, desconstrua-se companheiro, experimente a arte do lugar.

Querer junto com o permitir-se, aliado ao desconstruir-se, somados ao praticar formam uma equação bem interessante. Uma equação que vai lhe garantir muitas descobertas, de quebra fomentar verdadeiramente tanto o mercado da arte no Estado, colaborando para que ele se torne mais sofisticado e diverso, apoiando gente das suas área. Isso é massa.

Há outras vantagens em trazer seus ouvidos e corações para mais próximos de onde você mora, você poderá encontrar mais facilmente com as pessoas que produzem essa arte, entender o que acontece no seu entorno e aumentar sua autoestima (sabe aquele momento que você disse, cara isso é de uma escritora da minha cidade, freud né, ou saca essa banda, esses meninxs são daqui, maravilhosxs).

Posso mostrar algumas possibilidades:

Casa de Velho: eles acabaram de lançar um EP no youtube, já fizeram alguns shows pela cidade. As letras e sonoridade chegaram certeiras ao meu coração, a imagem dessa postagem é a capa do EP deles escuta só:

https://www.youtube.com/watch?v=-TZbN4PKlIU

Daniel Medina: Uma amiga mostrou a música Lágrima de Índio, fiquei encantado, música tão envolvente, e os bairros cantados, conhecia todos, depois só fiquei mais apaixonado, a música Cancioneta é minha predileta. O Daniel lançou recentemente seu primeiro  Single, vale conferir e buscar mais coisas dele espalhada por aí. aqui alguns links:

https://www.youtube.com/watch?v=oMLBod2w7iA
https://www.youtube.com/watch?v=Vy8jLBuvpXs
https://www.youtube.com/watch?v=WJFoiEII4OA

Lidia Maria: Tem um CD lindo, chamado alma leve, a Lidia compões, toca vários instrumentos e tem uma voz muito linda. Você pode escutar aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=lgUnH8w2TGw&list=PLc74zlNuBDCnv-mHPGryw7r_eJA3H3QRO

Oco do Mundo: Não adianta só escutar, tem que conhecer de pertinho esse bando de gente lindo, poesia, música e diversão tudo junto. Tem esse clipe aqui deles no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=amsNlP8sDec
Para as pessoas que amam Spotfy, tipo eu, tem também algumas artistas do Ceará  que estão sempre no meu play, vou lincar algumas

Lorena Nunes ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ( cinco corações na minha tabela de

classificação, rsrsr poderia sem uns mil ^^ amo muito)

Paula Tesser ( Conheci a pouco, outra indicação de amigos, vicei)

Cidadão Instigado ( Made In Ceará, um mói de gente ama, eu amo também)

Jonnata Doll e os Garotos Solventes (Muito rock´nroll)

Mais que isso é com vocês, pode indicar eu quero, eu gosto.

 

 

 

 

 

Eu nunca entendi… Como a Literatura ainda sendo elitista pode funcionar como ferramenta de libertação

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A Literatura é elitista? a Literatura pode ser uma ferramenta de libertação ou empoderamento?

Alguns acontecimentos nos últimos dias, melhor dizendo nos últimos anos têm jogado-me diante dessas questões diversas vezes. Tento buscar respostas para essas perguntas e compartilha com os alunos de escola que participam de um grande projeto de Literatura promovido pelo SESC-CE do qual eu sou mediador. Também já tentei responder essas perguntas em algumas falas em eventos literários. Já pensei e conversei sobre o assunto com os artistas que ocuparam a Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) em um ato histórico para nossa cidade.

Devo entender a priori que a Literatura, como todas as outras formas de arte é um discurso. Um discurso sempre parte de algum lugar, esse lugar está inserido dentro de alguma ideologia, de modo que não há arte desinteressada ou literatura desinteressada. Esse ponto é crucial para o desenvolvimento do meu pensamento, já que o romantismo nos legou a crença da Arte pela Arte, fazendo-nos em alguns determinados momentos acreditar em apenas um dos preceitos Horacianos o deleitar, riscando o instruir das funções da arte.

Essa é uma visão de muitos, a arte literária, principalmente a poética, não teria ou exerceria função alguma, logo estaria isenta de qualquer obrigação a não ser a de existir por si mesmo, o que a enquadraria facilmente dentro da doutrina da arte pela arte.

Esses preceitos podem parecer inocentes, mas se usarmos de franqueza e observação eles de inocentes possuem quase nada. A Literatura, ainda é elitista, embora, e falaremos disso um pouco mais adiante, tenha sido positivamente subvertida.

Para ajudar a pensar esse texto, disponibilizei a problematização dessa discussão na página do blog. Um dos pontos questionados foi de que a Literatura não era mais elitista. Será? Quem ainda são os principais produtores e comentadores da literatura  no mundo? Homem, branco, quase média para alta. Esse é o perfil de editora, prêmios, eventos. Não que seja uma hegemonia, o quadro tem se modificado muito, mas se for para pegarmos por exemplo um país como o Brasil, só a pouquíssimo tempo houve uma espécie de cotização de escritores por região para participar de eventos internacionais patrocinados pelo Ministério da Cultura, e se percebermos bem o perfil para quais o Ministério oferece reconhecimento, a ideia de uma literatura Elitista ainda é bem presente.

Entretanto, ela não é mais apenas isso, tornou-se um multiverso, de muitas vozes, vozes que conquistam e desconstroem o estabelecido há muitos anos, utilizando-se de alternativas várias, hoje de ferramentas como editoras independentes e o mundo anárquico e delicioso da internet.

O grandes sustentáculos da literatura, é a Educação, o Estado e Mídia, com visões deveras elitistas, enquanto esses forem os sustentáculos dessa arte, seu viés elite ainda permanecerá forte e bem sustentado.

Como não ser/permanecer nessas condições? ou para que ou quem devemos atuar na desconstrução elitista ou na construção de uma outra literatura emancipadora? quem fará isso?

Olhando ao redor quase nunca tenho os escritores envolvidos em pensar nesse assunto, inclusive participar é algo que vejo pouco das minhas colegas escritoras e escritores. Falo com muito pesar, sem orgulho algum dessa realidade. Tanto que posso colocar-me em um tremendo engodo ao partilhar isso, mas de todas e todos partícipes do sistema literário os mais libertadores e revolucionários são os leitores.

Certo que os atores desse sistema, editoras, escritores, mediadoras, livreiros, estão inserido em um coexistência, mas parece-me que é no leitor, que os efeitos de múltiplas visões instauradas pela literatura se consolidam, o universo do leitor que ao ler Kafka enfrenta sua própria existência, ou ao ler Carolina de Jesus percebe seu estar no mundo, libertando-se de si próprio e das fronteiras que o rodeiam.

E deveriam todos esses agentes que compõem a cadeia da literatura ser também leitores e participar desses efeitos? Sim, deveriam, mas parece que algo em suas posições de privilégio atrapalha um pouco suas ações.

Tecidas as problematizações e considerações, partamos para tentar resolver a questão principal proposta. Nesse contexto, cabe lembrar que a literatura antes de discurso é linguagem, sendo linguagem é um oceano de possibilidades, é também construção e desconstrução da realidades. Ter esse conhecimento é um dos passos principais para pensar uma uma literatura libertadora.

A literatura também proporciona ao ser um enfrentamento constante com suas realidades, próximas ou distante, assim,ela contribui para o atravessamento da densa floresta da existência. Talvez não responda se o diabo existe ou não, mas nos coloca a pergunta a todos os instantes.

A literatura também é uma forma de poder, devemos nos apropriar, ocupar, conhecer as ferramentas de poder, para decidir participar ou não, aumenta-lo ou desconstruir. Saber de onde vem as balas que disparam contra nossa vida.

Outra possibilidade emancipadora da literatura é seu poder de construir novos mitos, destruir os antigo. Não pensemos que o existente, o grandioso é intocável, muitas escritoras e escritores tiveram a ousadia de mexer no intocável, lançando-o ao chão. Quebremos nossos cânones todos os dias, não há modificação na inércia, a literatura pode nos proporcionar força motriz para criação e destruição.

A literatura também estabelece identidades, lembra que Alemanha no romantismo utilizou esse poder da literatura para colaborar na construção do que é ser alemão. Usemos então para a construção ou desconstrução de nossas identidades.

Por ser um mediador de leituras, avisto infinitas possibilidades, porém minha inquietação não se assenta no fundo de um lago, sei bem o que a literatura representou e representa durantes todos esses anos, sei também em como ela tem sido apropriada e utilizada contra a dominação que um dia ela foi responsável de propagar.

Literatura é possibilidade, é matéria de vida transformada em linguagem, digo isso para mim mesmo todos os dias, dentro dessa perspectiva eu quero continuar navegando.

 

Libertária

Larguei do meu slogan inicial de todas as publicações para falar sobre uma página de Facebook, não qualquer página, um ponto de encontro, algo que transforma vidas, um catalisador de poesia.

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LIBERTÁRIA!

Antes da poesia fazer folia em minha vida passei por uma grande barra, o terror adolescente de fazer um odioso trabalho, o que ocasiona danos terríveis, tornei-me alcoólatra, sem desejo algum de realizar/esperar muito da vida, apenas cumprir o lento fatigante cotidiano. Salvava-me os livros de poemas, era uma respiração, caso ainda estou vivo foi graças à palavra poética.

Por ela tomei uma decisão, iria recolocar-me no caminho da arte através da literatura, não sabia bem como fazer, pensei na internet. Nessa época estavam fervilhando o universo dos blog, resolvi iniciar um. Aprendi com a blogsfera o quão importante é ser coletivo, ser coletivo é um pressuposto para alcançar o sucesso, se não o sucesso,  o prazer de estabelecer um círculo de leitores, e ter leitores era meu objetivo, fossem 10, ou oitenta mil. Esse foi o número de acesso do meu blog nos 3 anos em que ele funcionou a todo vapor.

O blog puxou alguns projetos coletivos, como o Papéis de circunstâncias, meu desejo de espalhar poesia. Esse contexto vai desaguar no Facebook, ferramenta então nova, percebo que não existia uma página dedicada a Poesia Brasileira, investi meu tempo criando uma.

A Poesia Brasileira trouxe-me mais amigos do mundo virtual, pessoas amantes das artes poéticas, entre elas Joana Woo. Quado a conheci iniciava uma página chamada Libertária, usando seus conhecimentos de Publicidade, fez que os poemas de pessoas comuns e desconhecidas fossem espalhados e divulgados  no mundo Virtual. Joana, como todas as pessoas maravilhosas que descobri nesses meus poucos anos, percebeu que para ser universal era preciso ser coletivo, e conquistas individuais podem ser deliciosas, mas conquistas coletivas são sublimes.

Tive alguns dos meus Poemas Publicados no Libertária, depois de um tempo, meu laço virtual de afeto com Joana Woo estreitou-se, até que um dia fui conhecê-la pessoalmente. Ela passou-me seu endereço, tímido, cheio de medos fui ao seu encontro, não tinha conhecimentos de quem era e o que representava essa mulher. Um dia inteiro juntos, minha cabeça fervilhou de tanta criatividade, energia e amor emanados por Joana. O Sorriso de Joana é capaz de inspirar não apenas poemas, inspira grandes projetos.

Desde que conheci Joana, Sua página (ninguém sabia quem era pessoa por trás do Libertária) cresceu e ganhou grandes proporções. Três anos passaram-se, publiquei dois livros, montei uma editora, fugi de casa duas vezes, os acontecimentos não cansaram de acontecer. Nesse torvelim a Libertária ainda continua, permitindo que pessoas espalhadas pelo Brasil possa viver seu sonho de poesia, e o mais importante, permitindo a essas pessoas espalhadas a possibilidade de conectarem-se, não somente em texto, se conectarem em vida.

Eu nunca entendi… o Reginaldo Figueiredo

Pessoas independentes

tecem laços recíprocos

aprendendo e ensinando

suas vidas estão mudando

chegou um novo tempo

Reginaldo Figueiredo

Reginaldo

Houve um tempo no qual eu desconhecia alguns dos múltiplos lados da poesia. Era um admirador de Bandeira, Drummond e tantos outros poetas canônicos, lugar do poema era em livro, onde eu desejava um dia também ser publicado, quem sabe lido, quem sabe ainda mais ser lembrado pelo meu modo peculiar de juntar as palavras na folha.

Isso foi o antes, depois eu entrei para o Templo da Poesia, vou-lhes explicar, o Templo da Poesia, principiou de um encontro de três figuras admiráveis, Reginaldo Figueiredo, Ítalo Rovere e Ana Lourdes de Freitas, esse encontro desaguou na inauguração de um espaço no centro da cidade de Fortaleza,  local onde as/os poetas da cidade e artistas em geral começaram a se encontrar em saraus muito peculiares chamados Palco Aberto.

Esse Palco possuía algumas regras, depois aderiu totalmente a liberdade, sem inscrições, sem programações, foi o lugar em que várias mulheres, homens, meninas e meninos, dividiram o seu amor pela poesia e pelo o encontro.

A vida, junto com a Dançarina, Poeta e amiga Patrícia Lopes, levaram-me ate´esse lugar. Foi onde tudo mudou, minha poesia, meu modo de estar no mundo, minha percepção, o Templo da Poesia foi a verdadeira Universidade que carecia para minha formação humana.

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Nessa universidade poética conheci Reginaldo Figueiredo, um homem com um trajetória peculiar, que aos poucos foi mostrando o percurso de sua vida para mim, contundo sem parecer acorrentado na história de sua vida, era um ser Heraclitiano, fluía tranquilamente nas tardes dentro do Templo, onde nos encontrávamos, como flui um rio entre pedras antigas. Águas sempre novas em um terreno sempre o mesmo.

Reginaldo Figueiredo, andou por aí, teve muitas venturas e desventuras, participou das lutas populares pela moradia, ingressou nos planos da educação pela arte ou educação pela vida, sua história de vida, encantou um grupos de jovens com seu discurso direto, sua afetividade sempre presente, juntou pedras até  fazer um caminho certeiro para poesia.

No meio do caminho eu estava, aprendi com meu amigo poeta um monte de coisas das quais eu desconfiava, sua poesia não era apenas um amontoamento de palavras, seu poema tem sempre vida por de dentro. Isso me impressiona. Antes dele eu era um jovem presunçoso, como somos na maioria das vezes quando somos jovens, depois dele aprendi a escutar a fala de todas as pessoas, pois uma/um grande poeta, é o homem do sentimento.

Poesia depois de Regi, pra mim passou a ser a palavra com sentido.

A palavra sem sentido, pode até virar um poema, nunca vai acontecer em poesia.

Vou Fazendo

Nunca ajudei a ninguém,
Tudo que faço é pensando
Em meu próprio bem.

Em toda terra onde piso
Quanto mais material acumulo
Mais prisão, mais muro.

Quando penso em algo
Que não vejo,
Em algo em que
Ninguém pode pegar,
Sinto-me livre,
Livre em qualquer lugar,
Livre para voar.

Reginaldo Figueiredo

Em Reginaldo Figueiredo um poema é uma revolução, não dessas em que um Estado é derrubado para se instaurar outro tipo de Estado, é uma revolução do ser, um mergulho sem voltas para dentro de si. Ele não fala de outra assunto a não ser dele mesmo, ao falar em si, proporciona o si de cada um de nós entrar em comunicação com o universal. A Poesia do Regi é uma experiência estética e espiritual, não é possível separar esses dois elementos na obra do poeta.

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Quando um homem alcança esse estado de poesia, tudo que ele toca é transformado, uma tarde me balançando na rede, conversado com esse meu amigo, vale por muitas horas de leitura de texto, Regi me oferece a leitura da palavramundo, aquela tão citada pelo Paulo Freire, Regi é um desses seres onde vida e obra se encontram. Quem tiver ouvidos que escute.

 

 

 

Eu nunca entendi… quando acaba, o fim.

Quando acaba o fim de semana chove rumores de tristeza nas redes sociais, quando um relacionamento rui é “riscado”, para usar a expressão de minha mãe, nascer daí um livro, um álbum de música. Quando começa, não. Os envolvidos no início aplicam toda a sua energia para erguer o novo até sua verdeira plenitude, a energia investida é para fazer girar a roda inicial dos projetos e relacionamentos.

O início é amado, adorado.

O Fim lamentado, sepultado.

O fim é amargo, pois não poupamos de aplicar-lhe mais amargor.

O novo é cheio de esperanças, parido de luz.

O vácuo que fica nessas comparações é o simples fato de ignorarmos o fim como a possibilidade de um início. Fechamos as cortinas, abandonamos o teatro, porém no outro dia uma nova sessão é oferecida pela vida.

Isso é uma visão positiva, comigo acontece um pouco diferente.

O fim nunca acaba, eu não sei quando termina um livro, desconheço os caracteres surgidos na grande tela ao fim dos filmes.

O amor desata de mim, vai embora, mas eu não fico sabendo.

Dentro do meu universo as coisas ficam reverberando para o infinito. Aquele beijo atrás da porta do banheiro do shopping, sinto o gosto até hoje.

Pode parecer esquizofrênico, verdade, eu nunca conheci o gosto verdadeiro da morte nos meus lábios, meu pai estirado na cama, lembro que não chorei. Durantes alguns anos pensei que fosse um insensível, mas com os anos entendi, no meu coração, quando cruzo a Leon Gradvhol, parece que vejo meu Pai fazendo o jogo do bicho. Não entendo a falta.

Esse estranho modo pode me fazer parecer um fruto suspenso, um homem sem raízes, um ser sem apego. Os desapegados são vistos com muita desconfiança e mal gosto pelos que os circundam.

É trágico, há sempre um fiscal para flagrar um gesto de apego de um desapegado, para com o dedo em riste lhe desmascarar perante a comunidade.

Não consegui alcançar o desapego, não precisam fiscalizar meus atos, sinto-me até muito encravado no chão de muitas pessoas, lugares e desejos, o que tiraria de mim facilmente essa tag, desapego.

Entretanto, no meu universo pessoal os fins são tão desvalorizados, pela questão de não os entender, ainda acredito que as histórias não acabam, reverberam. Aquela vez em que você me abraçou e saiu correndo para pegar o ônibus, acredite, está acontecendo até hoje, aqui, em mim.

 

 

Eu nunca entendi… O coração ausente de amor por Fortaleza

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Foto de Renan Matos Magalhães que assina a Página Fortaleza Monocromática 

Peguei carona com Lia Sanders, romancista que acabamos de publicar pela Editora Substânsia, ela iria me deixar em uma determinada livraria do bairro Aldeota. No percurso comentava meu dissabor pelo bairro, o isolamento e a antipatia de parte de sua população, o que ela tratou de desconstruir, colocando pontos interessantes e o paradoxo no qual o bairro do meu desgosto foi construído, desde então comecei a pensar diferente.

Não tardou e a conversa ganhou um tema mais amplo, falávamos sobre a cidade, principalmente falávamos sobre a falta de apreço de muitas e muitos por Fortaleza, escuto constantemente sobre querer ir embora, que é insuportável estar/viver aqui. A escritora lança “as pessoas não entendem que elas são a cidade”. Passamos um tempo comentando o que pode ser doce e o que pode ser amargo nessa invenção chamada Fortaleza.

Desde então tenho ruminado, pensar locais é algo que gosto muito de fazer, quando minha poesia não está mergulhada no subjetivo das relações, ela está versando sobre os territórios, os que avisto no meu percurso andarilho pelo país, e principalmente os territórios que me circundam e me formam, a Maraponga, o Curió, o Benfica. Os dois primeiros distantes do centro, periferias que tantas vezes não figuram no imaginário coletivo como pertencentes à cidade.

Eis que me faço indagante e indagado, qual cidade é possível ou impossível para ser amada ou não? Busquei na memória as principais pessoas conhecidas que gostam de pensar o assunto, Fernanda Meireles e seu cidade Solar, todo papo que troco com ela é oportunidade de reinventar Fortaleza dentro de mim, Júlio Lira e seu Percursos Urbanos, Programa vital para ver/ouvir/sentir/viver a cidade inteira, livre das fragmentação ou polarização centro/periferia. O Júlio, junto com o Percursos Urbanos deveriam ser uma política pública diária, afinal eles são responsáveis, sou lhes grato por isso, de apresentar Fortaleza aos fortalezenses.

Outras pessoas entraram na minha recordação, são muitas, ainda bem, porém diante o refluxo de apatia se fazem poucas, necessitamos multiplicar essas e esses encantadores da cidade.

A cidade é um discurso, tem muito mais a ver com o que dizem sobre ela do que com o que ela realmente é. A existência toda é inventada na palavra, não se pode negar o magnífico, o grandioso? Com o discurso pode, sabe a música do Caetano “O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara: Pareceulhe uma boca banguela.” Então um lugar não é só mar, montanha, pedra, concreto e tijolo, um lugar é, mar e palavra, montanha e palavra, pedra e palavra, tijolo e palavra.

Quando um coração estar seco de amor por uma cidade, na verdade ele está seco de narrativas também, não é só questão de imagem, é imagem e poema. Isso é um problema político e social, quem não ama um local, não há de querer muito contribuir para esse determinado local, ou seja voltamos para o início do texto, as pessoas são a cidade, assim ela se integra ou desintegra de acordo com a vontade das pessoas que a habitam, que a narram, que a inventam.

Tenho muitas narrativas sobre o bairro que nasci, tanto que escrevemos um blog, eu e a artista Jéssica Gabrielle, o Amaraponga. Tenho narrativas também sobre as noites de sexta pelas ruas do Benfica, ou o pôr do sol da Barra do Ceará, visto do CUCA da Barra é impressionante, tenho narrativas sobres os campinhos do Curió, ou as tardes caiadas de luz no Conjunto Ceará, tenho histórias sobre o centro da cidade, sobre o José Walter e agora estou tecendo narrativas dentro de mim sobre o Damas.

É um comprometimento poético tão grande por esse lugar que não é possível ser indiferente, eu faço parte disso tudo, estou inserido, sou um conjunto em interseção com a cidade. Pode as outras pessoas não a amarem, eu aceito essa ausência e conheço todos os problemas de viver aqui, mas entender, nunca entendi.