A desobediência ao sistema literário em Saral. Por Tuyra Maria

A Poeta e Professora Tuyra Maria da Cruz Andrade, em seu trabalho de conclusão de sua pós-graduação, escreveu sobre a experiência do Saral. O texto na íntegra você pode conferir clicando no link abaixo da imagem.

poesia marginal

A “DESOBEDIÊNCIA” AO SISTEMA LITERÁRIO COMO AFIRMAÇÃO DA POESIA MARGINAL EM “SARAL”, DE TALLES AZIGON (1)

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5 perguntas e 5 respostas sobre o Saral

  1. Se uma pessoa pode pagar qualquer quantia, porque o Saral não é logo de graça?R = O fato do livro Saral ter um preço é porque produzir um trabalho gera custos, impressão, diagramação, distribuição, se alguém pagar 50 centavos, é contrabalanceado pelo fato de alguém pagar 50 reais. A lógica aqui é, quem pode, pagar mais no momento, paga mais. Contudo, na lógica do preço as coisas não são tão absolutas como parecem, afinal, para quem vive com pouco 50 centavos pode fazer toda diferença.

    É bom lembrar, para quem é artista, a arte é sua substância de trabalho, e quando uma pessoa que tem dinheiro, mas nunca foi educada para consumir arte, se vê na situação na qual é necessário investir para ter acesso a um produto artístico do/da artista, esse processo é educativo.

    No primeiro Saral, eu queria entender como as pessoas de Fortaleza percebiam  a dicotomia preço/valor diante um livro de poemas, as coisas que descobri relatei nesta publicação

    Como eu acredito que ações que beneficiam a coletividade devem ser facilitados pela coletividade, o financiamento colaborativo é uma etapa imprescindível para o Saral, na primeira edição tivemos uma vakinha  e agora no Saral #2 temos a campanha no catarse.me/saral  

    IMG_20180313_161525414.jpg

  2. Por que saral com l e não sarau com u?R= Essa é uma pergunta recorrente, por alguns fatores. Sarau com u, é uma manifestação coletiva, principalmente de poesia e música, mas que cabem todas as linguagens artísticas, incluindo até o prazer de falar em público sem nenhuma finalidade artística, ou o processo educativo de compartilhar conhecimentos e reflexões. Então, desejava aproximar o livro dessa energia linda que é um sarau, mas queria colocar alguma marca de distinção para dizer que era o livro, não o acontecimento. Outro fator é pelo fato de algumas pessoas acharem que erram  quando fala o coletivo de sarau, sarais, e o livro quer dizer que em linguagem , o erro só existe no conteúdo, quando é um conteúdo racista, homofóbico, machista, preconceituoso, nunca na forma. A língua é livre como os poemas e os pássaros.
  3. O saral é economicamente viável ou ele é um projeto de acessibilidade econômica literário? R= Depende do que você acredita o que significa economicamente viável. No sentido investimento / lucro nesta postagem eu dei alguns números https://tallesazigon.wordpress.com/2018/03/13/quanto-vale-um-livro-de-poemas-a-experiencia-do-saral-livro-saral-para-baixar/
    Porém, o Saral gera benefícios coletivos, pq ele forma leitores, quando alguém vê que existe livros que eles podem sim comprar, e gera reflexões, não só pelos conteúdos poéticos mas pelo processo de construção do livro.
    Contudo é muito bom lembrar que o Saral não é apenas um livro, ele é uma pesquisa/performance/projeto e que a questão do preço/custo para acesso aos livros no Brasil é uma grande problemática que ainda precisa muito ser entendida e debatida.
  4. Por que ter fotografias no Saral#2? R= o Saral #2 catarse.me/saral será em coautoria com o Leo Silva, porque acompanhando o trabalho dele, percebi que as narrativas poéticas fotográficas dele tem toda relação com os poemas do Saral, e pensar as linguagens artísticas de maneira expandida é rico e frutífero, afinal, a separação das coisas é mais uma abstração do que uma vivência nossa.

    SARAL FONTES PRETA

  5. Onde comprar o Saral? R= O saral não é vendido em lojas ou sites, para ter você precisa estar num local onde eu me apresente ou vá falar sobre o saral, por isso ele é também uma performance, ou ajudar colaborando previamente na campanha,  que já garante um exemplar do livro catarse.me/saral

Se a Cidade fosse Nossa

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Conjunto Ceará ❤ 

A Cidade sendo nossa, os poetas a escreveriam, os compositores a comporiam, os músicos a cantariam e os dançarinos a bailariam, novas letras em cada muro, nas ruas de dentro, história passadapresentefutura na linha de rosto do povo que nela morasse, outros postes, praças nas notas sustenidas, sons mais distintos, dos vendedores ambulantes que mesmo ao meio de imensos shoppings não somem, movimentos outros, para além do movimento dos carros e sinais de trânsitos, um silêncio só possível de ser capturado na ponta do sorriso da malabarista de rua.

Isso, evidente, se a cidade fosse nossa. Se a cidade fosse nossa, os moradores não seriam eleitores, seriam pessoas que sentam nos bancos das praças para namorar, levando os cachorrinhos a passear, mulheres que vendem churros a um preço justo.

Teria menos lixo, o homem do lixo seria o homem do livro, a jornada de trabalho bem menor, enfim, dormiríamos mais do que 4 horas por dia. Haveria gente no teatro, gente no cinema, gente no meio da rua, gente nas bibliotecas, lógico, não sendo isso utopia, ainda existiria o tráfico de drogas, e invariavelmente alguém seria assaltado numa rua escura, mas a cidade seria nossa, o que nos daria direito às árvores mesmo continuando a existir homens de fardas muito tristes, em torres tristes, sem conto de fadas.

Outro fato interessante é que existiriam bairros, além daquele onde mora o prefeito.  As pessoas poderiam vivê-los. Não seria necessário encher de tapume algumas ruas quando os chefes de Estado nos visitassem nos eventos internacionais, pois as casas das favelas também seriam a cidade do mesmo modo que são os prédios e os condomínios de luxo.

Se a cidade fosse nossa, ela seria bem maior do praia. Seríamos as praias, os rios, as lagoas, os descampados, os parques, as ruas, os mirantes, os pantanais, e as calçadas.

A Literatura Falada

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Escrevo poemas, três livros de poemas publicados, poemas no facebook, instagram, site, twitter, antologias. Por mais que algumas pessoas digam que há literaturas, o tal consenso só consegue enxergar de verdade aquilo posto em papel, ou em suporte digital, que tem uma existência escrita.

O efêmero, performado tão tranquilamente nas artes cênicas, em literatura não é considerado de modo algum, ou quase não é considerado. Uma pena, pois considero também que faço uma literatura falada.

Como? Fabulo prosas, ideias, com uma estrutura, uma estratégia, esses textos ficam girando na minha cabeça, não os escrevo, é feito na nuvem da minha mente, é divertido, me rouba horas e horas de devaneios, e vez ou outra, executo esses textos durante conversas deliciosas que tenho com tanta gente maravilhosa a quais chamo amigas, amigos.

É uma crônica de sempre, e acontece no diálogo. Eu falo, eu amo falar, sou tagarela, bebi água de chocalho. E há bastante gentes da literatura falada, aquela vizinha ao lado, aquela tia viajante, aquele moço que vende queijo na porta da sua casa, aquela avó da prima da sua amiga, e é de uma potência, uma riqueza, uma pluralidade de estilos. Dificilíssimo de ser digerido como Literatura por uma monte de gente.

Literatura não é a arte da escrita, literatura é a arte da palavra. Um pensamento assim é sofisticado demais para quem vive em função de estabelecer regras estatuantes para as artes. Estamira, Stela do Patrocínio, as Ceguinhas de Campina Grande, são todas elas literatas, mesmo sendo bem difícil aceitar esse tipo de afirmação.

Quanto a mim, nem tudo escrevo, tem muito das minhas criações que prefiro que vá na fala, mas sou um iniciante nessa arte, gosto de observar as mestras e mestres, que conseguem além de criar esse tipo de literatura cativante, na hora da performance, da fala, ainda adicionam mais poder nas suas criações palavrosas.

 

31 poemas em 31 dias – Março mês da poesia #1poematododia

Hoje é primeiro de Abril, mas não foi mentira que durante o mês de março compartilhamos 31 poemas, um poema todo dia, para quem assinou a nossa lista de e-mail. Durante esse mês vocês puderam conferir Poetas, homens e mulheres, de vários países, pessoas que escreveram poemas em diversas épocas da nossa história. Foi um verdadeiro giro.

Para quem não acompanhou, e para quem acompanhou, preparei uma lista com todos os poemas, e foto das dos poetas, no e-mail evitava por imagem para facilitar a agilidade da conexão


Ferreira Gullar

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Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber 
o que ainda não sabe. 

Uma fruta uma flor
um odor que relume… 
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume? 

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa 
e que não tem sentido? 

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes 
mas o gosto da fruta 
só o sabes se a comes 

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas 
e que na boca é festa 

de saliva e papilas 
invadindo-te inteiro 
tal do mar o marulho 
e que a fala submerge 
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes 
de gozos, de espasmos, 
vertiginoso e pleno 
como são os orgasmos 

No entanto, o poeta 
desafia o impossível 
e tenta no poema 
dizer o indizível: 

subverte a sintaxe 
implode a fala, ousa 
incutir na linguagem 
densidade de coisa 
sem permitir, porém,
que perca a transparência 
já que a coisa ë fechada 
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
essa voz somos nós.


Elizabeth Bishop
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Cão-de-rosa
Tradução de Nina Rizzi

O sol é escaldante e o céu azul.
Guarda-chuvas vestem a praia de todos os matizes.
Nua, entre o passo ordinário e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi um cão tão nu!
Nu, cor-de-rosa, sem um único fio de cabelo cão-de-rosa…
Assustados, os passantes recuam e olham fixamente.

Claro que estão mortalmente com medo de raiva.
Você não está louco; é um caso de sarna
tem o olhar sagaz. Onde estão seus bebês?

(A mãe, feito enfermeira, com as tetas cheias, suspensas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela,
enquanto implora, vive de seus olhos e sagacidade?

Você não sabia? Saiu em todos os jornais o que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com os mendigos?
Eles os seduzem como a iara e os jogam na maré cheia.

Sim, idiotas, paralíticos, parasitas
todos vão nadando no esgoto que flui nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora, padece,
bêbedos e drogados e sóbrios, com as pernas tomadas pela gota e a cirrose
o que não fariam por um doente de quatro, cadelas?

Nos cafés, calçadas e esquinas
a piada é arengue com os mendigos
ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cão-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas ou mesmo boiar.
Veja, o prático, a sensível

solução é se mascarar.
Esta noite você não poderá se dar ao luxo de ser essa m-
erda monstruosa. Será única, cão-de-rosa mascarado fora de época.
Vem uma quarta de cinzas, mas aqui todo dia é carnaval, feriado nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo degenerado
– as rádios, os estadunidenses, essa gentinha
que arruína tudo o que é da gente. Mas é conversa fiada.

O Carnaval é sempre maravilhoso, redenção!

Contudo, um cão depilado, mesmo rosa, não fica bem.
Vá! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!


José Craveirinha craveirinha-thumbnail.jpg

Um homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!


Elizabeth Browning elizabeth-barrett-browning.jpg

Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minhalma em comunhão constantemente
Com a sua”. Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.


Konstantínos KaváfisKonstantinos Kavafis3.jpg

O espelho da entrada

À entrada da mansão

havia um grande espelho muito antigo

comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate

(e nos domingos atletas diletante)

estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro

com o recibo. O empregado do alfaiate

ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se

para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,

trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho que vira e revira

nos seus longos anos de existência

coisas e rostos aos milhares;

mas o antigo espelho agora se alegrava

e exultava de haver mostrado sobre si

por um instante a beleza culminante.


Mário Quintanamario-quintana_fb.jpg

IDEAIS

Os outros meninos, um queria ser médico, outro pirata, outro
engenheiro, ou advogado, ou general. Eu queria ser um pajem medieval… Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!


Manuel Bandeiramanuel-bandeira-2.jpg

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

O Cacto

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.


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Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.


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O amor me assinalou com sua seta,
como a neve ao sol, como a cera ao fogo,
como névoa ao vento; e já estou rouco,
dama, de humilhar-me, feito um pateta.

De teus olhos o golpe mortal veio,
contra o qual tempo e espaço nada são;
Vêm de ti, e vês como diversão,
o sol, o fogo e o vento aos quais me atenho.

O pensar me flecha, me cresta o sol,
o desejo queima: com essas armas
o amor fere, me cega e me aniquila;

e sua voz e canto angelical,
e a doce alma com que me desarmas,
são o ar do qual minha vida se exila.

Trad.: Nelson Santander


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O fim e o início

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.


Matsuo Bashôportrait-of-matsuo-basho_770x433_acf_cropped-1.jpg

Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas

Quero ainda ver
nas flores no amanhecer
a face de um deus.

.

Vozes das aves.
Nessas horas, um poeta
não tem mais mundo.


Warsan ShireOkeowo-Warsan-Shire.jpg

você é um cavalo correndo sozinho
e ele tenta te domar
te compara com uma estrada impossível
com uma casa em chamas
diz que você o cega
que ele não poderá
jamais te deixar
te esquecer
querer qualquer coisa
além de você
você o atordoa, você é
insuportável
qualquer mulher antes ou
depois de você
é extinta pelo seu nome
você enche a boca dele
seus dentes ardem com a memória do seu gosto
o corpo dele é só uma enorme sombra em busca do seu
mas você é sempre intensa demais
assustadora em seu modo de desejá-lo
sem vergonha e dada a sacrifícios
ele diz que homem algum pode chegar aos pés do que
vive em sua cabeça
e você tentou mudar, não tentou?
fechou mais sua boca
tentou ser mais suave
mais bonita
menos volúvel, menos desperta
mas mesmo dormindo você podia senti-lo
viajando para longe de você em seus sonhos
então o que você quer fazer amor
quebrar a cabeça dele ao meio?
você não pode fazer casas em seres humanos
alguém já deveria ter te dito isto
e se ele quer partir
deixe que ele vá

você é aterrorizante
e estranha e bela
algo que nem todos sabem como amar

Tradução: Taís Bravo


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Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma:  pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.

Tradução: Ricardo Domeneck


Bertolt BrechtBertolt-Brecht-730x415.jpg

Elogio da dialética
A injustiça vai por aí com passe firme.
Os tiranos se organizam para dez mil anos.
O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.
Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.
E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.
Já entre os súditos muitos dizem:
O que queremos, nunca alcançaremos,

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!
O mais firme não é firme.
Assim como é não ficará.
Depois que os dominantes tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem ousa dizer: nunca?
A quem se deve a duração da tirania? A nós.
A quem sua derrubada? Também a nós.
Quem será esmagado, que se levante!
Quem está perdido, que lute!
Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?
Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.
De nunca sairá: ainda hoje.

Tradução: Haroldo de Campos


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Quadrilha

Maria não amava João,
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos os seus sapatos.


Sá de Miranda
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Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Miró da Muribeca maxresdefault (1).jpg

Elza caga na rua
no Largo de Santa Cecília
não limpa a bunda
nem por isso morreu ainda
a guarda metropolitana não ousa prendê-la
não há nada no código penal
que diga que cagar em via pública é crime
se tivesse, Elza cagaria do mesmo jeito
dizem que Elza não tem juízo
os sem juízo
são imunes perante Deus e a polícia
e nem sequer sabe da existência de papel higiênico


Francisca JúliaFrancisca Júlia Acervo Biblioteca Nacional.jpg

A Serpente

Um formoso passarinho,

Sobre um galho, sem receio,

Solfeja um doce gorjeio,

Empoleirado no ninho.

 

Auras que passam, serenas,

Num sopro suave e brando,

Vão as folhagens roçando,

Arrepiando-lhe as penas.

 

E no ninho, agasalhado,

O filhote, implume e lindo.

Em silencio está dormindo

Sob o materno cuidado.

 

Mas em baixo, traiçoeira,

Inspirando4 horror e nojo,

Uma serpente, de rojo,

Por entre a relva se esgueira’

 

O pássaro canta em cima

Perto do filho, contente.

Em baixo, a feia serpente

Pouco a pouco se aproxima.

 

Olha-o em cima do ninho;

Avança aos poucos, afasta

A relva, entre a qual se arrasta

Caminhando de mansinho.

 

A ave de cantar não cansa

Sua harmoniosa toada,

Enquanto a serpente, enrolada

Ao tronco, aos poucos avança.

 

O pássaro ouve um ruido,

Sacode as asas com custo E

E tenta fugir de susto,

Soltando um triste gemido.

 

Mas a serpente, medonha,

Num movimento ligeiro

Envolve-lhe o corpo inteiro

Com sua mortal peçonha,

 

E enquanto no ar, de mansinho

O vento perpassa, brando,

A serpe vai devorando

O formoso passarinho.


Cecília Meireles 1510351682174

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Cego Aderaldo

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C- Amigo José Pretinho
Eu não sei o que será
De você no fim da luta
Porque vencido já está
Quem a paca cara compra
A paca cara pagará

P- Cego, estou apertado
Que só um pinto no ovo
Estás cantando aprumado
E satisfazendo ao povo
Este seu lema da paca
Por favor cante de novo

C- Digo uma e digo dez
No cantar não tenho pompa
Presentemente não acho
Quem o meu mapa rompa
Paca cara pagará
Quem a paca cara compra

P- Cego, teu peito é de aço
Foi bom ferreiro que fez
Pensei que o cego não tinha
No verso tal rapidez
Cego, se não for massada
Repita a paca outra vez

C- Arre com tanta pergunta
deste negro capivara
Não há quem cuspa pra cima
Que não lhe caia na cara
Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara

P- Agora cego me ouça
Cantarei a paca já
Tema assim é um borrego
No bico de um carcará
Quem a cara cara compra
Caca caca Cacará


Carlos Drummond de Andrade personalidades_foto1.jpg

Consolo na Praia

Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizaram.
Mas, e o humor?


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Antigamente, se bem me lembro, a minha vida era um festim, onde se abriam todos os corações, corriam todos os vinhos. Uma noite, sentei a Beleza no meu colo. – E a achei amarga. – E a xinguei.

Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, meu tesouro foi confiado a vocês!

Consegui apagar do meu espírito toda a esperança humana. Para estrangular toda alegria, dei o bote surdo da fera. Chamei os carrascos para, morrendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para sufocar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu Deus. Deitei na lama. Sequei no ar do crime. E preguei boas peças à loucura.

E a primavera me trouxe o medonho riso do idiota.

E ultimamente, estando quase ao ponto de dar a minha última nota falsa!, pensei procurar a chave do antigo festim, onde reencontrarei talvez o apetite.

A caridade é esta chave. – Esta inspiração prova que sonhei.

Você continuará hiena, etc…”, exclama o demônio que me coroou com tão amáveis papoulas. “Ganhe a morte com todos teus apetites, e teu egoísmo e todos os pecados capitais.”

Ah! peguei disto demais: – Mas, meu caro Satanás, vos conjuro, uma pupila menos irritada! e aguardando algumas pequenas covardias atrasadas, vós que amais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou instrutivas, vos destaco estas horrendas folhas do meu carnê de danado.


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Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;

naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.

Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.


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Punhado de Neve

Em minhas mãos treme um telegrama.
Morto…
morto?
já o quinto dia?
E em tua alma tu terminas o drama,
com este final, subitamente resolvido?

Surdamente acima do equador e do trópico
voou esta notícia negra
e através do Atlântico
e da Europa
em minhas mãos ela se pousa hoje.

O rádio diz –
nas praças
no calor – cinquenta à sombra –
lá as pessoas caíam de insolação.
Tu não sentes
nem calor,
nem frio.

Em nosso pais faz vinte abaixo de zero
e cai uma neve maravilhosamente macia.
Tu te lembras como à noite sob a torre
eu te contei novamente sobre Boyana?

Três dias e três noites estando encerrada só
em um montão de neve e numa tempestade,
eu pensei, que a casa ia desabar sobre mim
nas trevas da meia noite.

Tu suspiraste
vagamente perceptível:
– Como eu sonho por um punhado de neve…
Eu daria metade de minha vida
para estar lá contigo no meio do inverno…

Eu brinquei:
– Eu te prometo –
Se eu voltar aqui uma segunda vez –
numa garrafa térmica,
trazido de Vitosha,
um punhado de neve para ti será o presente.

Agora para sempre te esmaga
o calor de um litoral estrangeiro.
E sobre ti eu lanço só mentalmente
o prometido
punhado de neve.


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Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um acto antipático!
Deserta a Ilha, e no lençol aquático
Tudo verde, verde, — a perder de vista.

Porque vos fostes, minhas caravelas,
Carregadas de todo o meu tesoiro?
Longas teias de luar de lhama de oiro,
Legendas a diamantes das estrelas!

Quem vos desfez, formas inconsistentes,
Por cujo amor escalei a muralha,
Leão armado, uma espada nos dentes?

Felizes vós, ó mortos da batalha!
Sonhais, de costas, nos olhos abertos


Santa Teresinha de LisieuxTeresa-de-Lisieux

Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um acto antipátiDo Poderoso visto as armaduras,
Pois Sua mão dignou-se me adornar.
Daqui por diante nada mais me assusta;
Quem me vai separar de Seu Amor?
Lançando-me, a Seu lado, em plena arena,
Sei que não temerei ferro nem fogo;
Saibam meus inimigos: Sou rainha,
Sou esposa de um Deus!
Jesus, guardarei as armaduras
Que visto ante Teus olhos adorados.
Meu mais belo ornamento, até morrer,
Serão meus santos votos


Talles Azigon34375373166_404dca4f54_k

 

Desing

pego em uma
palavra
para desenhar
sonho
num  papel
ou led
grafo forma
com som por dentro
um poema
é
som e imagem

voltemos
oito milanos
onde tudo
era intuito

e brincar

a
s
s
i
m
s   ó
não era apenas  inobjetivo
era
impossível

antes da escrita

n
o
s
s
o
v
e
r
d
a
d
e
i
r
o
c
r
i
s
t
o

tudo era                 mas ainda é
impreciso

em algum lugar
alguém

junTou
I
uma              I    daquilo
ideia             I     que se via
I
coM a ideia
daquilo se se sentia

C R I O U A P O E S I A

nunca um poema
foi pá ou guindaste
n d o       r a      u
e      a    d           é
u    m     e     aos  c
g    u     p
r
e

porém a muralha da china
só se compreende com poesia

e como
toda criação
mais distinta
da aventura humana
o poema
feito de nada e tudo
fez-se
de sempre em diante

começo    fim
alto           baixo
sereno      tenso
espada     escudo

por ser tão pequena a criatura humana
e
GRANDIOSO SOMENTE O QUE ELA INVENTA

na frente da mulher e do homem
é necessário um poema

poema
para:

  • invetar uma pátria

  • proclamar uma guerra

  • evitar uma injustiça

  • engrandecer a insignificância da vida

conquistado feito explorado tudo
só sobra o poema, mudo mundo

para as estrelas distantes
iluminando planetas distantes

ainda vazios?

d es ti tu í dos
de tudo
casa / comida / armas

é com o poema
que o oprimido  contra ataca

essa energia inventada por nós desde então nos funda

quando findar
o planeta
por culpa nossa
ou falta de sorte

será somente
com um poema

nossa entra definitiva
na inexistência da morte